Opará

Rio São Francisco e suas histórias inspiram álbum da cantora Héloa

Por Augusto Dinz

De família de ribeirinhos do Rio São Francisco, embora tenha nascido na capital sergipana, Héloa faz uma imersão espiritual, religiosa e de resistência a partir do Velho Chico em seu terceiro registro fonográfico.

“Sempre ouvi histórias da minha avó e de meu pai sobre nossos antepassados de uma vida à beira desse rio e o quão relevante ele é na construção de um povo e seus saberes. Por isso resolvi fazer esse resgate”, conta ela.

Com o nome de Opará, dado pelos índios ao Rio São Francisco antes da chegada dos portugueses, e que também na língua iorubá é uma divindade das águas, o disco revela uma cantora e compositora mais amadurecida dentro do que pretende na música, reunindo sua vivência com pesquisas das matrizes musicais.

“Trago (no novo trabalho) mais composições minhas e parcerias, além de convidados que celebram esse momento de coletividade que dialogam em diversos universos musicais como o forró, o samba, o canto zulu da África do Sul e os cantos da aldeia indígena Kariri-Xocó”.

O trabalho de Héloa ganha força com as participações, como na terceira faixa, Mar Menino (Daniel Medina), com o arcodeonista Mestrinho; na quinta faixa, Líquida (Taimé), com Mestrinho e Fabiana Cozza; na sexta, Águas de Oxalá (Sérgio Pererê e Luiz Gabriel Lopes), com a forte voz de Mateus Aleluia; na sétima, Agô (Patricia Polayne), com o grupo indígena Sabuká Kariri-Xocó e na décima faixa, Maré Mansa (Héloa e Carlos Gadelha), que fecha o disco, com o mesmo grupo indígena e ainda Mulheres Livres, coral formado na Penitenciária Feminina de São Paulo, com seis sul-africanas e duas malaias.

Grupo indígena que vive às margens do “rio-mar”

O grupo Sabuká Kariri-Xocó vive às margens do Rio São Francisco e é um exemplo vivo de quem o vê há séculos e conhece o que significa sua existência. Na nona faixa do disco Opará, os indígenas fazem o canto ritualístico do povo daquela região denominado Toré.

Héloa os conheceu em suas andanças no trecho do Velho Chico entre Alagoas e Sergipe. “Para além da minha imersão sobre o modo de vida desses povos ribeirinhos, existe um chamado urgente, ambiental e política que é para todos nós”.

Sobre a participação de Mulheres Livres no registro, ela relata que as conheceu num festival em que participou.

“Cantavam com muita força e amor, um canto ancestral. Quando soube a história do grupo, tudo fez mais sentido. Elas representam para mim a travessia, o povo preto em busca de liberdade, que trouxerem para o disco o canto na língua Zulu e a história dos seus antepassados. Elas nunca haviam gravado em estúdio e se entregaram de corpo e alma”.

As águas como fio condutor

Segundo a cantora, a iniciação no candomblé a influenciou muito no trabalho. “As duas matrizes (africana e indígena) trazem esse pensamento, de um ser humano conectado com as forças naturais e o tempo sagrado. Assim surgiu Opará”.

O trabalho conta ainda com as músicas La Tempo (Héloa), Silêncio (Héloa e Luedji Luna), a ótima composição Bamba (Saulo Duarte) e Mamãe Oxum (Maria Bethânia).

“Fui reunindo as músicas, junto às minhas composições e percebendo como a força das águas era o fio condutor do álbum. Todos os que compõem esse disco são pessoas que, apesar de completamente ligadas às forças da natureza, são urbanas, vivem numa cidade como São Paulo. Esse é o grande mistério. Trazer esse olhar para dentro e coletivo mesmo na urgência e no caos”.

Héloa terá caminho longo na música. A sua força está nessa junção afro-indígena, vinda de um rincão do país onde o “rio-mar” (como os índios designam o Velho Chico) pode sim virar sertão, se não cuidarmos dele.

Ritmos ancestrais ela conhece de sobra. No disco Opará, eles se unem a sons contemporâneos. Trata-se de um registro audacioso.

Carta Capital

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