Dolor, resistencia, sueño

Marlene Crespo: afiados traços, como flechas, entre a dor, a resistência e o sonho

O livro «Desenhos da Resistência» remonta décadas da história da nossa curta democracia através de imagens

Por Marina Costin Fuser

Ela absorve o mundo com finos traços, que se interpelam a ponto de se tornar quase indiscerníveis, como uma pele, uma textura delicada de nanquim onde a luz atravessa. As formas encarnam figuras de sua interioridade, animais fantásticos, fantasmas da ditadura, mil e uma faces da dor, mas também do amor e do sonho.

Desenhos da Resistência é uma charmosa homenagem a toda sua carreira artística, com ênfase nas imagens com conteúdo de crítica social que perpassam por sua trajetória de mulher de fibra, entusiasta das causas populares.

O livro começa contando a história da vida de Marlene Crespo, de seu engajamento político, suas passagens entre o DOPS e os tristes porões do DOI-CODI, onde foi presa e torturada pelos carrascos do regime militar, o desenvolvimento de sua arte, seus livros e ilustrações e publicações com os seus trabalhos. A segunda parte do livro explora seus eixos temáticos em camadas.

Os traços ardilosos na parede da cela marcam a passagem do tempo, bruto tempo que adquire sua forma animalesca, desumana, de parasitas sombrios, reais ou imaginários, que dividiam o espaço do confinamento. Sua imagem ganha corpo de mulher. Um corpo retraído, sofrido, com medo, encarcerado, mas com o coração saltando do peito: é o elemento humano que faltava na figura anterior.

A causa indígena se despeja em imagens e traços de uma brasilidade de lâmina fina, de devires e resistências que desafiam um olhar colonizador, que nada entende sobre as funduras do Brasil.

É particularmente afável a atenção especial que ela dedica às mulheres: as mulheres indígenas, as mulheres em marcha, as camponesas.

Sua obra celebra o feminismo como num rito báquico tupiniquim: o corpo em movimento, os traços marcantes e os olhares insubordinados daquelas que afirmam o seu existir pela resistência.

Os retratos grotescos de burgueses e suas extravagâncias, às custas do povo, seguem a estética dos artistas engajados de seu tempo. Já os elementos populares são retratados com candura, com traços afetivos, empáticos, com uma aproximação quase infantil de tão pura.

A autora Marlene Crespo

A autora Marlene Crespo / Arquivo pessoal / via Revista Fórum

Mas se o povo é representado com formas tão carinhosas, não há ingenuidade na exaltação do povo, onde ela deposita seus sonhos, suas esperanças. Pelo contrário: são retratos delicados, mas afiadíssimos com flechas libertárias, e denúncias assertivas.

Em suma, este livro é um arquivo de imagens que remontam décadas da história da nossa curta democracia, que viram às avessas os momentos mais assombrosos da nossa história moderna, mas também nos enchem de esperança e alento, ao celebrar cada ensejo por uma resistência criativa e potente.

Título: “Desenhos da Resistência – A obra gráfica de uma artista engajada na luta contra a ditadura militar”.

Autora: Marlene Crespo

Editora: Outras Expressões

176 páginas

Preço: R$ 30,00

(O livro será lançado no sábado dia 15 de dezembro, às 15h, na Livraria Expressão Popular, Rua Abolição, 201 – Bela Vista, São Paulo – SP)

Brasil de Fato

 

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