Una cultura de élite

Quanto vale o ingresso? Acesso à cultura é questão de preço

Quatro em cada dez paulistanos indicam o preço como principal motivo para frequentar mais as atividades culturais na cidade, como cinemas, teatros, museus e shows, de acordo com a pesquisa Viver em São Paulo: Cultura, realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência.

Fatores como proximidade de casa e diversidade da programação também são apontados, mas o valor cobrado na entrada desses eventos se sobressai, principalmente para os moradores das regiões centro e oeste.

“Eu costumo ir mais a shows e ao cinema, pelo menos duas vezes por ano, mesmo achando que o preço do ingresso esteja bem caro”, afirma a nutricionista Gabriela Barros, 25, moradora do bairro Santa Cecília, no centro da capital paulista. “Quanto ao teatro, eu nunca vou, pois na maioria das vezes não conheço os espetáculos. Quando eu gosto de algum, o preço é bem acima do que posso pagar”, comenta.

Gabriela também ressalta que as atrações gratuitas na cidade deveriam ser mais divulgadas, já que não costuma frequentar nenhuma por não saber sobre o que são ou quando vão acontecer.

No caso dos shows musicais, além do valor do ingresso, os sites também cobram uma taxa de conveniência para compras online. Às vezes, ainda há outra taxa para imprimi-lo em casa.

Em 2018, as entradas para o festival Lollapalooza Brasil chegaram a custar até 2 mil reias para todos os dias da atração. Outros eventos internacionais também cobram valores altos, como é o caso do show da banda inglesa Radiohead, que se apresenta no mês de abril em São Paulo. Os ingressos custam até 700 reais.

“Tem vários eventos culturais que eu deixo de frequentar por causa do preço. Neste ano, eu deixei de ir ao Lollapalooza por causa disso”, comenta o assistente de risco Bruno Souza, 31, que mora no Campo Limpo, na zona sul.

No ano passado, o festival foi processado por organizações estudantis que questionavam o aumento de 63% no preço dos ingressos em relação à edição anterior. Ainda assim, a edição de 2018 reuniu 300 mil pessoas no Autódromo de Interlagos durante os três dias de evento.

“Também há outros agravantes. Eu tenho que fazer esses rolês já preocupado com o horário de voltar para casa. Se ficar muito tarde, terei que recorrer ao Uber e lá se vão mais gastos”, acrescenta Bruno.

Por outro lado, preços menores têm atraído mais pessoas aos museus paulistanos. Entre 2014 e 2016, o Museu da Imagem e do Som (MIS), o MASP, o Instituto Tomie Ohtake e a Pinacoteca do Estado de São Paulo quebraram seus recordes de visitação.

A exposição Frida Kahlo, no Instituto Tomie Ohtake, teve 600 mil visitantes em 2016. Já a exposição Castelo Rá-Tim-Bum, no MIS, atraiu cerca de 410 mil pessoas entre 2014 e 2015. Os ingressos para cada uma delas custavam entre cinco reais e dez reais na bilheteria.

Com uma programação de filmes bastante ampla, os cinemas brasileiros também registraram recorde de público em 2016. De acordo com dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), 184,3 milhões de pessoas frequentaram salas de cinema no país. Em 2017, contudo, a venda de bilhetes caiu 1,7% em relação ao ano anterior, contabilizando 181,2 milhões de espectadores.

Algumas unidades da rede Cinemark disponibilizam preços mais baixos às segundas-feiras (dez reais o dia todo), mas outras salas chegam a cobrar 65 reais na opção “3D D-BOX” de quinta a domingo. “Tem um cinema aqui na região em que o ingresso custa cinco reais na segunda-feira. Só vou nesse dia. Aí aproveito para ver uns dois filmes”, destaca Bruno Souza.

Para o doutor em Educação, Arte e História da Cultura Marcelo Campos Tiago, as políticas públicas na área cultural deveriam trabalhar com processos de construção, diálogo e difusão das práticas culturais, e não apenas na liberação de verba para a manutenção de um espaço ou a realização de um evento.

“Quando dizem que quem mora em determinadas regiões não tem acesso direto ao cinema ou ao teatro, é preciso pensar em como esses espaços culturais podem fazer parte da vida daquelas pessoas”, comenta.

Isso significa que, antes de construir um teatro próximo à residência de pessoas que não têm o hábito de assistir peças, é necessário fazer com que elas se sintam parte daquela cultura. “Há bairros que, muitas vezes, passam por lutas por demandas sociais específicas, então como a cultura pode se incorporar naquele universo?”, questiona o doutor pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Tiago também defende que os grandes eventos, incluindo aqueles de iniciativa privada, poderiam ser subsidiados pelo poder público, visando a ampliação da cultura em vários pontos da cidade.

“Por que eu tenho que pagar por eventos culturais, quando há um Estado que possui uma carga de impostos extremamente alta e que não consegue destiná-los para políticas públicas em áreas que efetivamente constituem um ser humano?”, comenta. “Boa parte dos impostos poderia subsidiar ações culturais, mas isso não é feito.”

Nesse sentido, o acesso à cultura torna-se privatizado, especialmente a partir de atrações que são realizadas por empresas privadas e seus patrocinadores. Mas poderia ser o contrário: “Quando você pensa em um grande evento, seja ele o show de um grupo de rock famoso ou um festival de música, no que esse evento poderia trazer para grupos muito maiores, em termos de reflexão e fruição cultural, se o acesso fosse garantido ao maior número de pessoas?”

“Não há políticas públicas que trabalhem com a cultura como forma de, efetivamente, garantir o acesso a todos os bens culturais. A gente ainda precisa de um Estado muito mais fortalecido para que os grandes eventos culturais não sejam patrocinados por quem lucra muito em cima deles, mas sejam favorecidos pelo Estado para que todos ‘lucrem culturalmente’”, finaliza Tiago.

Publicado en Carta Capital

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