Brasil: Los medios condenaron a Lula

A divulgação da sentença do juiz Sérgio Moro condenando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não deve ter surpreendido muita gente. Com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais escancarado que a Operação Lava Jato não foi criada para combater a corrupção no Brasil. Seu foco sempre foi político, sua missão: impor um fim aos governos progressistas e seu alvo principal, prender Lula.

Estruturada e desenvolvida à imagem e semelhança da operação “mani pulite” (mão limpas) –  realizada pelo Judiciário italiano na década de 1990 – a Lava Jato, assim como sua inspiradora, tem no apoio intransigente dos meios de comunicação o seu principal instrumento.

Sérgio Moro – que em 2004 escreveu o artigo“Considerações sobre a Operação Mani Pulite”, elogiando o processo de caça aos “corruptos” na Itália – descreve bem essa relação entre o Judiciário e a mídia italiana para o alcance dos objetivos da operação.  “Os responsáveis pela operação mani pulite ainda fizeram largo uso da imprensa”. Ele detalha como:

“Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no “L’Expresso”, no “La Republica” e outros jornais e revistas simpatizantes.”

Ele explica que “apesar de não existir nenhuma sugestão de que algum dos procuradores mais envolvidos com a investigação teria deliberadamente alimentado a imprensa com informações, os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva”.

Moro ainda destaca que o resultado mais importante desse engajamento da mídia com a Mãos Limpas foi garantir “o apoio da opinião pública às ações judiciais, impedindo que as figuras públicas investigadas obstruíssem o trabalho dos magistrados, o que, como visto, foi de fato tentado”. E conclui: “As prisões, confissões e a publicidade conferida às informações obtidas geraram um círculo virtuoso, consistindo na única explicação possível para a magnitude dos resultados obtidos pela operação mani pulite”.

Não há, portanto, qualquer improviso no modus operandi da Operação Lava Jato e de Sérgio Moro.

Nem, tampouco, poderíamos incluir ao final deste filme o alerta “qualquer semelhança é mera coincidência”. Muito pelo contrário. Como o próprio Moro constatou em 2004, sem a mídia a operação italiana não teria tido sucesso.

Em vários momentos, Moro se refere ao papel da opinião pública. Em um deles destaca: “Enquanto ela [operação judicial] contar com o apoio da opinião pública, tem condições de avançar e apresentar bons resultados. Se isso não ocorrer, dificilmente encontrará êxito”.

Aí, entra em cena a Globo e Cia.

Sem o apoio da Rede Globo e da mídia oligopolizada, Sérgio Moro continuaria sendo mais um dentre centenas de juízes de primeira instância e a Lava Jato, possivelmente, jamais teria ido parar nas telas de cinema.

Isso apenas confirma a centralidade do papel dos meios de comunicação nos processos políticos, econômicos, sociais e culturais na atualidade: o de construir o senso-comum e moldar a tal da opinião pública.

Antonio Gramsci, pensador italiano, dedicou parte de sua obra para discutir a questão da disputa da hegemonia na sociedade. Ele alerta que: “A tarefa de toda concepção dominante (que, sendo dominante, torna-se portanto também fé, também ideologia para as grandes massas, não conscientemente vivida em todos os pressupostos e em todos os seus aspectos) consiste em conservar a unidade ideológica de todo o bloco social, que é cimentado e unificado precisamente por aquela determinada ideologia”.1

E, como já temos dito muitas e muitas vezes, os meios de comunicação hegemônicos no Brasil são formados por um grupo de empresas privadas, que constituem um oligopólio, e que são parte integrante de uma elite política e econômica que esteve à frente do país por mais de 500 anos. Essa elite, da qual o oligopólio de comunicação é parte e porta-voz, nunca aceitou que o Brasil passasse a ser presidido por líder metalúrgico de esquerda e depois por uma mulher, ex-guerrilheira.

Não conderam Lula, conderam o povo e o Brasil

A condenação de Lula a nove anos e meio de prisão não tem nada haver com a propriedade ou não de um apartamento triplex no Guarujá (é até estranho explicar para colegas estrangeiros que o ex-presidente Lula está sendo condenado por causa de um apartamento de 2 milhões de reais). Sua condenação é para tentar aprisionar os sonhos do povo brasileiro.

Não condenaram Lula, condenaram a ousadia de um povo que achou que podia mais. Condenaram um país que acreditou que podia atuar com soberania, que poderia ser desenvolvido.

O resultado desta cruzada da mídia hegemônica em aliança com a Lava Jato é devastadora para o povo e para o país. Ela abreviou o ciclo de governos progressistas, e recolocou no centro da agenda política e econômica os corolários do neoliberalismo – redução de direitos trabalhistas e sociais, enxugamento do Estado, privatização e entrega de serviços públicos ao mercado.

A Lava Jato desmontou parte da indústria nacional e da economia brasileira, preparando o terreno para a completa desnacionalização industrial e tecnológica, fragilizando nossa soberania e abrindo as portas para o ingresso do predatório capital externo.

Ela fragilizou o processo de integração soberana da América Latina e a política externa brasileira centrada nas relações Sul-Sul, ferindo de morte o projeto dos BRIC’s e possibilitando uma postura subalterna do Brasil aos interesses dos EUA e do capitalismo europeu.

Ou seja, a condenação de Lula é o símbolo do fim de um período em que o Brasil tentou ser Brasil.

Os que buscavam um “grande acordo nacional com o Supremo, com tudo”, alcançaram o seu objetivo. Não, a lei não é igual para todos, como estão tentando fazer crer condenando um ex-presidente. A lei sempre foi e continuará sendo para proteger os interesses políticos e econômicos da elite nacional – no nosso caso, mais ainda da internacional.

Será que ainda tem alguém que se arrisque a defender tudo isso?

Não ouvimos o tilintar das panelas indignadas pela absolvição de Aécio Neves.

Não ouvimos o rufar dos tambores de guerra contra um esquadrão de parlamentares que, a serviço do mercado, rasgaram os direitos dos trabalhadores conquistados há 74 anos, um dia antes da condenação do maior líder sindical do país.

A indignação seletiva, construída pela mídia, nos legou uma nação povoada por zumbis. Os lobotomizados respondem única e exclusivamente aos estímulo da mídia – capitaneada pela Rede Globo. Não têm vontade, nem opinião própria.

É o controle remoto ao avesso. E como ele tem sido eficiente! Porque nos controla sem que percebamos.

Mas tudo tem limite e, aos poucos, as pessoas estão saindo da sua zona de conforto, da sua Matrix. A partir daí, tudo poderá acontecer.

Publicado en Midianinja
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