“Esquerdinha mortadela”. “Intelectual de merda”. “Artista gosta de mamar nas tetas do governo”. “O politicamente correto está destruindo o país”. “Vai trabalhar”.

Repare como qualquer contraponto a uma certa narrativa hegemônica é imediatamente obstruída com alguma das sentenças acima.

Não é preciso andar com camiseta da foice ou do martelo ou usar o diploma de doutorado como carteirada para ser automaticamente deslegitimado nas conversas com aquele parente bruto, eivado de preconceito desde o nascimento, ou aquele conhecido recém-convertido em entusiasta da Gestapo Kids que, doutrinado até no fígado, agora se preocupa com uma suposta doutrinação escolar.

Não se trata de avaliar as dificuldades de certos protagonistas políticos, artistas, militantes ou intelectuais de estabelecerem pontes para além das plateias cativas ou de iniciados (o que, em si, e há tempos, vale uma reflexão constante), mas de atacar no cerne o papel desses agentes para vislumbrar uma outra realidade – uma realidade menos bruta do que esta onde estamos inseridos.

A sentença definitiva é justamente essa contradição de saída: quem tem o papel de imaginar saídas para além da realidade existente é quase sempre acusado de estar desconectado da própria realidade, e esse sofisma (alguém ainda usa essa palavra) é um detonador para aflorar todo tipo de anti-intelectualismo ou anti-ativismo presentes hoje na sociedade.

É como oferecer flores a um trator: se é papel do artista, do intelectual ou do ativista abrir possibilidades, observar nuances, trabalhar com realidades conflitantes, compostas de diversidades e aspectos nem sempre passíveis de delimitação ou maniqueísmos e, a partir daí, imaginar saídas sem exatamente encerrar as possibilidades, fica difícil encontrar qualquer eco quando os meios de conexão da inteligência estão interditados por tijolos pretensamente definitivos de uma certa verdade.

Não deve ser coincidência que nove em cada dez títulos de vídeos de debates na internet venham com a inscrição “fulano mitou”, beltrano humilhou”, “sicrano lacrou”.

Mitar, humilhar e lacrar não são exatamente a praia de quem quer alargar e não emparedar as saídas com memes divertidos ou sentenças de até 140 caracteres.

A remoção de pontos finais, em vez disso, é o exercício necessário para visualizar o que está adiante ou o que ainda não foi posto nos discursos embaçados pela obviedade.

No campo político, muito tem se falado das dificuldades da democracia representativa de mediar conflitos da sociedade quando estes conflitos são mediados por algoritmos ou esse tipo de sentença.

Não deve ser por acaso, também, que o domínio desses algoritmos, mais ou menos como o domínio do palco e do microfone como palanque, possibilitaram a ascensão de quadros políticos construídos a partir de falsos discursos apolíticos sob slogans criados pela publicidade bem vestida e de fácil digestão.

Saem de cena, sem qualquer sinal de vestígio, os partidos políticos, os programas de governo, as vivências, a presença nas bases do eleitorado.

Em entrevista à BBC, Martin Hilbert, assessor de tecnologia da Biblioteca do Congresso dos EUA, alerta: a democracia não está preparada para a era digital e está sendo destruída.

Segundo ele, a democracia representativa, como a inventaram nos EUA, é um processo de filtrar informação. “Há 250 anos era impossível consultar todas as pessoas e as pessoas tampouco estavam informadas. Então os ‘pais fundadores’ da nação americana inventaram um filtro de informação que chamaram de representação: ter representantes que em seu nome deliberam e definem o que serve à sociedade. Rompemos isso completamente. Os representantes hoje podem ter acesso a tudo o que os cidadãos fazem. E os cidadãos podem ditar a vida dos representantes, com tuítes e outros recursos. A democracia representativa não está preparada para isso”, avalia.

Nesse novo processo de comunicação (grifo deste escriba não menos confuso), em que plataformas privadas patrocinadas por outros interesses privados reúnem usuários e não mais cidadãos para dialogar com seus medos e anseios privados, e não coletivos, a ideia de República como tradução do latim, “coisa pública”, passa a ser substituída em velocidade considerável por uma ideia de clientela, de produtos e serviços, mas também de valores.

Não se trata de subestimar a capacidade do público de fazer esse filtro, mas de investigar qual a possibilidade de ele se dedicar a um mergulho sobre os próprios conflitos – do qual o questionamento de seu lugar no mundo é ponto central – em um mundo apresentado o tempo todo como um produto pronto, determinado pela urgência de sobrevivência cuja ordem é nascer, trabalhar e morrer sem pensar em nada mais que isso para não desconfiar do caráter limitante da própria experiência com o mundo, com os outros, consigo mesmo.

“Não pense em crise, trabalhe” é um bordão convidativo para completar a travessia pulando de bordão em bordão, como os lembrados no primeiro parágrafo. É também uma máquina de produzir neuroses debaixo de conflitos internos (e familiares e profissionais) sequer nomeados.

Pensar é sair da zona de conforto, é se enlamear na correnteza de água barrenta de uma realidade que não cabe numa caixa pronta de resposta – essa realidade, em processo constante de transformação, deixa de ser realidade quando anunciada.

“Lacrar”, expressão rara para entender esses tempos em que ninguém entende mais nada, deveria ser um contrassenso do próprio diálogo, se é que isso ainda existe.

Daí, talvez, o descarte daquilo para o qual costumávamos recorrer quando as respostas se mostravam insuficientes (spoiler: é algo mais, e mais silencioso, do que a estridência dos decibéis de um espetáculo sonoro e visual de duas horas em sala de projeção 3D ou arena lotada a preço de ouro para converter a frieza dos dias em arrepio da epiderme).

Entre essas peças prestes a virar museu estão os artistas, paulatinamente rebaixados a vagabundos ou vendidos cada vez que saem da toca e se manifestam – a ironia das ironias: a acusação de estarem ligados a este ou aquele partido, esta ou aquela “mamata”, esta ou aquela bandeira fundamentalista parte justamente de quem está ou umbilicalmente ligado a algum partido, alguma mamata ou alguma bandeira fundamentalista.

Quem ousa passar por essa experiência – a travessia de que nos falam Guimarães Rosa a Milton Nascimento – sem se converter em um replicante de verdades-prontas de quem caminha para a morte pensando em vencer na vida (para citar outro cantor popular e praticamente destroçado pelo esquecimento) não é só estranho nos dias de hoje. É também inimigo. Inimigo de uma ideia (limitante de saída) de nação, de ordem, de comportamento, de subjetividade.

Como chegamos até aqui?

Gilberto Gil, em entrevista mais do que recomendada na Folha de S.Paulo, tem a pista: “Isso é fruto do fortalecimento dessa ideologia do produtivismo, da intervenção materialista sobre a natureza. De um lado, esse conceito de exploração e acumulação. Do outro, liberdade, fraternidade, igualdade e os grandes lemas das revoluções. É isso o que está sob ameaça. A causa disso é o materialismo embrutecedor. Cada vez mais consumo, ostentação, luxúria.

O homem não se contenta consigo mesmo. Não se volta mais generosamente para os recantos calados do seu próprio ser, onde encontraria identificação com o todo. Daí vem uma necessidade extraordinária de controles definitivos, que vão dar nos cerceamentos da liberdade, nos totalitarismos. É uma coisa que cresce no mundo inteiro por causa da pouca resolução no conflito entre distribuição e acumulação.”

(Em tempo, vale também conferir, na mesma edição, o que seu parceiro, Caetano Veloso, tem a dizer sobre os tempos sombrios atuais: “meus projetos e sonhos são de grandeza, de ver brotar no Brasil uma força que libere a criatividade de todos os homens e mulheres que nasceram falando português na América e desenhe uma ordem social que ilumine o mundo”.)

Entendam como um conflito entre direita x esquerda e tranquem-se no próprio quadrado, se quiserem (pois daqui é possível ouvir a rebelião de quem travou nas primeiras linhas da fala de Gil e respondeu aos coices de “petralha”, “mortadela”, “vai pra Cuba”, “vendido”, “vagabundo”, “vai trabalhar”, “mamador da teta do governo”).

Por sorte, há ainda quem prefira escancarar janelas para viver confiante no futuro e tentar prever qual o itinerário da ilusão do poder, como uma velha música de um velho compositor.

É o que pode ajudar a pensar se queremos de fato viver num mundo onde os artistas serão ofuscados, pela nossa própria brutalidade, em sua capacidade de mediar os conflitos entre realidade e a iluminação de mundo possível.

É o equivalente a estar morto.

Publicado en Carta Capital