Se por um lado estamos cada vez mais imersos em bolhas virtuais e restritos aos limites impostos pelas paredes das casas e dos escritórios, existe uma necessidade natural do ser humano de interagir pessoalmente em espaços públicos. Basta interditar o trânsito numa rua que em pouco tempo as pessoas irão ocupá-la. A Avenida Paulista está aí para confirmar. E, creio eu, que o efeito poderia ser igual, guardadas as devidas proporções, em qualquer canto da cidade.
Essa necessidade de se encontrar no espaço público tem sido objeto de atenção dos atores sociais, políticos e econômicos. Neste último caso, basta ver que existe um número razoável de campanhas publicitárias que utilizam a temática da ocupação urbana. Montadoras e construtoras, setores que por décadas entupiram nossas vias e criaram mecanismos de aprisionamento individual, hoje se apropriam (ou se aproveitam) dessa coletivização do espaço público.
Mesmo desconfiando das intenções do mercado ao propagar essa coletivização, também é preciso reconhecer que essas campanhas publicitárias podem ajudar na divulgação e ampliação deste debate sobre a necessidade de termos mais espaços públicos inclusivos, agradáveis e, principalmente, interativos, que estimulem a criatividade.
Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo possuem uma dinâmica própria que torna essa efervescência algo natural, no entanto, boa parte de sua população fica apartada dos espaços públicos mais atraentes. Cabe novamente aos atores sociais, políticos e econômicos se associarem para promover essa ocupação em cantos mais remotos.
É muito fácil escrever que essa seria uma atribuição do poder público. Que bastaria investir recurso e tempo na promoção de atividades e construção de equipamentos que supram a necessidade dos moradores da periferia, mas o momento não me parece propício para essa solução. Creio que mais do que um patrocinador, o poder público tem de servir de arena de intermediação para os interesses e conflitos de uma ação coletiva. No mínimo, precisamos experimentar um modelo que busque unir atores e ver o resultado disso.
Um amigo me disse que sofro de fé na humanidade. Assumo que sou otimista, mas, na realidade, tenho cada vez mais claro que repetir ações que deram certo (ou não) no passado é um caminho fadado ao fracasso.
Sempre fui (e ainda sou) contra a redução do papel do Estado, mas vejo que devemos testar outras relações e buscar incluir outros atores. Principalmente aqueles que mais necessitam de políticas públicas.
A imprensa tem um papel determinante nesse processo. Os grandes grupos de comunicação tem produtos jornalísticos que volta e meia discute a qualidade e a coletivização do espaço urbano, mas ainda restritos aos canais por assinatura. Disponibilizar esse tipo de conteúdo em canal aberto e horário nobre seria fundamental, porém é mais fácil justificar pela falta de interesse da audiência.
Pretendo abandonar momentaneamente minhas críticas às escabrosidades cometidas por #ForaTemer e analisar mais os espaços urbanos. Mesmo que signifique pregar no deserto.
por Luis Marcelo Marcondes
Publicado en UmCASCADENOZ