Revivências

Sérgio Pererê: “Há 44 anos, tenho que combater o racismo todos os dias”

Por Augusto Diniz

O mineiro Sérgio Pererê está apresentando cinco álbuns esse ano. Dois já foram lançados, um chega em agosto e outros dois saem até o final de 2020.

O que lança mês que vem, Canções de Bolso, foi gravado no ano passado e início deste, com composições autorais e executado de forma minimalista. “Ele tem uma sonoridade mais suave, as letras com caráter de leveza. É alusão aos livros de bolso de mensagens”, diz.

O primeiro de 2020 foi um trabalho com Mauricio Tizumba e foi gravado em um show da dupla em 2018.  “É um álbum de caráter emocional e afetivo”.

Há poucas semanas ele apresentou Revivências, num raro momento de intérprete, com clássicos e de músicas de compositores próximos dele. Apesar das regravações, o álbum apresenta-se bastante original.

“A intenção desse trabalho foi de falar um pouco do contexto político atual, usando músicas que fazem parte de nossa história há muito tempo, até como forma de refletir o que a gente está vivendo”.

A composição mais conhecida em tom de protesto no álbum é Roda Viva (Chico Buarque). Outra é Tem Pequena Memória para um Tempo Sem Memória (Gonzaguinha), que segundo Pererê possui até mais força política que Roda Viva. E ainda as músicas Dança (Chico César) e Selvagem (Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone).

“As outras canções parti de sentimentos atuais, contemplativos e de esperança”, como Estrela (Vander Lee), Canções e Momentos (Milton Nascimento e Fernando Brant), Tempo Rei (Gilberto Gil) e Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares).

O álbum Revivências se completa com  (Luiz Melodia e Perinho Santana) e De Frente pro Crime (João Bosco e Aldir Blanc).

Já o trabalho Coração de Marujo, de composições próprias, é uma pesquisa da cultura popular, de heranças africanas as quais o autor conhece bem.

O quinto projeto a ser lançado esse ano é uma versão ao vivo do álbum Cada Um, apresentado em 2018. “O trabalho tem muita inserção eletrônica. Para passar para o palco ficou interessante, mexemos muito”, justifica o motivo de lança-lo no formato ao vivo.

Com cinco álbuns desse ano, Sérgio Pererê passa a ter 11 trabalhos na carreira, sendo o primeiro apresentado em 2008. E já prometeu um novo álbum em 2021: “Tenho hábito de fazer muitas coisas ao mesmo tempo”.

O cantor, compositor e multi-instrumentista explica também que a pandemia impulsionou os lançamentos esse ano. “Isso tirou a possibilidade de circular com a música (em palcos). Acabou que ficou mais viável lançar, oferecer algo de novo, na internet, já que não é possível fazer shows. São algumas formas de sobreviver e dividir com as pessoas”.

Africanidades

Sérgio Pererê tem um trabalho de fortes influencias afro-brasileiras, a partir de duas vertentes.

A primeira delas é a conexão de Minas Gerais com a herança negra. “Essa cultura popular da congada, da folia de reis, com tambores e traços africanos, é meu foco”.

Mas ele conta que a família sempre teve desejo de conhecer sua origem africana. Com um teste de DNA, Pererê teve acesso à sua ancestralidade tanto materna quanto paterna.

A descendência do pai é da etnia Umbundu de Angola. Já a da mãe, a descendência é do povo Diola, de Guiné-Bissau e Senegal. “O teste de DNA me conectou de uma forma mais direta com a África”, explica a segunda vertente.

Dentro das manifestações afro-brasileiras, de danças, ritmos e estrutura de versos, tudo sincronizado ao mesmo tempo, Sérgio Pererê tem forte identificação com o último item.

“Chama-me atenção o mote poético. A gente não costuma valorizar isso. O jongo tem muito verso. A minha influência da raiz africana é além dos tambores. Está na força de abordar os temas, a forma poética”.

Racismo

O momento político tem sido muito difícil, que junto com a pandemia agrava-se ainda mais, avalia Sérgio Pererê. E o tema racismo voltou à tona.

“Estou com 44 anos. E posso dizer que há 44 anos tenho que combater o racismo todos os dias. De fato, eu não identifico nada que seja novo. Acredito que o mundo está fragilizado com a questão da pandemia e fica com os ouvidos mais atentos. E estamos numa era que tudo é mais visível, todo mundo tem uma câmera na mão, mas não vejo uma alteração. Está como sempre foi (o racismo).”

O músico considera a luta contra o racismo longa, mas vê hoje com mais pessoas preparadas para falar com propriedade sobre o tema.

“Se formos analisar, o tempo que estamos tentando construir uma sociedade racialmente democrática é muito curto em relação à escravidão. Ou seja, nós temos muito trabalho para combater o racismo e atacar de forma eficaz. Tento colocar a minha música à serviço disso”.

Ele acha ainda que o baque na classe artística foi grande com a pandemia e considera importante a categoria “se irmanar”, abrir diálogo.

“Como está muito difícil para nós, devemos pensar juntos, qual a estratégia de manter o trabalho vivo. Agora a gente vai precisar se unir, de abrir escuta. A gente precisa perceber quais formas de caminhar, que talvez não seja fazer uma live atrás da outra”, diz.

Carta Capital

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