Festival Internacional de Quadrinhos en Brasil

Entre os dias 30 de maio e 3 de junho, a capital mineira sedia o maior evento latino-americano dedicado ao gênero dos quadrinhos. O Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ-BH) vai oferecer ao público cinco dias de programação intensa e totalmente gratuita. As atividades estarão concentradas na Serraria Souza Pinto, mas também serão estendidas a outros três pontos da cidade.

A abertura oficial do festival está marcada para acontecer no dia 30 de maio, quarta-feira, às 16h30, na Serraria. O FIQ é uma correalização da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e da Fundação Municipal de Cultura (FMC), e do Instituto Periférico. A edição 2018 conta com os patrocínios da Oi e da Cemig, viabilizados por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais.

O FIQ-BH integra uma série de iniciativas da PBH de fomento à cultura, a exemplo do Festival Internacional de Teatro (FIT-BH), do Festival de Arte Negra (FAN) e do Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH), entre outros eventos de grande importância no cenário cultural brasileiro.

“O FIQ é o primeiro festival do ano a ser realizado pela Fundação e pela Secretaria Municipais de Cultura e, com ele, abrimos um espaço para pensarmos junto com a sociedade a construção de um calendário unificado da cidade que incorpore os demais festivais organizados por outros agentes. Essa edição do FIQ parte desse movimento de escuta a partir de encontros realizados com a sociedade, o que é fundamental para que o festival esteja sempre perto de quem tem um olhar para a área em suas diversas instâncias, artísticas, culturais e também econômicas. Em diálogo com o setor, percebemos a necessidade de aproximar o FIQ de áreas estratégicas como os games e a animação, compreendendo também que, dentro da construção de uma política cultural voltada para os quadrinhos, o FIQ tem um papel essencial para a articulação de um pensamento voltado para a área”, afirma o secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira.

A temática desta edição são os “Processos Colaborativos”. Segundo o coordenador do FIQ-BH, Afonso Andrade, a proposta é abordar os aspectos colaborativos fundamentais na criação de quadrinhos, que serão refletidos na própria programação do festival. Esta edição contará com 26 debates, quatro exposições, cinco oficinas, homenagens, lançamentos, rodada de negócios, sessões de autógrafos e de cinema de animação, duelo de quadrinhos e atividades interativas. Todo o espaço possui acessibilidade e haverá intérprete de LIBRAS em todas as sessões realizadas no auditório. A curadoria do FIQ-BH 2018 é assinada por Ana Koehler, Carol Rossetti, Daniel Werneck e Fabiano Azevedo.

“Este ano, como acontece tradicionalmente, o FIQ-BH recebe quadrinistas convidadas e convidados, nacionais e internacionais, para celebrar os quadrinhos em todas as suas potencialidades, em todas suas vozes e representações”, adianta Andrade. Estão confirmadas as presenças de mais de 500 profissionais, que, além de participarem da programação, vão expor seus trabalhos em 217 mesas e 22 estantes.

Uma das presenças garantidas no evento é a da homenageada da 10ª edição do FIQ-BH: Érica Awano, profissional de destaque entre quadrinistas brasileiros, com reconhecida projeção internacional. Também têm presença confirmada no festival quadrinistas como o britânico Dave McKean, a belga Flore Balthazar, a francesa Gauthier, a alemã Claudia Ahlering e os italianos Zerocalcare e Mario Alberti, além de mais de uma centena de convidadas e convidados nacionais, como Eloar Guazzelli, Marcelo D’Salete, Dika Araújo e Rebeca Prado.

Outra atração do festival é sua própria identidade visual que, tradicionalmente, é criada por uma ou um artista jovem do quadrinho brasileiro convidado para assumir esta tarefa. A imagem desta edição foi concebida pela quadrinista C

ris Eiko, que também participará da programação. “Quis retratar esse momento em que o leitor ou leitora está com uma boa HQ nas mãos e se sentindo transportado no meio das ideias”, conta a desenhista animada por ter recebido o convite da organização do festival.

HOMENAGENS

A homenageada do FIQ-BH, Érica Awano, terá participações especiais na programação. Além de sua trajetória artística ser retratada em uma exposição que leva o seu nome, ela participará de um bate-papo sobre sua vida e carreira, com mediação de Germana Viana e Carol Rossetti, e de uma sessão de autógrafos. Érica Awano iniciou sua carreira na área com a minissérie em quadrinhos “Street Fighter Zero 3”, escrita por Marcelo Cassaro.

A parceria de sucesso se repetiu na premiada série “Holy Avenger”, título que durou 42 edições – na época, considerado o quadrinho nacional mais longevo para público adolescente – e “DBride”, publicada originalmente dentro da revista Dragon Slayer. As duas histórias são ambientadas em um cenário de jogo de RPG, chamado “Tormenta”.

A quadrinista trabalhou para o mercado estadunidense e europeu em títulos como “Warcraft Legends”, série de mangá ambientado no famoso jogo “World of Warcraft” e “The Complete Alice in Wonderland”, roteirizada por Leah Moore e John Reppion, colorida por PC Siqueira. Em 2006, participou do álbum em comemoração aos 25 anos de O Menino Maluquinho de Ziraldo; em 2009, do álbum “MSP 50” em homenagem aos 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa, escrevendo e desenhando uma história do Chico Bento; em 2016, na publicação “Memórias do Maurício”, ilustrou o relato do encontro e amizade com Osamu Tezuka, considerado por muitos como o pai do mangá moderno. O trabalho mais recente no mercado brasileiro data de 2017 na série “GGWP” produzida pela Riot Games do Brasil, baseada em relatos de jogadores em partidas de “League of Legends”.

O FIQ-BH 2018 também prestará homenagens a importantes quadrinistas brasileiros nas exposições “Traçado na memória”, “Nilson – Humor, amor e combate” e “Inarredáveis!”. Além disso, os principais espaços de realização do festival foram renomeados em referência a importantes profissionais da área, falecidos recentemente. Toninho Mendes, Álvaro de Moya e Douglas Quinta Reis passam a ser, respectivamente, o nome do auditório, da praça de autógrafos e do pavilhão de mesas de artistas e estantes.

Antônio de Souza Mendes Neto, o Toninho, foi um dos maiores editores de quadrinhos da história do Brasil. Seu amor pelas ilustrações e pelo mercado editorial começou ainda na infância, em Itapeva/SP, onde nasceu em 1954. Na década de 1960, iniciou seus estudos no desenho e nunca mais parou. Em 1984, fundou a Circo Editorial, comandando a publicação de títulos como “Circo”, “Chiclete com Banana”, “Geraldão” e “Piratas do Tietê”. Toninho foi dos primeiros a dar espaço para hoje ícones dos quadrinhos nacionais, como Angeli, Laerte, Glauco e Fernando Gonsales. Seu último trabalho foi a produção e edição da revista “HvírusQ”, que foi finalizada por alunos do curso Segredos da Edição, ministrado por ele. O lançamento, póstumo, aconteceu durante a entrega do 34° Troféu Angelo Agostini, em 2018. Toninho Mendes faleceu em janeiro de 2017.

O jornalista, desenhista, ilustrador, escritor, diretor de cinema e televisão, Álvaro de Moya foi um dos pioneiros da nona arte no Brasil. Em 1951, quando pais e professores ainda acreditavam que os quadrinhos eram prejudiciais, ele organizou a Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, em São Paulo. Depois, trabalhou na Editora Abril comandando as publicações Disney, publicou adaptações de grandes romances na Ebal e, mais tarde, se tornou professor na Universidade de São Paulo. Ao lado de Waldomiro Wergueiro, fundou o Observatório de Histórias em Quadrinhos da USP e lançou “Shazam”, primeiro livro brasileiro dedicado à análise teórica de HQs. Seu último trabalho publicado foi “Eisner/Moya – Memórias de Dois Grandes Nomes da Arte Sequencial” (editora Criativo), no qual conta as aventuras da carreira de sete décadas e fala sobre a amizade com o ícone Will Eisner. Álvaro de Moya faleceu em agosto de 2017 e foi chamado, pela Folha de São Paulo, de “o maior teórico brasileiro de quadrinhos”.

Douglas Quinta Reis foi pioneiro na cultura nerd nacional. Na década de 1990, investiu na tradução e produção de conteúdo inédito sobre RPG no Brasil. Juntamente com Mauro Martinez dos Prazeres e Walder Mitsiharu, fundou a Devir Livraria e Editora e foi um dos responsáveis pela difusão, em larga escala, dos RPGs – começando por GURPS e, mais tarde, Magic The Gathering e o sistema D20. JM Trevisan, à época de sua morte, disse que “ninguém aqui estaria jogando RPG se não fosse o trabalho de Douglas Quinta Reis”.

DEBATES

As convidadas e os convidados internacionais também participarão de debates sobre trajetórias, além de sessão de autógrafos. A quadrinista alemã Claudia Ahlering, autora de Ghetto Brothers, vai discutir o tema da resistência e feminismo nos quadrinhos. O britânico Dave McKean, autor de Black Dog, Asilo Arkham, Mister X, John Constantine, Violent Cases, Sandman, Orquídea Negra, Monstro do Pântano, Voodoo Lounge, e o quadrinista italiano Zerocalcare, autor de Kobane Calling, vão falar sobre carreira. O também italiano Mario Alberti participará de debate sobre os quadrinhos italianos, enfocando a trajetória da Bonelli, a maior e mais bem sucedida casa de quadrinhos populares da Europa, criadora de Tex, Nathan Never, Dylan Dog, Julia, Ken Parker.

Os debates vão, ainda, propor discussões diversas relacionadas ao gênero dos quadrinhos com temáticas de interesse para leigos, iniciantes nos quadrinhos e profissionais veteranos. A fronteira dos quadrinhos com outras áreas, a exemplo da prosa literária, dos jogos, do cinema de animação e do grafiti, estão entre os temas propostas.

Em outros encontros, serão discutidas temáticas como edição de quadrinhos no Brasil; quadrinhos e representações históricas; lugar de fala e criação de personagens; clichês, estereótipos e outras armadilhas; o que é (e o que não é) mangá brasileiro, o herói ontem e hoje, narrativas visuais, processo colaborativo; e os quadrinhos como discurso político, didático e ideológico.

EXPOSIÇÕES

Três das quatro exposições programadas para o FIQ-BH 2018 serão exibidas na Serraria Souza Pinto. Uma delas dedica-se à trajetória da homenageada da edição deste ano, Érica Awano. A exposição homônima traz trabalhos da quadrinista paulista, que vem atuando como ilustradora, tanto em capas como na criação visual de vários personagens e cenários em quadrinhos.

“Traçado na memória”, por sua vez, enfoca o trabalho de 15 quadrinistas de Belo Horizonte e região metropolitana, que retrataram 15 diferentes patrimônios da cidade. Nessas histórias, os traços, desenhos, cores, narrativa, não refletem apenas a arquitetura; o cenário, os personagens são traços da memória, que recuperam vivências, reavivam experiências, revelam relações afetivas com os lugares onde vivemos e despertam o sentimento de pertencimento.

A história de Nilson nos quadrinhos e no cartum do Brasil será homenageada na exposição “Nilson – Humor, amor e combate”. Esse brilhante cartunista ainda é pouco conhecido entre as novas gerações, mas é responsável por um trabalho contundente e original. O quadrinista estreou em 1967, aos 19 anos, no Jornal dos Sports do Rio, e daí em diante engrenou em uma engajada e apaixonada carreira, tornando-se um dos mais respeitados artistas gráficos de Minas Gerais. Entre suas principais criações, estão a tira “A caravela”, uma minuciosa narrativa sobre as navegações portuguesas rumo ao Brasil, e os quadrinhos do Negrim do Pastoreio, uma lúdica e nostálgica visita à infância no interior de nosso país. Como cartunista e chargista, Nilson passou pelos jornais Pasquim, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e Estado de Minas, entre outros. Hoje, dedica-se ao cartum sindical, parte indelével de sua combativa carreira.

Integrante da programação do FIQ, a exposição “Inarredáveis! Mulheres Quadrinistas” será exibida na Casa Fiat de Cultura. Os painéis vão destacar um recorte da produção de 12 mulheres quadrinistas em Belo Horizonte. Assim, obras e parte do processo de criação das artistas vão ocupar o espaço expositivo. Ao acolher a diversidade e a subjetividade das autoras, o fazer artístico de cada uma torna-se o norte que guia a experiência do visitante. “Inarredáveis!” vai prolongar a experiência do FIQ-BH com o público ao oferecer um período de visitação diferenciado.

São mais de 80 obras de 12 artistas belo-horizontinas: Aline Lemos, Ana Cardoso, Bianca Reis, Carol Rossetti, Chantal, Ina Gouveia, Julhelena, Laura Athayde, Lu Cafaggi, Rebeca Prado, Sophie Silva e Virgínia Fróes. A mostra traz à luz o trabalho feminino no cenário mineiro da produção de quadrinhos. No dia 22, às 19h30, as 12 quadrinistas farão uma performance conjunta, desenhando em uma das paredes da galeria. Além disso, o programa educativo da Casa Fiat de Cultura preparou duas atividades inspiradas na exposição: o Ateliê Aberto de Flipbook e o Ateliê Aberto de Narrativas Visuais e HQ. A exposição estará aberta para o público entre os dias 22 de maio a 29 de julho, sempre de terça a sexta, das 10h às 21h; e sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h.

OFICINAS

Pensando na formação de público e na capacitação de profissionais, o FIQ-BH promoverá cinco oficinas, sendo três de formação e duas básicas, todas ministradas por profissionais com reconhecida experiência em quadrinhos. As oficinas de formação “Criação de personagens”, “Transformando quadrinhos em jogos” e “Pintando Quadrinhos com Aquarela” serão conduzidas por Rebeca Prado, João Victor de Oliveira Rodrigues e Laz Muniz, respectivamente. Ao todo, foram disponibilizadas 120 vagas para interessados com idade a partir dos 15 anos. Cada oficina terá duração de 2h/aula e será oferecida em dois dias e horários distintos. Para esses cursos, foram abertas inscrições prévias e as turmas estão fechadas.

O público em geral também terá a oportunidade de conhecer mais sobre histórias em quadrinhos nas duas oficinas básicas.  A proposta da oficina “Chibi Mangá”, ministrada por Virginia Froes e Claudiney Almeida, convida o aluno a conectar-se consigo mesmo e se conhecer por meio da narrativa dos quadrinhos japoneses. Durante o processo, espera-se que o participante se encontre como protagonista e herói de sua própria história em quadrinhos. A oficina “Criando Monstros”, com Diego Gurgel, tem como proposta a criação de personagens, por meio de figuras geométricas básicas (círculo, quadrado e triângulo), construindo toda uma narrativa visual por meio dos personagens. As oficinas de formação são livres e os interessados podem se inscrever a partir de uma hora do início de cada oficina. Os dois cursos serão oferecidos nos cinco dias de programação, em horários alternados.

RODADA DE NEGÓCIOS

Os contatos entre o público, artistas e editoras acontecem espontaneamente durante as atividades oferecidas pelo FIQ-BH. Para estreitar ainda mais o relacionamento entre quadrinistas e editoras, há duas edições (2013 e 2105) é realizada a Rodada de Negócios. São encontros organizados com objetivo de ampliar o networking profissional, oferecendo aos quadrinistas a oportunidade de apresentarem às editoras convidadas os seus projetos. Mesmo que não haja uma negociação imediata, espera-se que os encontros gerem parcerias futuras.

A iniciativa conta com o apoio do Sebrae e destina-se aos profissionais e projetos inscritos previamente e já selecionados pela organização do FIQ-BH. São encontros com 10 minutos de duração, quando o trabalho passa por uma avaliação das editoras. A Rodada de Negócios vai ocorrer nos dias 30 e 31 de maio, pela manhã, no Centro de Referência da Juventude (CRJ). As editoras confirmadas para a Rodada são: Balão Editorial, Draco, Lote 42, Marsupial, Miguilim, Mino, Pipoca e Nanquim, Veneta e Zarabatana Books.

ESPAÇOS DE REALIZAÇÃO

A maior parte da programação do FIQ-BH 2018 vai ocorrer na Serraria Souza Pinto, cuja estrutura montada vai abrigar: o auditório Toninho Mendes, onde serão realizados a abertura oficial e os debates; a Praça de Autógrafos – Álvaro de Moya, destinada às sessões de autógrafos; a Sala de Oficinas, onde vão ocorrer as atividades das oficinas básicas; o Pavilhão Douglas Quinta Reis, que receberão as mesas de artistas e os estandes. Na Serraria, ainda serão montadas três das quatro exposições do FIQ: “Traçados na memória”, “Nilson – Humor, amor e combate” e “Érica Awano”.

Integrando a programação do FIQ-BH, a exposição “Inarredáveis!” será exibida na Casa Fiat de Cultura. Já no CRJ, serão realizadas as atividades das três oficinas de formação e os encontros da rodada de negócios. O MIS Cine Santa Tereza, por sua vez, receberá a programação da Mostra FIQ de Cinema. Em nove sessões de cinema de animação, serão exibidos longas-metragens internacionais nos gêneros aventura, ficção científica e fantasia. Todas as sessões serão legendadas. As senhas serão distribuídas com 30 minutos antes de cada exibição.

Toda a programação do FIQ-BH 2018 é gratuita e aberta ao público. No entanto, para o acesso a algumas atividades será necessária a retirada de senhas, com antecedência. Os visitantes devem se orientar sobre essas atividades na secretaria do evento, que vai funcionar na Serraria Souza Pinto.

O FIQ-BH

Em 1997, quando Belo Horizonte comemorou seu primeiro centenário, a capital foi sede de diversos eventos e homenagens. Um deles, em especial, chamou a atenção de todos, com convidados nacionais e internacionais de renome, transformando BH, pela primeira vez, no maior ponto de encontro latino-americano de HQs. Era a 1ª Bienal de Quadrinhos, realizada nos espaços nobres e históricos da Serraria Souza Pinto.

A partir de 1999, rebatizado como Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), o evento configurou-se como referência obrigatória para os quadrinistas e hoje pode ser considerado o principal do gênero na América Latina.

O FIQ-BH é um espaço propício para o encontro de profissionais e a troca de experiências artísticas e pedagógicas relacionadas à linguagem da arte sequencial. Além das diversas atividades oferecidas, artistas acadêmicos convidados estimulam a capacitação de profissionais e incentivam formação de jovens quadrinistas. A edição mais recente do FIQ-BH, realizada em 2015, recebeu mais de 80 mil pessoas do Brasil e de outros países.

SERVIÇO

10º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ-BH)

Quando: 30 de maio a 3 de junho de 2018

– 30/05 a 1º/06, das 9h às 21h

– 02 e 03/06, das 10h às 21h

Local: Serraria Souza Pinto (Avenida Assis Chateaubriand, 809 – Centro)

ENTRADA GRATUITA

Publicado en Biblioo

A diversidade das histórias em quadrinhos femininas

Por Gustavo Rocha

Da prosódia coloquial mineira vem o termo “arredar”, que significa abrir espaço, ir para o lado de modo a abrir o caminho para alguém passar. Arredar, entretanto, não está nos planos de 12 quadrinistas mulheres de Belo Horizonte, presentes na exposição “Inarredavéis! Mulheres nos Quadrinhos”, que integra a programação do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), que começa na próxima quarta, dia 30, na Serraria Souza Pinto e em outros três espaços da cidade.

“Para dizer, em uma boa linguagem belo-horizontina, não vamos arredar para o lado, nós viemos para ficar, esse espaço foi conquistado e agora é definitivo. A ideia da exposição surgiu como um marco, em um momento dos quadrinhos em que as mulheres conseguiram conquistar um espaço bem legal. Não digo que conquistamos tudo, ainda temos um longo caminho, mas hoje temos muitos motivos para nos sentirmos orgulhosas”, comenta Carol Rossetti, quadrinista e uma da curadoras do FIQ e da exposição “Inarredavéis!”.

Para além da exposição – que fica na Casa Fiat até dia 29 de julho –, o impacto da pungente produção feminina pode ser vista também entre os convidados do FIQ. Num total de 42, entre brasileiros e estrangeiros, 21 são mulheres. Ou seja, metade dos participantes são quadrinistas. “Queremos trazer toda a potencialidade dos quadrinhos enquanto mídia, narrativa e linguagem e, para a gente ter esse potencial, não podemos ter as mesmas pessoas trazendo as mesmas histórias. Precisamos da diversidade. Entre os convidados, conseguimos essa proporção de meio a meio. Temos vários convidados negros, com deficiências, trans, LBTQI. Essa é uma preocupação: ter muitas histórias, muitas narrativas e mostrar a potencialidade do quadrinho. Não tem jeito de fazer isso sem abordar representatividade”, pontua a curadora.

Carol ficou conhecida pela série “Mulheres”, na qual mostrava uma diversidade de narrativas e possibilidades de trajetórias para as mulheres diferentes do padrão “encontrar um marido, ter filhos e ser dona de casa”. “Todas as oportunidades na minha carreira como quadrinista vieram por conta desse projeto. Foi um projeto abertamente ativista nesse sentido”, garante.

A “pegada” ativista de “Mulheres” ainda estaria presente no trabalho seguinte, “Cores”, quando a quadrinista tentava levantar temáticas e discussões para as crianças, já que, segundo ela, parte da luta feminista se centrava em “desconstruir preconceitos e estigmas”, mas que era preciso educar os mais jovens na busca da construção de novos lugares e discursos.

Quadrinhos claramente ativistas com temáticas feministas são apenas uma das possibilidades para os trabalhos de muitas autoras, que entendem e destacam a necessidade de superação do discurso da opressão. “Temos quadrinistas com trabalhos explicitamente feministas, que estão claramente tratando esses assuntos. Outras que não estão tratando disso, mas que não deixam de colocar a questão da representatividade dentro do trabalho. Temos narrativas: mulheres com desenhos fofos, mulheres com desenhos nada fofos. Mulheres que fazem quadrinhos de terror, mulheres que fazem quadrinhos do cotidiano, da vivência enquanto mulher, ou quadrinhos sobre os mais diversos temas. Tiras políticas, quadrinhos de comédias…”, dimensiona Carol.

Para Daniel Wernëck, outro curador do FIQ, a distinção entre quadrinhos “de meninas” e “de meninos” foi reforçada a partir da década de 70, com a popularização das HQs de super-heróis. “Nos quadrinhos antigos, entre as décadas de 30 e 40, não havia essa distinção. Todo mundo lia os mesmos quadrinhos”, pondera ele, que também é professor da Escola de Belas Artes da UFMG, onde coordena o grupo de pesquisas em narrativas gráficas e o núcleo de produção Crânio Quadrinhos.

“O ideal é falar que existe uma produção, e não fazer essa divisão: quadrinhos de mulher ou quadrinhos de homens. Mas é importante destacar que, pelo fato de o mercado ainda ser machista, existia um problema da visibilidade das mulheres nos quadrinhos”, comenta Ana Cardoso, outra quadrinista presente em “Inarredavéis”. “Por eu ser uma mulher afrodescendente, tento abordar nas minhas produções atuais essa questão, mas não apenas o racismo e coisas assim, mas tratando essas pessoas como protagonistas. Estamos cansados de histórias de negros contando sobre racismo. Não precisamos usar as figuras das minorias apenas para tratar os assuntos das minorias”, completa.

Para Cris Eiko, artista paulistana convidada para criar a identidade visual do festival, o rótulo “feminino” ou “feminista” pode guiar o olhar do público para lugares mais excludentes, reduzindo a produção das mulheres às temáticas engajadas. “As autoras podem contar histórias com ou sem temática ‘feminina’. Então, assim como pode ter HQs sobre maternidade, masturbação feminina e outros temas, feitas por mulheres, também pode ter sci-fi, guerra, terror, o que as mulheres quiserem fazer, que não será menos interessante”, diz.

Powerpaola é um dos destaques do evento

Um dos destaques entre os convidados internacionais do FIQ 2018, Powerpaola lembra que uma geração anterior precisou percorrer os caminhos da militância feminina mais direta para que artistas, como ela, pudessem escolher livremente os temas de seus interesses. “Talvez antes fosse mais claro isto dos assuntos femininos. Agora tudo está mudando, e existem garotos que exploram sua feminilidade e garotas que fazem desenhos mais masculinos”, analisa a cartunista e desenhista, nascida no Equador em 1977 e criada na Colômbia.

Para Powerpaola (na verdade, Paola Andrea Gaviria), os quadrinhos são uma extensão da sua vida. “Cada projeto é um experimento com desenho, diálogos, o tempo, o espaço e o texto. Cada vez que me ocorre um projeto de longo prazo, me imponho limites. Por exemplo, não é a mesma coisa desenhar a partir da memória ou algo natural que eu veja. Para mim, é mais fácil falar do passado porque de alguma maneira encontrei um princípio e um fim”, diz a artista, que adotou o apelido Powerpaola quando presenciou uma traição de seu namorado e um estranho na rua ficou lhe falando: “power, power”.

Outras narrativas feministas

Em um país tão marcado pelas desigualdades, é natural esperar desequilíbrios também nas expressões artísticas. Se hoje as mulheres entendem que já superaram a pecha de “quadrinhos de mulher” para abordar as temáticas mais variadas de seus interesses, o mesmo não pode ser dito sobre outros grupos sociais historicamente oprimidos, como é o caso das transexuais.

A trans Sophie Silva, 19, que apresenta seu trabalho na exposição “Inarredavéis”, prefere não trazer o tom autobiográfico, como as dificuldades e os preconceitos de sua transição para o gênero feminino. “Considero importante falar a respeito, mas é uma temática pesada. Ainda existe muito preconceito, e não gostaria de lidar com ele também no meu ambiente criativo”, pontua.

Identidade. Entretanto, para a quadrinista trans Luíza Lemos, dona da série “Transistorizada”, que não estará no FIQ, retratar seu cotidiano nos quadrinhos foi o caminho para entender melhor seu próprio processo de construção de identidade. “Meu quadrinho é bem autobiográfico, mas com um toque ficcional de humor”, define.

Ela conta que, durante a transição, sentiu uma grande disparidade entre o material que produzia e quem tinha assumido ser. “Tive que fingir em todos os aspectos uma masculinidade que não condizia com meu eu interior. Entrei num período de seca criativa, fiquei meio deprimida e, assistindo um programa sobre sexualidade, ouvi um dos apresentadores dizer que antes de se assumir vivia triste dentro do armário. Imediatamente, eu tive um insight: nada me representa mais do que a minha própria história”, afirma Luíza, professora da Escola Livre de Artes da Casa da Cultura de Paraty e que integra o coletivo Korja dos Quadrinhos.

Quadrinista homenageada 

Seguindo a linha de valorização das quadrinistas, a homenageada desta edição do FIQ é Érica Awano, profissional de destaque, especialmente com projeção internacional. A quadrinista terá uma exposição temática com sua trajetória e participará de um bate-papo com mediação de Germana Viana e Carol Rossetti. “Na verdade, quando o Afonso (Andrade, coordenador do FIQ) me falou da homenagem, eu tentei convencê-lo a arranjar outra pessoa. Nessas horas é que a gente vê como nós, mulheres, somos condicionadas aos papéis”, reflete ela.

Érica começou sua carreira em parceria com o roteirista Marcelo Cassaro e juntos fizeram as séries “Street Fighter Zero 3”, “Holy Avenger” e “DBride”. Posteriormente, ela foi convidada para desenhar títulos estrangeiros, sobretudo nos EUA. “Warcraft Legends” e “The Complete Alice in Wonderland” são os principais. “O mercado nacional é pequeno para quadrinhos. Publicações, de um modo geral, não estão entre as prioridades dos brasileiros. As editoras não investem em quadrinhos nacionais. Ou pagam muito pouco, ou fazem concurso para conseguir quadrinistas, pagando muito pouco. O que acontece é que, depois de alguns anos, os quadrinistas cansam do dinheiro acanhado e param de produzir. Dessa forma, não existe um investimento no mercado”, reclama Érica.

Entretanto, como em outras áreas artísticas, os caminhos paralelos surgem como alternativa para seguir produzindo e lançar as HQs. “A Internet ajudou muito nesse sentido. As informações circulam mais, não estamos sozinhos na praça, tentando chamar atenção para nossos trabalhos”, sinaliza a quadrinista.

Quadrinista de sucesso em um mercado marcante masculino, Érica também crê na capacidade das narrativas desenhadas por mulheres extrapolarem a alçada do ativismo. “Não acho que as temáticas femininas somente atraem os olhares das mulheres. O que muda é que as leitoras não querem uma história centrada apenas nos modelos masculinos de heróis. O interesse feminino é por histórias de pessoas. Elas querem temáticas universais tratadas de formas diferentes, uma história que não precise de forçar a barra e dar lições de moral”, analisa Érica.

Publicado en OTempo
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