Umas das mais antigas linguagens artísticas, mas uma das menos prestigiadas, o desenho faz parte do processo de criação de quase todo artista. Seja como projeto, esboço, rascunho, ou como trabalho final, o desenho em algum momento comparece no percurso de uma obra. Investigar diferentes modos de aparição do desenho, eis o que realiza a mostra coletiva “In memorian”, curada por Fernanda Lopes, ao reunir 21 artistas brasileiros de diferentes gerações — Adrianna Eu, Alexandre Brandão, Ana Luiza Dias Batista, Andre Terayama, Cadu, Carlos Fajardo, Cinthia Marcelle e Marília Rúbio, Daniel de Paula, Daniela Seixas, Frederico Filippi, Ivens Machado, Jorge Soledar, Marcio Diegues, Marcius Galan, Marina Weffort, Mayana Redin, Milton Machado, Paulo Bruscky, Ricardo Basbaum e Wagner Malta Tavares — em um conjunto de 40 obras produzidas nos últimos 50 anos.

O texto curatorial no catálogo a ser lançado narra, no seu início, uma história emblemática do caráter conceitual do desenho na produção contemporânea. Era 1953 e o jovem Robert Rauschenberg (1925-2008), que viria a ser um dos grandes expoentes da pop art, batia na porta do ateliê de Willem de Kooning (1904-1997), então uma das maiores estrelas do Expressionismo Abstrato, a fim de pedir um trabalho seu com a finalidade de apagá-lo. Sim, a obra “Desenho de De Kooning apagado” (1953) se constitui no resultado de um mês apagando a grande massa de desenho feita com carvão, tinta a óleo, giz de cera e lápis, em uma folha de papel de cerca de 65 x 55 cm. O gesto radical com vias a produzir um grande vazio se tornou um marco da história da arte e um ponto de inflexão na linguagem do desenho para a futura produção contemporânea.

Assim, “In memorian” apresenta procedimentos que dialogam com o desenho, valendo-se de outras estratégias. Nas fotografias de “Trópico de Capricórnio”, de Cadu, uma série de riscos, traços, revelam a mudança da posição do sol, tanto em seu percurso diário, quanto na passagem de uma estação à outra, sobre uma caixa de areia pigmentada durante os 30 dias anteriores ao início da primavera. O que temos diante de nós são as 18 imagens dos dias ensolarados do período. Já em “Mortuário”, de Alexandre Brandão, ocorre uma desconstrução dos elementos básicos do desenho, um lápis é decomposto em bastão de grafite e lascas de madeira, tornando-se a própria obra.

UMA CHANCE DE ENCONTRO

Em “Diagrama (anos 80)”, Ricardo Basbaum apresenta um grande vinil adesivo no qual uma espécie de organismo com todos os órgãos vinculados uns aos outros desenham pensamentos sobre questões e períodos da história da arte. No caso específico da obra apresentada, temos uma leitura crítica da cena da arte na década de 1980 no Brasil. Poderia ser um ensaio, um texto em prosa, mas a tese surge na forma de um diagrama/desenho. Há ainda as obras da série “Meu cérebro desenha assim”, realizadas por Paulo Bruscky desde os anos 1970, a partir do uso de um aparelho de eletroencefalograma; a instalação de Adrianna Eu, que edifica um desenho no espaço a partir do acúmulo de linhas vermelhas; os planos em tecidos desconstruídos delicadamente por Marina Weffort, fazendo emergir um desenho que flerta com o vazio e o etéreo; as evocações aos desenhos de observação de Cinthia Marcelle e Marília Rúbio; ou ainda “1984 (+) = (–)”, de Milton Machado, no qual uma colagem feita a partir de restos dos trabalhos realizados em 1984 estabelece um vínculo com a dimensão fragmentada da memória.

“In memorian” surge como fruto de uma pesquisa claramente sólida, mesclando nomes de diferentes gerações, através de trabalhos pouco óbvios, em busca de pensar os modos como o desenho se pensa e se apresenta em uma parcela da produção contemporânea brasileira. Um panorama que revela múltiplas possibilidades de aparição de uma mesma linguagem e uma chance de encontro com trabalhos de inúmeros bons artistas em uma só mostra.

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In Memoriam e a arte do desenho

À margem das mostras midiáticas e espetaculosas dos grandes museus, persiste um trabalho criterioso de investigação dos passos da arte contemporânea brasileira, que resulta em exposições tão surpreendentes quanto rigorosas.

A coletiva In Memoriam, da Caixa Cultural Rio de Janeiro, é uma delas.

Organizada por Fernanda Lopes, curadora-assistente do Museu de Arte Moderna do Rio (e que foi pesquisadora- -visitante do Institute of Fine Arts da New York University), a exposição apresenta um panorama da arte brasileira fora do mainstream de quase cinco décadas.

São 37 obras de 21 artistas, englobando desde o multiartista Carlos Fajardo, de 75 anos, até a mineira Cinthia Marcelle, espantosa artista que recebeu menção honrosa há alguns meses na 57ª International Art Exhibition, a Bienal de Veneza.

A mostra conta com desenhos, objetos, vídeos, instalações, performances, fotografias e intervenções. A reunião de artistas foi orientada pela diversidade de abordagens que partem de um mesmo elemento: o desenho.

A curadora realizou, em 2014, uma mostra sobre escultura. Foi quando se deu conta de que “a ideia clássica de escultura tinha se desdobrado, ou sido reapropriada pela produção contemporânea”.

Fernanda notou que, no discurso de artistas como o expoente da land art Robert Smithson, até mesmo a arte tecnológica pode se estruturar a partir das formas clássicas. Segundo Smithson, realizar as gigantescas formas de land art no deserto era o equivalente a “desenhar com escavadeiras”.

A mostra, dividida em módulos, parte da linha (o traço) como elemento central. Há obras que se interessam pelo desenho como projeto e como processo, rastro ou sobra. E há aqueles no suporte clássico do desenho: a folha de papel.

Ocupada com o ensino da arte, Fernanda se deu conta de que os alunos se interessam, ou sabem lidar melhor, com pintura, escultura, desenho. “Já performance e vídeo têm mais resistência. É interessante poder mostrar como um trabalho de arte conceitual, performance, pode ser um desenho, porque propõe um percurso no espaço”, conclui.

No dia 29, às 19 horas, a curadora e os artistas da exposição participam de uma conversa aberta ao público.

Publicado en Carta Capital