O grupo de teatro Pombas Urbanas foi criado há 25 anos em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. A roda Samba da Vela, há 15, em Santo Amaro, zona sul. Nesta terça (25), às 20h, eles se juntam em uma apresentação especial que misturará teatro e samba em uma região central da cidade: o Parque do Ibirapuera.

O encontro abre o Estéticas das Periferias, evento que, a partir desta terça (25) até o dia 30, traz expoentes da cultura dos extremos da cidade, com cerca de 80 atrações espalhadas por 30 pontos culturais. O festival é organizado pela ONG Ação Educativa em conjunto com outras entidades e é financiado com recursos públicos.

Na abertura desta terça, soma-se ao Pombas Urbanas e ao Samba da Vela o rapper Criolo, que é apoiador do evento gratuito.

“Todos os grupos que estão na periferia observam o que o outro faz, mas nem sempre podemos estar juntos”, diz o ator Adriano Paes Mauriz, do Pombas. “O Samba da Vela tá do outro lado da cidade, e embora tenha essa admiração por eles, é a primeira vez que trabalhamos em um projeto”.

Adriano, 39, integra o Pombas Urbanas desde seus 14 anos, quando o coletivo foi criado pelo dramaturgo peruano Lino Rojas (1942-2005) em São Miguel. Hoje, sediado num galpão de 1.600 m2 em Cidade Tiradentes, o grupo coordena um espaço comunitário que recebe dezenas de iniciativas culturais por mês.

“Nos últimos anos muita coisa tem acontecido na periferia. Surgiu nessas regiões um eixo de produção, circulação, e democratização, mas esses trabalhos não tem oportunidade de se cruzarem”, diz o ator.

Para o sambista José da Cruz, o Chapinha, um dos fundadores da roda Samba da Vela, o evento acaba por exercer uma função que caberia às secretarias de cultura ao jogar luz sobre essas iniciativas. “Nos reunimos para falar de todas as linguagens da cultura, para chegar a um patamar que ela merece. Estamos fazendo o papel do poder público”.

FINANCIAMENTO

Os recursos para o festival, porém, vêm de fato do poder público. Segundo Eleilson Leite, idealizador do festival e coordenador cultural da Ação Educativa, há uma resistência em aceitar patrocínio por parte dos organizadores, por uma questão de independência.

Neste ano, não é de se admirar, o orçamento foi enxugado. Não houve investimento no evento, por exemplo, por parte da Secretaria Estadual de Cultura, ante R$ 180 mil despendidos no ano passado pelo órgão.

O valor fornecido apenas pela pasta em 2014 foi o total captado para esta edição, somando recursos oriundos da Prefeitura, da Secretaria de Direitos Humanos, das Fábricas de Cultura geridas pela Organização Social Cata-Vento e da Fundação Via Varejo, pertencente ao grupo Casas Bahia.

“Achatou o cachê de todo mundo, isso é um dado. Quem se apresentava por R$ 5 mil antes, agora está fazendo show por R$ 2,5 mil”, diz o curador. “Conseguimos manter as proporções graças a generosidade dos artistas, que toparam fazer por menos”.

Ainda em relação aos anos anteriores, a quinta edição do festival parece estar mais engajada, diz Eleilson. Entre os temas que estarão em foco nas apresentações estão a homofobia, a falta d’água e a redução da maioridade penal. “Tem vários grupos levantando essa bandeira, que é muito cara na periferia”.

O Estéticas das Periferias surgiu em 2011 com a intenção de ser um ciclo de seminários. Com o tempo, adquiriu contornos de festival, e o “s” a mais no nome, para expressar a pluralidade da cultura periférica paulista.

Há quatro anos, a abertura é sempre realizada no Auditório Ibirapuera, e o encerramento na “quebrada”, conta o coordenador. “É uma forma de ocupar esses espaços nobres, onde a cultura da periferia tem pouca atuação. E é importante iniciar em uma região central, que todo mundo consegue chegar”.

Para ele, durante o evento, os problemas de transporte para o público são superados pelo “trânsito artístico”, com artistas de uma região sendo deslocados para outros extremos da cidade.

DAS RUAS

O espetáculo que será apresentado no Auditório Ibirapuera nesta terça é uma versão encurtada da peça “Era uma Vez um Rei”, uma história sobre moradores de rua que começam a brincar de realeza usando papelões, e acabam iludidos pela possibilidade de poder.

Antes do espetáculo, às 17h, haverá uma mesa redonda sobre cultura e política, que contará com a presença do secretário municipal de Cultura, Nabil Bonduki (PT), da escritora e pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda, da atriz Roberta Estrela D’Alva e do poeta Allan da Rosa.

Ao final da apresentação, a roda de samba comandada por Chapinha puxará canções de seu repertório, marcado ao mesmo tempo por um tom jocoso e por uma temática social —com letras que falam sobre uma adolescente grávida, a lotação dos transportes públicos e as manifestações recentes.

O sambista participará também de outro momento do Estéticas: um encontro cearense 2.15 idealizado por Elenilso —ele também do Estado nordestino. No sábado (29), estará no Bar do Zé Batidão, ícone da zona sul, famoso por sua feijoada e onde acontecem os Saraus da Cooperifa. Ali, fará uma espécie de jam session com a poeta do Grajaú, dona Maria Vilani, mãe do rapper Criolo, o cordelista Costa Senna e o músico Pingo de Fortaleza.

Veja os destaques do evento:

Abertura
Grupo teatral Pombas Urbanas será acompanhado dos músicos do Samba de Vela em uma apresentação que mistura teatro e música. A performance contará ainda com participação especial do rapper Criolo.
QUANDO Terça-feira (25/8), às 20h
ONDE Auditório Ibirapuera, Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº
> ingressos serão distribuídos às 18h30

Prodígio
Rapper une música e grafite para fazer crítica social
QUANDO Domingo (30/8), às 14h
ONDE Fábrica de Cultura Itaim Paulista, r. Estudantes da China, 572

Negaly
Funkeira feminista se apresenta em parceria com a Funk TV
QUANDO Domingo (30/8), às 14h
ONDE Fábrica de Cultura Cidade Tiradentes, r. Henriqueta Noguez Brieba, 281

Valnitta
Projeto traz representações baseadas nas performances de Anitta
QUANDO Domingo (30/8), às 14h
ONDE Fábrica de Cultura Sapopemba, r. Augustin Luberti, 300

Chapinha do Samba da Vela
Velha guarda da Vai Vai se apresentará ao lado da poeta Maria Vilani, do cordelista Costa Senna e do músico Pingo de Fortaleza
QUANDO Sábado (29), às 14h
ONDE Bar Zé Batidão, r. Bartolomeu dos Santos, 797

Programação completa em: esteticasdasperiferias.org.br/2015/