É domingo – mas não no parque. Ao meio-dia, com 30 graus e sol a pino, o asfalto esquenta no estacionamento transformado no novo ponto de food trucks de São Paulo. Entre as ruas Augusta e Frei Caneca, a faixa estreita ladeada pelo concreto dos muros grafitados e prédios de todos os lados foi tomada por furgões coloridos, onde chapas, churrasqueiras – e micro-ondas – aquecem de cachorros-quentes de javali e hambúrgueres de cordeiro a ceviche “gourmet”, servidos em pratos de plástico por 20 e tantos reais a famintos clientes em fila. O ruído dos carros é abafado pela batida indie do DJ e pelo clamor dos pedidos e conversas nas mesas, onde jovens bem vestidos bebendolong necks quentes dividem espaço com famílias e crianças a chorar.

A descrição, apocalíptica, encontra cada vez mais reflexo na cidade, onde espaços para comida de rua têm surgido em bairros abastados, seguindo uma tendência  paradoxal: a comida que sua propaganda vende (#vemprarua é a tag nas redes sociais) não é servida na rua, mas em espaços fechados com food trucks, carros adaptados que, apesar de móveis (têm rodas para isso) ficam parados em estacionamentos, galpões e shoppings: são os food parks.

“Aqui fica ao ar livre, tem uma musiquinha, rola um dog com raio gourmetizador e gente bonita”, diz o analista Bruno Mello, 27 anos, a mirar as loirinhas na mesa coletiva. “Barato, não é”, contrapõe o amigo, ao som de David Bowie (Let’s Dance!). “Já gastamos cinquentinha em cerveja e comida.” Mas é um troço despojado, retoma Mello, para quem o local virou programa domingueiro. “É uma baladinha na rua. Ó só: tô de chinelo e bermuda.”

O paulistano quer comer na rua. Asfixiado pela ânsia do mercado imobiliário e pela inanição das políticas urbanísticas, que o privam de usar um espaço público cada vez mais exíguo, o cidadão da megalópole de 11 milhões de almas, trânsito atroz e custo de vida alto (o preço médio da refeição passa de 36 reais) almeja algo mais. Na dialética urbana, a cidade estrangula seus habitantes com prédios e carros e eles se rebelam como sabem: pagando (muito) pela novidade (incompleta) do modismo (usurpador). Seja aqui no parque ou na barraquinha da feira – que vende de pastel a acarajé há dois séculos – é o atávico desejo de comer descompromissadamente ao ar livre o que move o fenômeno.

“Dá pra provar várias comidas diferentes”, diz a gerente Daniella Ambragi, comendo arroz “asiático” num isopor. “Pra gente virou programa: almoçar no food park.” Não incomoda o ambiente pouco convidativo? “Verdade, é malfeito. No Iguatemi era mais agradável.” Porque até o ícone do consumo paulistano fez um evento de food trucks. Outros shoppings e galpõesBrasil afora seguiram o exemplo. E a comida de rua renovada ganhou o País – em cárcere privado. Em São Paulo, terra da gourmetização, porém, virou febre. Da tevê à internet não se fala de outra coisa. É o talk of the town. Tanto está na moda que até a São Paulo Fashion Week teve comida sobre rodas, e por até 45 reais, incluindo paella.

Mas é nos parks que a moda pipoca. No Butantã, ao lado do fétido Rio Pinheiros, hordas de executivos fazem fila para comprar hambúrgueres a 24 reais, que comem sob teto de zinco. No Wheelz, na Vila Olímpia, mais hipster, com plantas e DJ, as mesas não dão conta. Muitos comem de pé. E no Calçadão Urbanoide, perto da Paulista, mal dá para entrar na hora do almoço. Turistas param na entrada para fotos, seja dos belos furgões, seja do espaço. “Achei lindo esse caos urbano, é a cara de São Paulo”, diz o chef francês Djilali Hennous. “Na Europa temos belos parques, mas quando viajo prefiro a bagunça.” E não vai comer? “Parece uma delícia, mas 7 euros por um hot-dog é para os bobos.” O termo sugestivo é abreviação de “bourgeois bohême”: jovens com dinheiro que se pretendem alternativos. Bingo.

A genealogia da moda remonta a 2012, início da retomada (“gourmet”) da comida de rua local via feiras gastronômicas. N’O Mercado, chefs famosos vendiam suas receitas em barracas a clientes que comiam de pé, pagando muito por pratos descartáveis e adorando. O evento estourou na mídia, ganhou versões. E os empresários viram aí a chance de deslanchar o negócio almejado com pouco capital e burocracia, e sobre rodas – o termofood truck vinha dos EUA na hora certa para ser abraçado pela anglofilia brasileira.

“Eu pus a roda na rua há um ano, na raça, quando ainda não tinha regulamentação”, conta Adolpho Schaefer, do Holy Pasta. Investiu 60 mil reais e começou na rua. “Eu via uma vaga, estacionava, abria a janela e vendia, como deve ser um food truck”, ironiza. “Nunca parei em food park. Isso só simula a rua, é uma mentira. Sempre acreditei na identidade da comida vendida na rua.” Como ele, outros “truckeiros” mais puristas (e coerentes) mantêm uma espécie de contramovimento aos parks, pressionando a prefeitura para poder, enfim, estacionar no lado de fora da rotina.

“Muitos têm medo da rua, porque às vezes não tem fluxo”, diz Márcio Silva, do Buzina Food Truck, de hambúrgueres. “Mas no park eles pagam 300 reais de diária, o dobro no fim de semana. Não faz sentido.” Nos EUA, diz, os parks ao menos oferecem shows, áreas verdes, lazer. “Aqui eles são uma praça de alimentação a céu aberto.” O que explica isso, além da Síndrome de Estocolmo local, é a burocracia. Até o ano passado, era ilegal vender comida na rua. Com o modismo, veio a Lei da Comida de Rua, mas as regras são rígidas. Só se pode parar em pontos decididos pelas subprefeituras, após se cadastrar e receber a licença e os avais da vigilância sanitária e CET. Os pontos são poucos (900) e, alguns, mal localizados. Pois não há uma real política pública para retomar o espaço urbano em prol do estômago do cidadão.

“Até traduzimos leis americanas e levamos à prefeitura”, diz Silva. Em São Francisco, diz, tendo a autorização e pagando a taxa, pode-se parar em qualquer vaga. Mas a situação caminha. A subprefeitura de Pinheiros, por exemplo, concedeu licenças e até acatou a demanda de que os pontos fossem rotativos. Dezenas de furgões legalizados ja circulam. “É um laboratório”, diz Schaefer, cuja Kombi negra vende macarrão legalmente desde janeiro. “Os trucks são bem-vistos, quebramos o paradigma do dogueiro sujinho. Essesparks têm os dias contados. O futuro é na rua.”

Enquanto isso, muitos furgões seguem no cárcere e com público cativo, mesmo que por falta de opção . “Em São Paulo há uma carência do que fazer ao ar livre”, justifica o produtor Lourenço Neto. “Não é como Berlim, onde os trucks ficam nas praças. Mas acho que esses locais não vão durar muito. A moda vai passar. Porque, gente, as pessoas vão perceber que é absurdo pagar tanto pra ficar aqui.”

Carta Capital