El impeachment en poemas

Entre os brasileiros que assistiram à sessão de votação do impeachment na Câmara, em abril do ano passado, poucos saíram indiferentes. Independentemente da posição política, contra ou a favor de iniciar o processo que resultaria na deposição da presidente Dilma Rousseff meses depois, a estranheza dos discursos dos deputados, que justificaram seus votos com louvações religiosas e homenagens a familiares, deixou boa parte da população perturbada. Mas o poeta carioca Roy David Frankel decidiu transformar o que viu em literatura. Em “Sessão”, que será lançado na próxima segunda-feira (dia 17) — quando a votação completará um ano — na Praça São Salvador, a partir das 19h, ele seleciona e recorta as falas dos políticos que participaram do histórico episódio e as versifica, transformando-as numa espécie de ready-made poético.

— Ainda hoje existe uma divisão muito grande a favor ou contra o impeachment, com opiniões inflamadas de todos os lados — explica o autor, de 30 anos, que teve a ideia do projeto durante uma aula de seu doutorado em Letras. — Achava importante que o livro não tivesse uma palavra ou opinião minha sobre o processo. A ideia é abrir os discursos e mostrá-los por dentro, para que cada um possa chegar à sua própria conclusão.

Trecho de «Sessão» – Reprodução / Agência O GLOBO

Entre novembro de 2016 e fevereiro de 2017, Frankel se debruçou sobre as notas taquigráficas da sessão e as transformou em versos livres. Para que o leitor se ambientasse, o poeta fez questão de manter a cronologia da votação e a ordem das falas, da apresentação de abertura da sessão à leitura do resultado final. Embora se trate de um recorte — se registrasse todas as intervenções dos mais de 500 parlamentares, o livro se tornaria um épico impublicável —, “Sessão” teve como regra não mutilar os discursos mais curtos, proferidos durante a votação. Já aqueles preâmbulos mais longos, feitos antes, não foram incluídos na íntegra. Outro princípio foi dar proporcionalidade entre os discursos pelo votos “sim” e “não”.

Os nomes dos parlamentares não estão citados. Até porque, como explica Frankel, o objetivo não era criticar um político em particular, mas fazer uma reflexão sobre “que política é essa que está acontecendo”. Mesmo que, de tão icônicas, algumas frases sejam facilmente associadas a seus autores (como, por exemplo, a homenagem de Jair Bolsonaro ao general Ustra), a colcha de retalhos parecer formar um único poema, longo e homogêneo. Apesar das contradições entre os discursos, é como se todas as vozes fossem uma só: a das entranhas do Congresso, com todos os seus paradoxos.

Trecho de «Sessão» – Reprodução / Agência O GLOBO

Como lembra o pesquisador Eduardo Coelho no posfácio da edição, o verso livre é usado para destacar certas palavras representativas da confusão entre o público e o privado, da pobreza de linguagem e do vazio intelectual dos parlamentares em geral. Ainda assim, o autor tenta não se posicionar sobre os méritos do impeachment em si — apenas desloca falas reais e já conhecidas para um novo espaço de discussão. Não por acaso, o livro não traz, além do nome, nenhum outro dado biográfico, foto ou qualquer referência a Frankel.

— Dado que o país está dividido, qualquer coisa falada só é lida por quem tem uma opinião como a sua. E, quando você usa palavras concretas, transcritas, traz a interpretação para o leitor, permitindo que pessoas de diversas posições reflitam sobre aquilo — argumenta o poeta. — O posicionamento que eu busco no livro é que precisamos repensar nossa política, independentemente de em qual espectro político cada um está situado. “Sessão” remete a seção, divisão, separação, que é o que vivemos hoje no país. E isso só é interessante para os poderosos. Existem muito mais coisas que nos aproximam do que coisas que nos dividem.

“Sessão”

Editora: Luna Parque. Autor: Roy David Frankel. Páginas: 240. Preço: R$ 35.

Publicado en OGlobo
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