O asfalto cozinhando a cerca de 150 graus torna mais sufocante o calor da extemporânea tarde de outono. Numa das muitas áreas ao ar livre do ateliê de Santa Teresa, Carlos Vergara mexe a mistura escaldante, pega com um cadinho um tanto do líquido grosso e derrama o piche sobre uma estrutura de madeira. O preto brilhante cobre o desenho recortado em MDF, que ganha densidade. Depois de seca, a obra irá para a parede, juntar-se a outras dez já realizadas. O conjunto de trabalhos que ele vem chamando de “Tatuagens”, algo totalmente novo na trajetória do artista, será exibido na Mais Um Galeria de Arte, a partir da próxima terça-feira (para convidados; quarta, para o público), na exposição “Carlos Vergara — Inéditos”. A mostra tem curadoria de Fernando Cocchiarale, um compromisso assumido com a galeria antes de ter sido convidado para ser curador-geral do Museu de Arte Moderna (MAM).

— Elas surgiram como pequenos pensamentos, desenhos de canto de página. São anotações antigas e atuais, despretensiosas, às quais resolvi dar o peso do discurso, trazendo para o espaço, como se o desenho pudesse ganhar corpo — diz Vergara.

As tatuagens se originaram nos traços abstratos dos desenhos, com exceção de duas. Uma delas tem como modelo a foto do menino sírio Aylan, encontrado morto numa praia da Turquia — “Ele é elementar, mas a tragédia se mantém”, comenta o artista. Outra, onde se identifica a arquitetura de Brasília, retrata “os ratos abandonando o Planalto”. O asfalto usado em mantas de impermeabilização é uma matéria-prima nova na carreira artística, mas não em sua vida — como analista de laboratório da Petrobras, onde ingressou por concurso aos 19 anos, teve contato com o subproduto do petróleo. “É um material, inerte, eterno, vindo de jazidas de 300 milhões de anos”, diz.

— O artista tem dois problemas quando acorda de manhã: “O que vou falar?” E, uma vez decidido isso, “como vou falar?”. O material é escolhido como uma necessidade específica de cada trabalho. Aqui, queria uma coisa tosca, meio mole, meio dura, que não fosse “design”, e sim meio bruto.

ARTE E MERCADO, “ANDARES DIFERENTES DA MESMA ENFERMARIA”

No imenso ateliê do artista, os trabalhos de diversas fases se espalham por uma sucessão de salas: estão lá os “Sudários”, monotipias feitas a partir do decalque do chão ou de superfícies de locais como as Missões do Sul do Brasil ou uma antiga ruína do Cazaquistão, as fotografias recortadas e compostas em 3D (quatro delas também estarão na mostra), telas inspiradas nos mangues da Barra, o registro fotográfico do bloco Cacique de Ramos, dos anos 1970, instalações, esculturas, cadeiras de papelão feitas por ele nos anos 1960, “quando não tinha dinheiro para comprar móveis”, ou um banquinho de feijão, parte de um mobiliário infantil para um shopping na Barra. Entre árvores frutíferas — tem manga, banana-figo, amora, pitanga e laranja —, o ateliê propriamente dito, que ele chama de “padaria” (“é onde faço o pão de cada dia”) reflete, na profusão de materiais, um percurso artístico não amarrado a estilos, algo de que se orgulha.

— Picasso tem uma frase de que gosto muito: “O pintor pinta o que vende; o artista vende o que pinta”. Eu sempre tive a chance de fazer o que queria, não o que os outros queriam — diz ele, para quem “arte e mercado são dois andares diferentes da mesma enfermaria”, ainda que não antagônicos, frisa.

Vergara, que se iniciou na artes pela joalheria — expôs pela primeira vez aos 22 anos, em 1963, na VII Bienal de São Paulo —, de fato sempre se sentiu à vontade para fazer o que quis. Produzia seu trabalho enquanto jogava vôlei pelo Fluminense. Certa vez, Iberê Camargo, de quem era assistente, o pressionou para que se decidisse:

— O Iberê ficava puto quando eu dizia que tinha que ir embora, pois treinava às 19h. “Ou você escolhe uma coisa ou a outra”, dizia. Com 22 anos você está com tudo pela frente, tem que experimentar de tudo. Vai burocratizar a sua vida? — observa Vergara.

Artista que esteve na linha de frente da mítica exposição “Opinião 65”, no Museu de Arte Moderna, um ano depois da instalação do regime militar no Brasil, ele diz que a crise que se vive hoje no país, ainda que de outro escopo, exige o mesmo tipo de densidade daquela época.

— A ditadura fez mal a muita gente, mas nos ensinou a ser mais densos, nos levou a um amadurecimento quase prematuro. A arte é feita na hora do pensar. Não tem a ver com habilidades. E uma de suas funções é abrir o olho de quem vê, mostrar o invisível por trás do visível.

Aos 75 anos, Vergara vai todos os dias ao ateliê, onde tem cozinhado para amigos e visitantes, e nos finzinhos de tarde pode ser encontrado no Clube Marimbás, no Posto 6 de Copacabana, bairro onde mora — “Tenho uma função social que é fiscalizar o ritmo das ondas”, diz, quase com seriedade. Num “impulso impensado”, acaba de aceitar a direção cultural da agremiação, e como não foge à luta, já programa uma primeira exposição, do cartunista Jaguar, enquanto prepara, para o FotoRio, uma mostra de sua obra fotográfica, no Centro de Arte Hélio Oiticica, em que se destaca o registro do bloco Cacique de Ramos.

Vive cercado de outros artistas, muitos mais jovens — é um dos principais articuladores, ao lado de Raul Mourão, do Clube Jacarandá, grupo reunido para refletir sobre arte e pensar projetos conjuntos, e que retoma suas atividades no dia 21 de maio, na Villa Aymoré, na Glória. Recentemente, foi convidado pelo O.bra Festival para fazer um grafite de 80 metros quadrados na Cracolândia, em São Paulo, em parceria com o grafiteiro Tinho, de quem comprou uma obra.

“Carlos Vergara — Inéditos”

Onde: Mais Um Galeria de Arte — Rua Garcia D’ Ávila 196, Ipanema (3085-3000).

Quando: Seg. a sex, das 10h às 19h; sáb., das 10h às 17h. De 27/4 a 30/6.

Quanto: Grátis.

 

Publicado en O Globo