Boa Esperança

Boa Esperança: arte é aliada para comunidade ribeirinha em Teresina

Por Pedro Alexandre Sánches

Era uma vez uma ilha verde. Ficava no Nordeste, dentro da cidade de Teresina, capital interiorana na confluência de dois rios (o Parnaíba e o Poti). Numa margem do Rio Parnaíba era Maranhão, na outra era Piauí. Na margem piauiense erguia-se uma área verde habitada por um povo mítico que fazia roça quase no centro da capital. Entre a pesca, a pequena agricultura e a minúscula pecuária, capturavam os peixes que restavam no assoreamento do rio; plantavam abóbora, cajá, feijão, macaxeira, manga, maxixe, milho, quiabo; criavam bodes, galinhas, porcos, vacas.

Ao passar de ônibus pela Avenida Boa Esperança, na Zona Norte de Teresina, em 2015, o artista visual Maurício Soares Gomes de Oliveira, de nome artístico Maurício Pokemon (herança dos tempos de menino skatista), notou algo diferente naquela comunidade que ligava o centro da cidade ao ponto turístico do encontro dos dois rios. Cartazes e pichações nas fachadas das casas da Boa Esperança gritavam o que a cidade queria calar. Estão lá até hoje. “Lagoas do Norte para quem?” “Estamos em luta por nossas moradias!” “TV Cidade Verde, a boa imagem do prefeito!” “Firmino descumpre acordo e assedia moradores.” “Minha terra, minha história.” “Firmino, exigimos respeito. Morar é preciso, desapropriar não.”

Curioso, Maurício, hoje com 29 anos, foi conhecer os moradores da Boa Esperança para entender do que se tratava as mensagens nas garrafas de cimento.

MAURÍCIO POKEMON PREPARA A INTERVENÇÃO POÉTICA NA FRENTE DA CASA DE DONA HELENA (FOTO: JAIRO MOURA)

Integrante do projeto Rumos do Itaú Cultural, a exposição fotográfica Inventário Verde da Boa Esperança, em cartaz no Campo Arte Contemporânea de Teresina, é o resultado do encontro entre o jovem Pokemon e a comunidade tradicional de habitantes do oásis rural dentro da cidade grande e quente. É, mais que isso, uma denúncia potente contra uma situação peculiar da capital piauiense, mas comum a várias outras cidades grandes no Brasil e no mundo. O Projeto Lagoas do Norte, financiado parcialmente pelo Banco Mundial, pretende “reurbanizar” as margens piauienses do Parnaíba, num empreendimento turístico, paisagístico e hoteleiro.

“Quando vi as frases de resistência, sabia do projeto Lagoas do Norte, mas não sabia quão violento ele era”, conta o artista. De acordo com os moradores da Boa Esperança, o plano é despejar 3,8 mil famílias e transferi-las para o bairro afastado (e não ribeirinho) de Santa Maria. “A imprensa não quer nos ouvir. Conversam com a gente, mas não sai publicado. O que a gente fala não serve”, afirma o líder comunitário Francisco Oliveira, ou Chico Boa Esperança, de 50 anos.

“Nunca fui empregado pra ninguém. Não tem como me tirar daqui, porque sou porco-d’água”, reage à ameaça de remoção o pescador Luís Miares, de 63 anos. “Se me expulsarem, ponho minha casa mais pra frente e, se expulsarem de novo, vou pro lado do Maranhão. Sempre vivi e sempre vou viver na beira do rio.”

No dia de visita da reportagem à Boa Esperança, Maurício Pokemon executa uma das fases do Inventário Verde: cola nos muros e fachadas das casas suas fotos coloridas (e não apenas verdes), lado a lado com as frases duras de protesto da comunidade. O trabalho dá prosseguimento a intervenções anteriores, resultantes de uma viagem por comunidades ribeirinhas da Amazônia. Ali ele colava no espaço público de Teresina e outras cidades retratos em tamanho real de ribeirinhos, sempre em poses de altivez e empoderamento. “Era efêmero, porque as imagens incomodavam as pessoas. A cidade tinha uma repulsa. Entendi como isso era violento subjetivamente”, descreve.

No dia seguinte, a exposição é inaugurada no espaço coletivo Campo, um grande galpão armado por uma coletividade de artistas de dança e artes visuais, onde antes funcionava um depósito de supermercado. A comunidade da Boa Esperança comparece em peso e interage com as imagens que a retratam com ternura e sutileza. O verde é preponderante no olhar de Maurício, porque é preponderante na comunidade. Ele o percebeu nas estampas florais das roupas, nas pinturas das fachadas e nos grandes quintais entre os fundos das residências e o rio, que formam o núcleo principal de convivência da Boa Esperança.

Os discursos comprovam a percepção do artista. “Quando é verão, a água está da cor destas folhas, verde, verde”, diz dona Maria Monteiro, 69 anos, referindo-se a um dos fenômenos não naturais produzidos pelo homem no rio poluído. “O verde da Zona Leste é maquiado, não é natural. O verde daqui é natural”, afirma a irmã de Chico Boa Esperança e também líder comunitária Maria Lúcia Oliveira, de 48 anos, fazendo o contraponto inevitável entre seu povo e os moradores da região dita “nobre” da cidade. Vários moradores sublinham sua própria importância no processo de reflorestamento das margens do Parnaíba, única atitude capaz de deter o processo de erosão, o assoreamento, a diminuição constante da profundidade das águas, a formação de ilhas (chamadas de coroas), onde se instalam algumas das várias lavouras comunitárias.

As imagens são trabalhos de Maurício Pokemon (Fotos: Jairo Moura)

A ameaça de destruição pesa sobre o verde, e não só sobre ele. “Acabaram com o boi”, afirma Chico, em referência aos folguedos populares do Piauí (e do Maranhão, e do Pará, e do Amazonas). “Reformaram o Teatro do Boi, hoje é um espaço para balé e show de heavy metal. Disseram que o boi brigava. É da cultura do boi brigar, são brincantes.”

Lúcia reafirma a cultura de criminalização imposta à Boa Esperança pela prefeitura (que, procurada pela reportagem, não se manifestou até a conclusão desta edição): “Retirando a gente daqui, querem retirar as festas de reggae, as praças de rima de hip-hop, os terreiros de umbanda. Estão criminalizando os terreiros. Esse progresso não é para nós. É a cabeça do colonizador, porque a gente é pobre e preto”.

A destruição da cultura, patrimônio macabro do Brasil de 2019, corresponde à destruição dos fazedores da cultura. “Esta é a melhor região para viver em Teresina. Era habitada pelos índios Potis, foram todos dizimados”, prossegue Lúcia, provável remanescente dos dizimados. “Escutamos da boca do prefeito que é região nobre de pretos e pobres que precisa ser rentabilizada. O secretário falou que era preciso fazer as Lagoas do Norte para as famílias de Teresina se sentirem bem. Como se nós não fôssemos as famílias.”

Lúcia e Chico celebram o sobrinho Raimundo Novinho, historiador formado e representante da comunidade nos meios acadêmicos. Num dos pontos de ônibus instalados na avenida em frente às casas, uma pichação vermelha pede “Lula Livre”. No quintal da família Oliveira, Chico conta que a mãe, Davina, de 78 anos, tem Alzheimer, mas ainda guarda a Boa Esperança na memória. Ela comprova no quintal, apontando para os vários jabutis ali criados: “Esse bicho não morre, não”.

O vizinho aposentado Alcides Alves da Silva, de 69 anos, dá um dedo de prosa: “Nasci na Vila Operária, mas meu hábitat sempre foi aqui”. Ribeirinho, já viveu em vários centros urbanos do País, que enumera espontaneamente: “Ajudei a construir a Rodovia dos Imigrantes. A Casa da Moeda do Rio de Janeiro. O Hospital Roberto Santos, em Salvador. Vários estádios, de Fortaleza, Teresina, São Luís. Angra 1 e 2. Projetos da Itaipu no Pantanal”.

Jornalista por formação, Maurício Pokemon faz a ponte fotográfica entre o dito e o não dito. Afastou-se do jornalismo diário no Meio Norte pela insatisfação com os usos dados às suas fotos: “Ia ver o jornal, a notícia era o oposto do que a foto queria dizer”. Com seus afetos e seu trabalho, faz a ponte entre a comunidade à deriva da Boa Esperança e a comunidade à deriva dos artistas piauienses. “Não tenho o sentimento de estar ilhado em Teresina”, afirma, ao comparar a coletividade da Boa Esperança e o coletivo (cheio de verde) instalado no galpão chamado Campo. Com mais de 500 imagens coletadas (107 estão na exposição), ele pretende constituir um Museu da Boa Esperança em Teresina. Era uma vez uma ilha verde.

CartaCapital

 

 

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