La palabra jerarquizada

12ª Mostra da Cooperifa prova mérito da palavra dos que sonharam com as mãos

Mostra tem início neste sábado. Serão 45 eventos e 11 debates para celebrar 18 anos do sarau e homenagear seu cofundador Marco Pezão, morto no domingo (13). «Vamos fazer o que ele mais gostava, poesia», diz Sérgio Vaz

Por Clara Assuncao

O Sarau da Cooperifa chega à maioridade neste ano sem abrir mão da sua marca de nascença: a escuta. Enquanto cada poeta recita seus versos, as outras centenas de pessoas que ajudam a lotar nas noites de quarta-feira o Bar Zé Batidão, no Jardim Guarujá, zona sul de São Paulo, pausam para ouvir. E é em homenagem a essa oralidade, que alçou o encontro como literatura periférica, que os próximos nove dias, a partir deste sábado (19), serão dedicados à realização da 12ª Mostra Cultural da Cooperifa.

“A gente deve à palavra, desde quando o Rap surgiu aqui no Brasil, com música e poesia, que a poesia e literatura chegaram para nós através da palavra”, destaca o poeta Sérgio Vaz sobre o tema da nova edição da Mostra.

Idealizador da iniciativa, Sérgio Vaz faz questão de lembrar do tempo em que a periferia abraçava o que vinha do centro para dizer sobre esse “momento único” no qual a região apartada geograficamente vive hoje: “ela está produzindo ideias apesar de tudo e de todos”, observa. Os 45 encontros e 11 debates, além de oficinas e outras apresentações culturais, exposições, espetáculos e shows que ocorrem durante o evento parecem dar provas dessa primavera periférica, como ele diz.

“Nesse ano a gente pensou assim: vamos ver quem está usando a palavra como instrumento de luta, resistência, de amor, entre outras coisas. Mas foi uma escolha muito difícil, queríamos escolher pessoas que estão falando nesse país de hoje”, explica o poeta. Com parceria com as escolas, Centros Educacionais Unificados (CEUs), Fábricas de Cultura e o Sesc Campo Limpo, participam nomes como Douglas BelchiorBianca SantanaDjamila Ribeiro e artistas como Maria Gadú, Leci Brandão e Edi Rock, entre outros.

O evento consagra em mais essa edição uma programação cultural distribuída por várias quebradas da zona sul, onde, na década de 1990, a maioria insistia em olhar pelas lentes da violência e vulnerabilidade, mas que hoje desponta, depois do trabalho de muitos coletivos e movimentos, como um polo que do extremo sul irradia cultura.

“Acho que foi insistência, não foi nem mais a resistência, foi acreditar mesmo. Eu acho que o mérito da gente foi sonhar com as mãos. Sou de uma época em que se ficava filosofando em mesa de bar sobre o que tinha que mudar, ‘porque o governo, porque o Estado’, pessoas e vários grupos daqui falaram não, vamos fazer, não importa se tem ou não grana, se vai ser no chão da escola, se vai ser na porta do bar… Quer dizer, um sarau de poesia, como a Cooperifa, ele está no lugar que foi eleito pela ONU como o mais violento do mundo. A gente poderia não ter feito, desanimado, mas a gente não desanimou, temos que acreditar”, aspira o poeta que quando hesita na escolha entre insistência ou resistência deixa escapar ainda uma lição para esses tempos de governo Bolsonaro, que torna para todos os problemas sociais que a periferia já grita há anos.

“É por isso que nesse momento do país a gente está tão articulado, tão junto, tão próximo, porque a gente já falava há muito tempo essas coisas, e ninguém quis dar ouvido, só que agora vai sobrar para todo mundo. É que para a gente sempre sobrou. Essas coisas que estão acontecendo no país, esses ataques aos negros, pobres, gays, lésbicas, índios, nordestinos, esse ódio sempre existiu, então de alguma forma a gente já está, sempre esteve, preparado, porque nós sempre estivemos na resistência”.

O Festival Várzea Poética

Mas essa é uma resistência que faz de alguma forma simbiose, ao se alimentar sobretudo da humildade. Gritar sobre os “mil universos” da periferia de modo a ampliar o número de vozes e democratizar a arte, forçou o próprio poeta a “descer a cultura do pedestal para beijar os pés da comunidade”, como ele define.

Foi nesse movimento, de olhar para os que não estavam consumindo livros, poesias, teatros, e outras formas de cultura tradicional, que essa 12ª edição da Mostra Cultural Cooperifa trouxe à programação o Festival Várzea Poética, que ocorre no domingo (20) e no sábado (26), no encontro de saraus. O projeto traz os times de futebol locais para uma disputa de versos, em que os participantes ganharão jogos de camisa, desde que frequentem os saraus da Cooperifa. 

“Tem uma coisa que a gente não pode esquecer, a periferia não é só quem escreve e quem lê, ela é também quem não escreve e quem não sabe lê. Nós precisamos promover esse encontro da cultura com as pessoas da periferia. Por isso o encontro da várzea, que é a grande cultura da periferia, com a literatura. Foi preciso que a gente entendesse que não é o futebol de várzea que tem que entender a cultura, é a cultura que tem que entender o futebol de várzea”. 

Vamos fazer o que o Marco Pezão mais gostava: poesia 

Só que não são apenas de palavras e obras literárias que vive o poeta, mas também de marcos: são 30 anos de carreira, 12 anos da Mostra Cultural e 18 anos da Cooperifa. Em meio a essa longa e poética trajetória, a única dificuldade que permanece imutável é o desinteresse do próprio Estado em fomentar essas e outras iniciativas.

Ainda assim, testemunha da transformação da periferia, principalmente pela educação, Sérgio Vaz prefere se apegar às mudanças que trouxeram para a periferia um reconhecimento interno,  alheio ao externo do centro, com “suas cores, dores e amores”.  “Alguns jovens que passaram por lá e outros movimentos, mas ali na Cooperifa que eu vi, se tornaram mestres em literatura, advogados, sociólogos, entenderam que a educação é uma coisa muito importante”, frissa o poeta. “A gente está tentando criar um artista cidadão, que se reconheça na sua comunidade, que se reconheça no seu povo, na sua gente, que ele não diga pelo povo, mas diga com o povo. Eu acho que isso que a gente está aprendendo e eu acho que é isso que eu também aprendi ao longo desses 30 anos”.

Ao longo dos noves dias da Mostra Cultural, que se encerra no dia 27 de outubro, a vida e obra do jornalista e escritor Marco Pezão serão homenageadas. Conhecido do lado de cá e de lá pela “ponte que atravessa qualquer rio”, o poeta que, ao lado de Sérgio Vaz deu forma ao sonho da Cooperifa, morreu no domingo (13) em decorrência de um câncer de fígado que tratava.

“A gente (da Cooperifa) nunca esqueceu da contribuição dele e de outras pessoas. Vamos durante a semana falar, recitar poemas dele e fazer aquilo que ele mais gostava, que era a poesia”.

Confira a programa completa, clicando aqui.

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