Un museo casi virtual

O mais antigo museu de São Paulo é um dos maiores símbolos do descaso com que as autoridades tucanas administram o patrimônio público. Interditado em 3 de agosto de 2013, o edifício-monumento padece de reforma, que inicialmente estava estimada em 21 milhões de reais, mas agora chega à cifra dos 100 milhões.

A Universidade de São Paulo, responsável pelo Museu do Ipiranga desde 1963, tem um orçamento anual de 9 milhões de reais para pagar o aluguel de sete imóveis para onde vão ser transferidos os objetos durante a reforma e cuidar da segurança patrimonial e da prevenção de incêndios.

A instituição estadual de ensino, que sofre com reduções orçamentárias impostas ano após ano pelo governo de Geraldo Alckmin, já sinalizou que, em 2018, haverá novo corte de verbas para o museu. Atualmente, 83 servidores lutam para manter vivo o carinho que a população ainda dedica ao local.

Um laudo técnico condenou o edifício-monumento quatro anos atrás. O forro do auditório e da biblioteca, construído com folhas de palmeira juçara, não resistiu a anos de infiltração. O desmazelo não se resumia ao prédio histórico. O mato alto era frequente no belo jardim do Parque da Independência, inspirado no do Palácio de Versalhes, na França.

O monumento onde fica a cripta de Dom Pedro I era usado para encontros sexuais e paredes do museu mofavam ou tinham reboco com tijolos à vista, como denunciava a Comissão Cultural e Cívica, uma entidade de voluntários do Ipiranga. “São muitas informações e promessas.

Até já insinuaram que iriam privatizá-lo, o que somos contra”, diz o presidente da comissão, Valdir Abdallah. O parque é administrado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, enquanto o monumento é da Secretaria Municipal de Cultura.

Benedito Calixto retratava em 1892 a Várzea do Carmo, hoje Parque Dom Pedro

O Museu do Ipiranga, inaugurado em 7 de setembro de 1895 e erguido sobre a antiga colina inóspita de 1822, onde se convencionou erigir o mito de um Brasil independenteem gesto de falsa espontaneidade, sofreu mudanças radicais que comprometeram o projeto original. Projetado pelo engenheiro-arquiteto italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi e executado pelo conterrâneo Luigi Pucci, o Museu do Ipiranga era um marco arquitetônico concebido para resistir ao tempo.

Mas, na primeira metade do século XX, sapatas de sustentação do subsolo foram cortadas porque impediam a abertura de portas e passagens de circulação, vistas como necessárias para o reaproveitamento do lugar. Só que essa “reforma” comprometeu a rigidez da fundação. Em 1995, o prédio passou por uma grande reforma logo depois do centenário da abertura do museu. Mas nem todos os problemas foram resolvidos.

Na data simbólica de 7 de setembro deste ano, a USP lança concurso público para os projetos de restauro e modernização. Os três melhores estudos preliminares serão premiados e o primeiro colocado assinará um contrato para a elaboração dos projetos executivos. A expectativa é de que o museu seja reaberto até 2022, a tempo das comemorações do bicentenário.

O objetivo é que ele passe a ser todo dedicado à visitação pública e as instalações sejam modernizadas. Antes um cadeirante não podia subir ao segundo andar e não havia internet para os visitantes.

“Será um dos projetos mais importantes de restauro do Brasil”, afirma Solange Ferraz de Lima, diretora do Museu Paulista (o nome oficial do local). “Ele vai se transformar em espaço expositivo do século XXI, preparado para as próximas gerações.”

O futuro é o que vislumbra uma parceria firmada, em fevereiro, entre o Museu do Ipiranga e a Wikimedia (fundação que cuida da Wikipedia e de outros produtos Wiki) no Brasil. Um projeto-piloto colocou no ar as primeiras 149 fotos do acervo da instituição, que soma mais de 70 mil fotografias históricas.Essa leva inicial conta com imagens de quadros feitas pelos italianos Alfredo Norfini e Antonio Ferrigno, que retratam uma São Paulo de meados do século XIX, com canaviais e lavouras de café. Paulista de Itanhaém, Benedito Calixto de Jesus pintou quadros dessa mesma época, por encomenda do museu, de outros municípios e de uma capital ainda com poucas edificações.

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Antonio Ferrigno pintava por encomenda imagens de uma São Paulo arcaica e que iniciava a urbanização

Em Inundação da Várzea do Carmo, de 1892, vê-se o atual Parque Dom Pedro com o Rio Tamanduateí em seu curso normal. Já em Rua do Rosário, de 1858, o desenhista paulistano José Wasth Rodrigues produz uma imagem peculiar, a partir de um retrato original de Militão Augusto de Azevedo, inserindo no quadro personagens de sua própria imaginação. Retratos de personalidades da época foram produzidos por Oscar Pereira da Silva e Tarsila do Amaral.

À primeira vista pode parecer mais uma ação museológica para servir de chamariz ao público. É mais que isso. O objetivo da parceria é abrir o acervo histórico do Museu do Ipiranga para que qualquer um possa baixar as imagens em alta resolução e usá-las livremente.

Até o fim do ano, a coleção de retratos de Militão deve estar disponível. A chamada licença creative commons é parte do projeto mundial Glam (do inglês Galleries, Libraries, Archives and Museum).

Quarto maior site da internet em audiência, a Wikipedia, uma enciclopédia colaborativa, universal e multilíngue, tem o poder de alavancar o acesso a essas imagens em escala astronômica.

O museu Metropolitan, de Nova York, vai disponibilizar 375 mil imagens pelo projeto Glam. Até o momento, já estão no ar 121 mil e os resultados impressionam. Só em agosto houve 47 milhões de acessos virtuais ao museu.

O quadro de George Washington, pintado pelo célebre retratista norte-americano Gilbert Stuart, foi visto 392 mil vezes, enquanto a imagem de um dos autorretratos de Van Gogh com chapéu de palha, pintados no fim dos anos 1800, teve quase 275 mil acessos.

Quase 150 instituições educacionais e culturais fazem parte do Glam, como o espanhol Museo Picasso e o inglês British Museum.

Liberar o acesso público de imagens pela Wikipedia tem uma dimensão maior e mais simbólica do que a proposta do Google Arts & Culture, que também procurou o Museu do Ipiranga e deve firmar parceria de outra natureza, como as já feitas com o Masp e a Pinacoteca.

No site da gigante companhia de tecnologia, exposições são montadas e o visitante pode até “caminhar” virtualmente pelos corredores do Museu d’Orsay, de Paris, e do Guggenheim, de Nova York, ou navegar por exposições, mas sempre vendo imagens em resolução baixa.

No projeto Glam, qualquer um pode baixar essas imagens para fazer camisetas, canecas ou outdoors, por exemplo. Ou pode ajudar na identificação das imagens, como faz um historiador da Ilha da Madeira, wikipedista voluntário que insere as categorias dos quadros.

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A parceria com a Wikimedia permite a qualquer pessoa acesso às imagens históricas e uso livre delas

O Museu do Ipiranga, que ficará fechado pelo menos até 2021 ou 2022, ganha assim uma nova chance. “Essa coleção não existia no mundo do século XXI, mas em algum momento essas imagens iriam cair na rede”, afirma João Alexandre Peschanski, supervisor de comunicação do Cepid Neuromat, um centro de pesquisa científica de ponta sediado na USP e financiado pela Fapesp.

A equipe de Peschanski é responsável por subir o conteúdo do museu na internet, criando a segurança para que as imagens sejam devidamente identificadas e rastreadas, por meio dos chamados metadados.

Ao abrir o conteúdo para uso e apreciação livres, o Museu do Ipiranga permite que reparações históricas sejam realizadas pela própria população. Por ser um museu de história, parte do acervo representa o retrato de uma sociedade com valores supostamente superados, como a série de objetos de exaltação aos bandeirantes, inclusive as esculturas de Raposo Tavares e Fernão Dias Paes Leme.

Uma exposição sobre os bandeirantes que ficou em cartaz até o último dia 6 terminava com a questão “herói de quem?”, junto de uma imagem do julgamento de Borba Gato. “Vivemos num mundo de imagens, mas somos reféns delas e não sabemos como lê-las. Nosso papel é colocar as perguntas, não dar respostas prontas, mas ensinar a interpretar essas imagens”, explica a diretora Solange Ferraz de Lima.

Publicado en CartaCapital
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