Samba soul

Aláfia resgata o samba soul com ritmos atuais e o toque do terreiro

Quando o samba soul teve seu auge na década de 1970, representado principalmente pela banda Black Rio, muito se achou na época que ele conquistaria espaço como outros gêneros que se fundiram com o samba. Mas não foi bem o caso.

O grupo Aláfia lança o seu quarto trabalho, Liturgia Sambasoul, resgatando o ritmo, mas mantendo a identidade do grupo com a percussão do terreiro e a sonoridade urbana com timbre do funk.

“É um samba soul pós-hip hop. Apesar da grandiosidade que foi a invenção do samba soul, ele não se consolidou no mercado”, diz Eduardo Brechó, líder da banda, ressaltando o papel de Oberdan Magalhães (1945-1984), fundador da Black Rio, que nunca teve o reconhecimento merecido, embora o som produzido pela banda representasse uma criativa inovação.

A música Oberdan (composição de Brechó) do disco homenageia o músico e tem a participação de Carlos Dafé, uma referência do soul no país.

“Isso tem um pouco a ver com o racismo estrutural e as pessoas pretas que foram subjugadas. Então, homenageamos vários delas, que são nossa escola”, como é o caso de outra faixa intitulada Luna, Eliseu e Marçal (Brechó) – os três percussionistas citados tiveram entre os anos 1950 a 1980 onipresença em gravações de discos.

Conceito mantidos

O novo trabalho do Aláfia repete a força e a qualidade dos anteriores. Trata-se, porém, de um álbum mais dançante do que os outros três registros, mas não foge da crítica e da política.

“O conceito é parecido. Primeiro, sempre parto de temas e os padrões rítmicos e as cantigas que têm a ver com esses temas. Daí começo a trabalhar o disco.”

Eduardo Brechó relata que no estúdio houve uma fluidez muito grande dos instrumentos de base, atingindo o seu objetivo de levar ao disco o som típico de banda de baile.

Grupo busca mais leveza

“O conteúdo das letras pode-se dizer que é mais leve e dançante por que a gente está buscando afetividade, mensagem de união, um pouco de leveza em um momento sombrio”, afirma.

Mas ressalta que a músicas Canção pra Nós e Faca Fake com participação de Sérgio Vaz (ambas composições de Brechó), Paisagens Comuns (Jairo Pereira) e Levanta Amazona (Raquel Almeida) com participação de Sueide Kintê tratam de questões atuais.

Completam o disco Abre Caminho (Brechó e Fábio Leandro), Dama das Demandas (Lucas Cirillo), 1800 Noites (Brechó e Igor Damião), Ogun Lakaye (Brechó), a faixa-título Liturgia Sambasoul (Brechó e Fábio Leandro), Nossa Banca É Forte (Jairo Pereira) e O Pai Sorriu (Brechó e Igor Damião).

Produzido e dirigido por Eduardo Brechó, o disco tem vozes do próprio Eduardo Brechó, Estela Paixão, Eloísa Paixão, Igor Damião e Jairo Pereira.

A banda é composta por Igor Damião (guitarra), Gabriel Catanzaro e Gabriel Cantazaro (baixo elétrico), Filipe Gomes (bateria), Douglas Felício (trombone), Rubinho Antunes (trompete), Vinícius Chagas (saxofone), Lucas Cirillo (gaita) e Alysson Bruno, Victor Eduardo, Pedro Bandera, Eduardo Brechó e Luan Barbosa (percussão). Fábio Leandro fez teclados e voz em Liturgia Sambasoul.

Aláfia é um desses grupos musicais ricos e contemporâneas, com absoluto entendimento da relevância da história na construção das sonoridades atuais.

Carta Capital

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