Arte para sentir

Mostra multissensorial ‘Arte pra Sentir’ toca só superfície da questão

Exposição não tira espectador da zona de conforto, aproximando-se mais de um playground

Por Gabriela Longman

“Arte pra Sentir” aposta na inclusão de pessoas com deficiência ao apresentar obras especialmente sensoriais. De esculturas em crochê a uma máquina que solta refrescos coloridos, a seleção é pensada para que o
espectador motivado interaja com os trabalhos não apenas com os olhos mas com outros sentidos —tato, audição, paladar.

“Dessa vez ninguém precisa ficar com as mãos para trás”, orienta o segurança sorridente, frisando que todos podem tocar na maquete criada por Pedro Varela. Além de atender ao público com deficiência por meio da sinalização, de audioguias, audiodescrição e informações em braile, a iniciativa tem apelo evidente para crianças e jovens, mas não convence como imersão.

O texto de parede da curadora Isabel Portella recupera a noção de participação posta em prática por Lygia Clark, Lygia Pape e Helio Oiticica. Ainda que o Opavivará seja um dos grandes herdeiros dessa tradição —vale
lembrar os chuveiros coletivos que instalaram na praia carioca (“Chuva Verão”, 2014)—, a obra do coletivo aqui apresentada, como as outras da mostra, fica longe da radicalidade de propósitos dos neoconcretistas.

escultura de homem branco com braços em volta de si
Passado o impacto “posso tocar/mexer” —em voga há décadas nas bienais e outras exposições no gênero— fica faltando ao conjunto a ideia de experiência em sentido mais irreverente.

Para uma sociedade obcecada pelas telas de seus celulares, qualquer iniciativa que estimule o aspecto multissensorial é bem-vinda, como é bem-vinda a inclusão de audiências pouco contempladas. Mas a exposição não tira o espectador da zona de conforto, preferindo trilhar um caminho seguro (ouvir o barulho do mar numa instalação de Floriano Romano, mexer em um tambor suspenso de Ernesto Neto tocar as texturas ásperas ou fofinhas de uma colagem), aproximandose mais de um playground.

O caráter lúdico fica reservado à superfície das obras, sem se estender para iluminação, expografia ou conceito.
Passado o “sentir” sensorial mais imediato, um outro, dentro e fora do universo da arte não é assim tão trivial.
Na Sé, em meio a casarões em ruínas, estacionamentos, moradores de rua e filas extensas de repartições públicas e da própria Caixa Econômica, onde o centro cultural está localizado, aprendemos a não prestar atenção em cheiros, texturas e paisagens.

caixas transparentes com líquidos coloridos
Arte é para sentir; e, se em vez de nos distrair, ela puder nos ajudar a recuperar a atenção para o mundo e, sobretudo, para as pessoas ao redor, teremos já um bom começo.

Folha

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