El cineasta brasileño Marcelo Gomes denunció este jueves en la Berlinale que “Brasil está viviendo una grave crisis democrática” amenazada “desde hace casi un año por un Gobierno ilegítimo”, en referencia a Michel Temer, quien asumió tras el golpe de Estado parlamentario contra Dilma Rousseff.

La denuncia se hizo en un manifiesto firmado por 12 cineastas del país suramericano, quienes alertan sobre la situación en Brasil y apelan a la solidaridad de la comunidad internacional.

Gomes aprovechó la presentación de su filme Joaquim, un duro retrato del héroe brasileño “Tiradentes” que compite por el Oso de Oro, para pedir el apoyo de instituciones, productores y colegas de todo el mundo, ante el riesgo de que el país pierda la capacidad de su industria debido al proyecto del mandatario interino de Brasil, Michel Temer, que consiste en “eliminar derechos en los campos sindicales, de la educación, salud pública y sobre todo de la cultura y el cine”.

El director comparó la actualidad brasileña con su filme basado en la figura histórica de Joaquim José da Silva Xavier, alias “Tiradentes”, que luchó contra el colonialismo portugués en el siglo XVIII. “Esto ocurría hace dos siglos y medio y no ha cambiado prácticamente nada en Brasil, con la única excepción del período en el que el presidente Lula trató de cambiar esta situación, extendiendo los beneficios de la riqueza del país a las clases menos privilegiadas”.

“Todas las colonizaciones han sido corruptas y crueles y la portuguesa no ha sido la excepción”, acotó el cineasta.

El próximo 18 de febrero el jurado de la Berlinale anunciará el ganador del Oso de Oro, premio por el que compite también otra película latinoamericana Una mujer fantástica, del chileno Sebastián Lelio.

Publicado en Telesur

Berlim: cineastas brasileiros criticam governo e pedem debate

Realizadores do audiovisual brasileiro leram um manifesto durante o Festival de Berlim em que pedem a manutenção das políticas públicas para o cinema nacional.

Com críticas ao governo Michel Temer, a carta foi lida numa cerimônia promovida pela Embaixada do Brasil na Alemanha. No texto, introduzido pela cineasta Daniela Thomas, que estreou no festival o seu filme “Vazante”, os realizadores demonstram preocupação com os rumos das políticas implementadas pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) nos últimos anos.

“Nos últimos anos a Ancine tem direcionado suas diretrizes, conservando com atenção os muitos Brasis. Ampliou o alcance dos mecanismos de fomento, que hoje atingem segmentos e formatos dos mais diversos, entre eles o cinema autorial, aqui representado”, diz o manifesto, lido por diretores como Laís Bodanzky, Julia Murat, Cristiane Oliveira e Felipe Bragança — todos com filmes em cartaz no evento. Apenas um dos cineastas brasileiros participantes do festival, João Moreira Salles, não assinou o manifesto.

O atual diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel, fica no cargo até maio, depois de 12 anos no órgão. Não não se sabe quem irá substituí-lo.

Em maio do ano passado, um outro protesto contra o governo feito em festival estrangeiro provocou uma grande repercussão. Na ocasião, e quipe de “Aquarius”, liderada pelo diretor Kleber Mendonça Filho, estendeu cartazes em Cannes em que chamavam de “golpe” o afastamento de Dilma Rousseff da presidência.

Leia o manifesto na íntegra:

“Estamos vivendo uma grave crise democrática no Brasil. Em quase um ano sob esse governo ilegítimo, direitos da educação, saúde, trabalhistas foram duramente atingidos. Junto com todos osoutros setores, o audiovisual brasileiro, especialmente o autoral, corre sério risco de acabar. A diretoria da ANCINE (Agência nacional de cinema) está agora em processo de substituição de 2 de seus 4 diretores, que serão anunciados pelo ministério do atualgoverno.

O Brasil é formado por uma diversidade étnica-racial-cultural-religiosa e de gênero gigantesca. E a consciência dessa pluralidade tem se mostrado peça-chave na hora de planejar os programas educacionais, econômicos, culturais e de saúde do nosso país.

Na política do audiovisual brasileiro, não foi diferente. Nos últimos anos, a Ancine tem direcionado suas diretrizes observando com atenção esses muitos Brasis. Ampliou o alcance dos mecanismos de fomento, que hoje atingem segmentos e formatos dos mais diversos, do cinema autoral ao videogame; das séries de TV aos filmes com perfil comercial: do desenvolvimento de roteiro à distribuição.

O resultado é visível. O ano de 2017 começou com a expressiva presença de filmes brasileiros nos três dos principais festivais internacionais, totalizando 27 participações em Sundance, Rotterdam e Berlim. Não chegamos a esse patamar histórico sem planejamento, continuidade e diálogo entre ANCINE e a classe realizadora, principalmente por meio de duas ações de fomento: a criação de uma lei que obriga os canais de tv a cabo a exibirem 3h30 de programação brasileira e a criação do Fundo Setorial do Audiovisual, que investe em várias linhas, em todos os tipos de audiovisual em qualquer fase de produção.

Entre as políticas do Fundo Setorial,gostaríamos de destacar, em especial, as políticas regionais, o edital de tv pública, o edital voltado para filmes de arte com perfil internacional, os editais e acordos de co-produção internacional.

As ações implementadas incidiram de forma positiva no setor audiovisual, que cresce 8,8% ao ano. Uma taxa superior à média do conjunto dos outros setores da economia brasileira, representando um valor adicionado de 0,54% na economia nacional. Esse percentual é maior do que o gerado pela indústria farmacêutica, de produtos eletrônicos e de informática, por exemplo.

O percurso trilhado nos últimos anos posiciona a ANCINE e o Setor Audiovisual em possibilidade de aprimoramento de suas ações, com disposição para o diálogo e desenvolvimento de instrumentos capazes de proporcionar, em um curto espaço de tempo, um programa de ações afirmativas com recorte de raça e gênero em consonância com a pauta global que impõe a necessidade de aprimoramento e ajuste do setor audiovisual para garantia de maior representatividade e participação da população negra e das mulheres. E acreditamos, ainda, que deve ser incrementada uma política de formação de público, artística e técnica para que novas pessoas possam se qualificar e atuar em toda a cadeia da produção audiovisual. Além de uma política de acervo, para garantir condições para manutenção e acesso ao público da grande produção audiovisual brasileira, realizada ao longo de quase um século de atividade.

Tudo que se alcançou até aqui é fruto de um grande esforço do conjunto de agentes envolvidos entre ANCINE, produtores, realizadores, distribuidores, exibidores, programadores, artistas, lideranças, poder público, entre outros. Acima de tudo, queremos garantir que toda e qualquer mudança ou aperfeiçoamento nas políticas públicas do audiovisual brasileiro sejam amplamente debatidas com o conjunto do setor e com toda a sociedade.

Assim, pedimos às instituições, produtores erealizadores de todo o mundo que apoiem a luta e a manutenção de todos os tipos de audiovisual no Brasil. Defendemos aqui a continuidade e o incremento dessa política pública.”

Publicado por O Globo