O Globo, el pulpo mediático (bilingüe)

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En Contexto
El 29 de julio de 1925 el periodista brasilero Ireneu Marinho lanzó el periódico O GLOBO. Falleció pocos meses después y su hijo Roberto lo convirtió en el principal conglomerado de medios de su país. Hoy el Grupo es propietario de los diarios O Globo, Extra, Expresso y otras 11 publicaciones entre diarios y revistas. Posee cinco canales de tv abierta en las principales ciudades y una red de 105 estaciones asociadas. Su historia es contada en propia voz en http://memoria.oglobo.globo.com/

‘A Globo é o principal agente da imbecilização da sociedade’

Por Igor Fuser

A Globo esteve ao lado de todos os governos de direita, desde o regime militar – no qual se transformou no gigante que é hoje – até Fernando Henrique Cardoso. Serviu caninamente à ditadura, demonizando as forças de esquerda e endossando o discurso ufanista do tipo “Brasil Ame-o ou Deixe-o” e as versões sabidamente falsas sobre a morte de combatentes da resistência assassinados na tortura e apresentados como caídos em tiroteios. Mais tarde, após o fim da ditadura, alinhou-se no apoio à implantação do neoliberalismo, apresentado como a única forma possível de organizar a economia e a sociedade.

No plano cultural, é impossível medir o imenso prejuízo causado pela Rede Globo, que opera como o principal agente da imbecilização da sociedade brasileira. Começando pelas novelas, seguindo pelos reality shows, pelos programas de auditório, o papel da Globo é sempre o de anestesiar as consciências, bloquear qualquer tipo de reflexão crítica.

A Globo impôs um português brasileiro “standard”, que anula o que as culturas regionais têm de mais importante – o sotaque local, a maneira específica de falar de cada região. Pratica ativamente o racismo, ao destinar aos personagens da raça negra papéis secundários e subalternos nas novelas em que os heróis e heroínas são sempre brancos. Os personagens brancos são os únicos que têm personalidade própria, psicologia complexa, os únicos capazes de despertar empatia dos telespectadores, enquanto os negros se limitam a funções de apoio. Aliás, são os únicos que aparecem em cena trabalhando, em qualquer novela, os únicos que se dedicam a labores manuais.

A postura racista da Globo não poupa nem sequer as crianças, induzidas, há várias gerações, a valorizar a pele branca e os cabelos loiros como o padrão superior de beleza, a partir de programas como o da Xuxa.

O jornalismo da Globo contraria os padrões básicos da ética, ao negar o direito ao contraditório. Só a versão ou ponto de vista do interesse da empresa é que é veiculado. Ocorre nos programas jornalísticos da Globo a manipulação constante dos fatos. As greves, por exemplo, são apresentadas sempre do ponto de vista dos patrões, ou seja, como transtorno ou bagunça, sem que os trabalhadores tenham direito à voz. Os movimentos sociais são caluniados e a violência policial raramente aparece. Ao contrário, procura-se sempre disseminar na sociedade um clima de medo, com uma abordagem exagerada e sensacionalista das questões de segurança pública, a fim de favorecer as falsas soluções de caráter violento e os atores políticos que as defendem.

No plano da política, a Rede Globo tem adotado perante os governos petistas uma conduta de sabotagem permanente, omitindo todos os fatos que possam apresentar uma visão positiva da administração federal, ao mesmo tempo em que as notícias de corrupção são apresentadas, muitas vezes sem a sustentação em provas e evidências, de forma escandalosa, em uma postura de constante denuncismo.

A Globo pratica o monopólio dos meios de comunicação, ao controlar simultaneamente as principais emissoras de TV e rádio em todos os Estados brasileiros juntamente com uma rede de jornais, revistas, emissoras de TV a cabo e portais na internet.

Uma verdadeira democratização das comunicações no Brasil passa, necessariamente, pela adoção de medidas contra a Rede Globo, para que o monopólio seja desmontado e que a sua programação tenha de se submeter a critérios pautados pela ética jornalística, pelo respeito aos direitos humanos e pelo interesse público.

Carta Maior

 

Igor Fuser: “Red Globo de Televisión es el agente principal de imbecilización de la sociedad brasileña”

La Red Globo es el aparato ideológico más eficiente que las clases dominantes han construido en Brasil desde principios del siglo XX. Perfectamente reemplaza a la Iglesia Católica como un instrumento de control de la mente y el comportamiento.

Globo estaba al lado de todos los gobiernos de derecha, desde el régimen militar – que se convirtió en el gigante que es hoy – hasta que Fernando Henrique Cardoso. Sirvió tenazmente a la dictadura, la demonización de las fuerzas de izquierda y respaldar el discurso jactancioso como “Brasil Me encanta o lo dejas” y con conocimiento de versiones falsas de la muerte de combatientes de la resistencia que murieron en la tortura y presentados como caído en tiroteos. Más tarde, después del fin de la dictadura, se alinearon para apoyar la implementación del neoliberalismo, se presenta como la única forma posible de organizar la economía y la sociedad.

En el plano cultural, es imposible medir el inmenso daño causado por la Red Globo, que opera como el principal agente de imbecilización de la sociedad brasileña. A partir de las novelas, seguidos de los reality shows, programas de auditorio, el papel del mundo es siempre anestesiar las conciencias, bloquear cualquier tipo de reflexión crítica.

Globo impuso un portugués brasileño “standard”, lo que anula que las culturas regionales sean más importante – el acento local, la forma específica de hablar en cada región. Practicando activamente el racismo, la intención de los personajes de papeles secundarios negros y jóvenes en las novelas en las que los héroes y heroínas son siempre blancos. Los caracteres blancos son los que tienen su propia personalidad, psicología compleja, los únicos capaces de despertar la empatía de los espectadores, mientras que los negros limitados a apoyar las funciones. Por cierto, son los que aparecen en la escena de trabajo en cualquier novela, los que se dedican a labores manuales.

La actitud racista del mundo no perdona incluso a los niños, inducidos, por generaciones, a valorar la piel blanca y el pelo rubio como el estándar de la parte superior de la belleza, de programas como Xuxa.

Un periodismo de Globo contrario a las normas básicas de la ética, al negar el derecho a la contradicción. Sólo la versión o puntos de vista de la empresa es que se sirve. Ocurre en con los programas de noticias de Globo en una manipulación constante de los hechos. Las huelgas, por ejemplo, siempre se presentan desde el punto de vista de los empleadores, es decir, como trastorno o desorden sin que los trabajadores tengan el derecho de hablar. Los movimientos sociales son calumniados y la violencia de la policía rara vez aparece. Por el contrario, la demanda siempre se extiende en la sociedad en un clima de miedo, con enfoque exagerado y sensacionalista de la seguridad pública, a fin de promover falsas soluciones de carácter violento y actores políticos que los defiendan.

En el plano político, la Red Globo ha adoptado ante los gobiernos del PT una conducta de sabotaje permanente, omitiendo todos los hechos que pueden presentar una visión positiva de la administración federal, al mismo tiempo en que las noticias de corrupción son presentadas, muchas veces sin sustentación o en pruebas y evidencias, de forma escandalosa, en una postura de denuncia constante.

Globo practica el monopolio de los medios de comunicación, para controlar simultáneamente los principales canales de televisión y radio en todos los estados brasileños, junto con una red de periódicos, revistas, estaciones de televisión y portales de Internet por cable.

Una verdadera democratización de la comunicación en Brasil implica necesariamente la adopción de medidas contra la Red Globo, de manera que se desmantele el monopolio y que su programación tenga que someterse a criterios guiados por la ética periodística, el respeto de los derechos humanos y el interés público.

Los pueblos hablan.org

 

Dez razões para não comemorar os 50 anos da Globo

En abril de este año, Tv Globo cumplió 50 años de transmisión. En este artículo Ângela Carrato periodista y profesora de comunicación social de la UFMG explica los motivos para no festejar ese aniversario. A propósito de los 90 años del nacimiento del primer medio del grupo, es pertinente su lectura

Era para ser uma festa de arromba, com eventos se sucedendo em todo o país. Grande parte do que a TV Globo preparou para comemorar seu cinquentenário, a ser completado no domingo (26/4), está mantido, mas, sem dúvida, não terá o mesmo brilho de outras épocas. Depois dos problemas verificados durante a sessão solene da Câmara dos Deputados em homenagem à emissora, em que três militantes em prol da democratização da comunicação tiveram que ser retirados por seguranças, as festas em locais abertos ou de acesso público estão sendo repensadas. Os cuidados se justificam.

Nunca a audiência da TV Globo, centro do império da família Marinho, esteve tão baixa. O Jornal Nacional, seu principal informativo, que chegou a ter 85% de audiência, agora não passa dos 20%. Suas novelas do horário nobre estão perdendo público para similares da TV Record. No dia 1º de abril aconteceram atos em prol da cassação da concessão da emissora em diversas cidades brasileiras. O realizado no Rio de Janeiro, em frente à sua sede, no Jardim Botânico, foi o mais expressivo e contou com 10 mil pessoas. Número infinitamente maior participou, no mesmo horário, do tuitaço e faceboquiaço “Foraglobogolpista”.

Artistas globais e a viúva de Roberto Marinho integram a relação de suspeitos de crimes de evasão fiscal e serão alvo de investigação pela CPI do Senado, criada para analisar a lista de mais de oito mil brasileiros que têm depósitos em contas secretas na filial do banco HSBC, na Suíça. Este escândalo internacional envolve milhares de pessoas em diversos países. A diferença é que fora do Brasil o assunto tem tido destaque e é coberto diuturnamente, enquanto aqui, a mídia, Globo à frente, prefere ignorá-lo ou abordá-lo parcialmente.

Além disso, o conglomerado teria sonegado o Imposto de Renda ao usar um paraíso fiscal para comprar os direitos de transmissão da Copa do Mundo Fifa de 2002. Após o término das investigações, em outubro de 2006, a Receita Federal quis cobrar multa de R$ 615 milhões da emissora. No entanto, semanas depois o processo desapareceu da sede da Receita no Rio de Janeiro. Em janeiro de 2013, uma funcionária da Receita foi condenada pela Justiça a quatro anos de prisão como responsável pelo sumiço. No processo, ela afirmou ter agido por livre e espontânea vontade.

Nem mesmo a campanha filantrópica “Criança Esperança”, promovida em parceria com a Unesco, se viu livre de críticas. Um documento datado de 15 de setembro de 2006, liberado pelo site WikiLeaks em 2013, cita que a Rede Globo repassou à Unesco apenas 10% do valor arrecadado desde 1986 com a campanha (à época R$ 94,8 milhões). A emissora garante “desconhecer” essa informação e afirma que “todo o dinheiro arrecadado pela campanha é depositado diretamente na conta da Unesco”.

Como se tudo isso não bastasse, ao assumir a postura pró-tucanos durante a campanha eleitoral de 2014, a emissora perdeu parte da régia publicidade oficial com que sempre foi contemplada. O governo não anuncia mais na TV Globo e nem na revista Veja e, pelo menos até o momento, não há indícios de que o quadro esteja prestes a se alterar. Motivos que têm levado cada dia mais repórteres e equipes da emissora a serem alvo de protestos e recebidos aos gritos de “O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo!”

Os protestos contra a Rede Globo, pelo visto, vão continuar e existem pelo menos 10 razões para que os setores comprometidos com a democratização da mídia no Brasil não tenham nada a comemorar neste cinquentenário.

1. Canal 4 estava prometido à Rádio Nacional

Em meados de 1950, Roberto Marinho era apenas um entre os vários empresários da comunicação no país. O magnata da época atendia pelo nome de Assis Chateaubriand e detinha a maior cadeia de jornais, rádios e duas emissoras nascentes de televisão. A rádio líder absoluta de audiência e mais querida do Brasil era a Nacional, a PR-8 do Rio de Janeiro, de propriedade do governo federal. O sucesso da Nacional era tamanho que animou seus dirigentes a solicitar que o então presidente da República lhe concedesse um canal de TV. Constava do currículo da Rádio Nacional já ter feito experiências pioneiras na área, ao ocupar o canal 4 para televisionar (como se dizia na época) dois dos seus programas.

O presidente da República era Juscelino Kubitschek, que considerou justa a reivindicação, uma decorrência natural da liderança da emissora. Na publicação de final de ano em 1956, a direção da Rádio Nacional anunciava para “breve” a entrada no ar da sua emissora, a TV Nacional, canal 4, conforme compromisso assumido por Juscelino. As concessões de canais de rádio e TV eram atribuições exclusivas do ocupante do Executivo Federal.

Os meses se passaram e Juscelino ”esqueceu-se” da promessa. No final de 1957, para surpresa da direção da Rádio Nacional, o canal 4 que lhes fora prometido acabou concedido para a inexpressiva Rádio Globo, de Roberto Marinho. A decisão foi condicionada por pressões diretas de Chateaubriand, que aceitava qualquer coisa menos que a Rádio Nacional ingressasse no segmento televisivo, temendo as consequências disso para seus negócios. Neste contexto, o canal ir para Roberto Marinho era um mal menor.

O Brasil perdeu assim a chance histórica de ter, no nascedouro, duas modalidades de televisão: a comercial, representada pelas emissoras de Chateaubriand, e a estatal voltada para o interesse público como seria a da Rádio Nacional.

2. Acordo com a Time-Life feriu interesses nacionais

Ao contrário da Rádio Nacional, que dispunha de todas as condições para colocar no ar sua emissora de TV, a de Roberto Marinho precisou aguardar alguns anos. Para a implantação da TV Globo, a partir de 1961, foi decisivo o apoio do capital internacional, representado pelo gigante da mídia norte-americana Time-Life. A emissora começou a operar de forma discreta em 26 de abril de 1965 e seus primeiros meses foram um fracasso em termos de audiência.

Em junho de 1962, Marinho passou a ser apoiado com milhões de dólares, num episódio que a emissora ainda hoje sustenta que se tratou apenas de “um contrato de cooperação técnica”. A realidade, fartamente documentada por Daniel Herz, em sua obra já clássica A história secreta da Rede Globo (1995), prova o contrário. Roberto Marinho e o grupo Time-Life contraíram um vínculo institucional de tal monta que os tornou sócios, o que era vedado pela Constituição brasileira. Foi este vínculo que assegurou à Globo o impulso financeiro, técnico e administrativo para alcançar o poderio que veio a ter.

A importância da ligação com os norte-americanos, nos primórdios da emissora, pode ser avaliada pela declaração do engenheiro Herbert Fiúza, que integrou a sua primeira equipe técnica: “A Globo era inspirada numa estação de Indianápolis, a WFBM. E o engenheiro de lá foi quem montou tudo, porque a gente não sabia nada”.

Chateaubriand, que antes havia ficado satisfeito em inviabilizar o canal de TV para a Rádio Nacional, percebeu o risco que suas emissoras passavam a correr. Tanto que dedicou ao “Caso Globo/Time-Life” nada menos do que 50 artigos, todos atacando Roberto Marinho e acusando-o de receber, na época, US$ 5 milhões, repassados em três parcelas, o que representava “uma ofensiva externa contra os competidores internos” (Morais, 1994, p.667).

A repercussão dessas denúncias foi tamanha que a CPI criada pelo Congresso Nacional para apurá-las acabou descobrindo que a TV Globo mantinha não um, mas dois contratos com o grupo Time-Life. Em um deles, os norte-americanos tinham participação de 49%. Em outras palavras, não se tratava de contrato, mas de sociedade. A CPI pôs fim à sociedade. Mas, ao invés de sair penalizada do episódio, a Globo foi duplamente beneficiada: Roberto Marinho ficou com o controle total da emissora e os militares, então no poder, não tomaram qualquer providência contra ela. A TV Globo poderia ter tido sua concessão cassada.

3. O apoio à ditadura militar (1964-1985)

Nos anos 1960, o Brasil era visto pelos Estados Unidos como sua área de influência direta. E a TV Globo foi fundamental para trazer para cá o way of life norte-americano juntamente com o seu modelo de televisão. A TV comercial, um dos tipos de emissora existentes no mundo, adquire aqui o status de única modalidade de TV. Não por acaso, Murilo Ramos (2000, p.126) caracteriza o surgimento da TV Globo como sendo “a primeira onda de globalização da televisão brasileira”, que, concentrada num único grupo local, monopolizou a audiência e teve forte impacto político e eleitoral ao longo das décadas seguintes.

Durante quase 20 anos, TV Globo e governos militares viveram uma espécie de simbiose. Os militares, satisfeitos por verem nas telas da Globo apenas imagens e textos elogiosos ao “país que vai para a frente”, retribuíam com mais e mais benesses e privilégios para a emissora. A partir de dezembro de 1968, com a edição do AI-5, o país mergulhou no “golpe dentro do golpe”, com prisão e perseguição a todos os considerados inimigos e adversários do regime e a adoção de censura prévia aos veículos de comunicação.

A TV Globo enfrentou alguns casos de censura oficial em suas telenovelas, mas o que prevaleceu na emissora foi o apoio incondicional de sua direção aos militares no poder e a autocensura por parte da maioria de seus funcionários.

Ainda hoje não falta quem se recorde de situações patéticas em que o então apresentador do Jornal Nacional, Cid Moreira, mostrava aos milhares de telespectadores brasileiros cenas de um país que se constituía “em verdadeira ilha de tranquilidade”, enquanto centenas de militantes de esquerda eram perseguidos, presos, torturados ou mortos nas prisões da ditadura. Some-se a isso que a TV Globo sempre se esmerou em criminalizar quaisquer movimentos populares.

4. O combate permanente às TVs Educativas

Desde 1950 que as elevadas taxas de analfabetismo vigentes no Brasil eram uma preocupação constante para setores nacionalistas e de esquerda. Uma vez no poder, algumas alas militares viram na radiodifusão um caminho para combater a subversão e, ao mesmo tempo, promover a integração nacional. O resultado disso foi que, em 1965, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) solicita ao Conselho Nacional de Telecomunicações a reserva de 48 canais de VHF e 50 de UHV especificamente para a televisão educativa.

O número era dos mais significativos e poderia ter representado o começo de canais voltados para os interesses da população, a exemplo do que já acontecia em outras partes do mundo. Pouco depois do decreto ser publicado, Roberto Marinho começa a agir para reduzir sua eficácia. E, na prática, conseguiu seu intento. O decreto-lei nº 236, de março de 1967, se, por um lado, formalizava a existência das emissoras educativas, por outro criava uma série de obstáculos para que funcionassem. O artigo 13, por exemplo, obrigava essas emissoras a transmitir apenas “aulas, conferências, palestras e debates”, ao mesmo tempo em que proibia qualquer tipo de propaganda ou patrocínio a seus programas. Traduzindo: as TVs Educativas estavam condenadas à programação monótona e à falta crônica de recursos.

Como se isso não bastasse, o artigo seguinte fechava o cerco a essas emissoras, determinando que somente pudessem executar o serviço de televisão educativa a União, os estados, municípios e territórios, as universidades brasileiras e alguns tipos de fundações. Ficavam de foram, por exemplo, sindicatos e as mais diversas entidades da sociedade civil.

Dez anos após este decreto-lei, apenas seis emissoras educativas tinham sido criadas no país, número muito distante dos 98 canais disponíveis. As emissoras educativas não conseguiam avançar, esbarrando na legislação que lhes obrigava a viver exclusivamente do minguado orçamento oficial, ao passo que as televisões comerciais, em especial a Globo, experimentavam crescimento sem precedentes. Crescimento que contribuiu para cristalizar, em parcela da população brasileira, a convicção de que a emissora de Roberto Marinho era sinônimo de qualidade.

5. O programa global de telecursos

Oficialmente, o projeto tinha o nome de Educação Continuada por Multimeios e envolvia um convênio entre a Secretaria de Cooperação Econômica e Técnica Internacional (Subin) da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, o BID, a Fundação Roberto Marinho (FRM) e a Fundação Universidade de Brasília (FUB). Aparentemente, o seu objetivo era nobre: “O atendimento à educação de população de baixa renda do país, mediante a utilização e métodos não tradicionais de ensino”.

Na versão inicial, o convênio tinha 15 cláusulas, com a FRM assumindo a condição de entidade executora e a FUB a de sua coexecutora. Na prática, o convênio ficou conhecido como Programa Global de Telecursos e atendia exclusivamente aos interesses da FRM. Através dele, a FRM pretendia, sem qualquer custo, apoderar-se do milionário “negócio” da teleducação no Brasil. Para tanto, esperava contar com recursos nacionais e internacionais inicialmente da ordem de US$ 5 milhões embutidos em um pacote de U$S 20 milhões solicitados pela Subin ao BID, no início de 1982.

A parceria com a FUB era importante por ela ser uma entidade voltada para o ensino público e estar isenta de impostos para a importação dos equipamentos necessários à montagem de um centro de produção televisiva a custo zero. Em outras palavras, a FRM pretendia tornar-se a administradora da verba (nacional e internacional) destinada às televisões educativas no Brasil, geridas pela Funtevê, entidade governamental. Imediatamente, a Funtevê deixou nítido que o convênio exorbitava as competências da FRM e da própria UnB. É importante assinalar que pela UnB um dos raros entusiastas deste convênio era o seu então reitor, capitão de mar-e-guerra José Carlos Azevedo.

A discussão em torno deste convênio e da tentativa das Organizações Globo de apropriarem-se dos recursos destinados às TVs educativas brasileiras ganham a imprensa nacional no final de 1982 e início de 1983. Matéria publicada pelo jornal Folha de S.Paulo (17/04/1983), sob o título de “Globo poderá monopolizar teleducação”, tratava o assunto em forma de denúncia. O “tiroteio” entre os jornais Globo e Folha de S.Paulo durou vários meses e o convênio, que acabou não sendo assinado, só foi sepultado três anos depois, com o fim do regime militar. Sem muita cerimônia, o então secretário-executivo da FRM, José Carlos Magaldi, chegou a admitir que “é óbvio que não fazemos teleducação por patriotismo”.

Esta não foi a primeira e nem a última tentativa das Organizações Globo de se apoderarem da teleducação no Brasil. Aliás, a FRM tem, nos dias atuais, representado o Brasil em vários fóruns internacionais sobre educação e teleducação. O MEC sabe disso?

6. O caso Proconsult e o combate a Leonel Brizola

Antes dos petistas, Leonel Brizola foi um dos políticos brasileiros mais combatidos pela TV Globo e por seu fundador, Roberto Marinho. Marinho nunca o perdoou pelo fato de ter comandado a Rede da Legalidade, nome que receberam as emissoras de rádio que, quando da renúncia de Jânio Quadros à presidência da República, em 1961, passaram a defender a posse de seu vice, João Goulart. Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, era cunhado de Goulart.

Com a vitória do golpe civil-militar de 1964, Brizola foi para o exílio e só pode retornar ao Brasil com a anistia, em 1979. Político com fortes compromissos populares, em 1982 disputou o governo do Rio de Janeiro, pelo PDT, partido criado por ele.

O caso Proconsult foi uma tentativa de fraude nas eleições de 1982 para impossibilitar a vitória de Brizola. Consistia em um sistema informatizado de apuração dos votos, feito pela empresa Proconsult, associada a antigos colaboradores do regime militar. A mecânica da fraude consistia em transferir votos nulos ou em branco para que fossem contabilizados para o candidato apoiado pelas forças situacionistas, Moreira Franco, do então PDS.

As regras da eleição de 1982 impunham que todos os votos (de vereador a presidente da República) fossem em um mesmo partido. Portanto, estimava-se um alto índice de votos nulos. Os indícios de que os resultados seriam fraudados surgiram da apuração paralela contratada pelo PDT à empresa Sysin Sistemas e Serviços de Informática, que divergiam completamente do resultado oficial. Outra fonte que obtinha resultados diferentes dos oficiais foi a Rádio Jornal do Brasil. Roberto Marinho foi acusado de participar no caso.

A fraude foi extensamente denunciada pelo Jornal do Brasil, na época o principal concorrente de O Globo no Rio e relatada posteriormente pelos jornalistas Paulo Henrique Amorim, Maria Helena Passos e Eliakim Araújo no livro Plim Plim, a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral (Conrad Editores, 2005). Devido à participação de Marinho no caso, a tentativa de fraude é analisada no documentário britânico Beyond Citizen Kane, de 1993. A TV Globo, por sua vez, defendeu-se argumentando que não havia contratado a Proconsult e que baseava a totalização dos votos daquela eleição na totalização própria que O Globo estava fazendo.

Em 1994, Brizola venceu novamente Roberto Marinho e a TV Globo ao obter, na Justiça, direito de resposta na emissora. Em 15 de março, um constrangido Cid Moreira (que por 27 anos esteve à frente da bancada do Jornal Nacional) leu texto de 440 palavras que a Justiça obrigou a TV Globo a divulgar em seu telejornal mais nobre.

Foram cerca de três minutos nos quais Cid Moreira, a cara do JN, incorporou Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, no mais célebre e então inédito direito de resposta, que abriu caminho para que outros cidadãos buscassem amparo legal contra barbaridades cometidas pela mídia brasileira.

7. Ignorou as Diretas-Já

O PMDB lançou, em dezembro de 1983, uma campanha nacional em apoio à emenda do seu deputado Dante de Oliveira (MT) que restabelecia as eleições diretas no país com o slogan “Diretas-Já”. O primeiro grande comício aconteceu em São Paulo, em 25 de janeiro do ano seguinte, e coincidiu com o 430º aniversário da cidade. A TV Globo ignorou o comício que reuniu milhares de pessoas na Praça da Sé. Reportagem do Fantástico sobre o assunto falava apenas em comemorações do aniversário de São Paulo. Omissões semelhantes aconteceram em relação a outros comícios pelas Diretas-Já em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.

De acordo com o ex-vice-presidente das Organizações Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em entrevista ao jornalista Roberto Dávila, na TV Cultura, em dezembro de 2005, foi o próprio Roberto Marinho quem determinou a censura ao primeiro grande comício da campanha pelas Diretas-Já. Segundo Boni, àquela altura “o doutor Roberto não queria que se falasse em Diretas-Já” e decidiu que o evento da Praça da Sé fosse transmitido “sem nenhuma participação de nenhum dos discursantes”. Para Boni, aliás, no caso das Diretas-Já houve uma censura dupla na Globo: “Primeiro, uma censura da censura; depois, uma censura do doutor Roberto”.

A versão de Boni é diferente da que aparece no livro Jornal Nacional – A Notícia Faz História, publicado pela Jorge Zahar em 2004, e que representa a versão da própria Globo para a história de seu jornalismo. O texto não faz referência alguma a uma intervenção direta de censura por parte de Roberto Marinho. Aliás, a Globo vem tentando reescrever a sua história e, ao mesmo tempo, reescrever a própria história brasileira. Isto fica nítido, por exemplo, quando se compara a história brasileira com a versão que é publicada pela Globo através dos verbetes do Memória Globo. Pelo visto, a emissora aposta na falta de memória e na pouca leitura da maioria dos brasileiros para emplacar a sua versão dos fatos. Foi a partir da campanha das Diretas-Já que teve início a utilização, pelos diversos movimentos populares, do bordão “O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo”.

8. Manipulação do debate Collor x Lula

Na eleição de 1989, a primeira pelo voto direto para presidente da República desde 1964, a TV Globo manipulou o debate entre o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva e o do PRN, Fernando Collor. O debate era o último e decisivo antes da eleição. No telejornal da hora do almoço, a TV Globo fez uma edição equilibrada do debate. Para o Jornal Nacional, houve instruções para mudar tudo e detonar Lula. Foram escolhidos os piores momentos de Lula e os melhores de Collor. Ainda foram divulgadas pesquisas feitas por telefone segundo as quais Collor havia vencido. Além disso, o jornalista Alexandre Garcia leu um editorial nitidamente contra Lula e o PT.

Desde então, pesquisas e estudos sobre este “caso clássico de manipulação da mídia” têm sido feitas no Brasil, destacando-se as realizadas pelo sociólogo, jornalista e professor aposentado da UnB Venício A. Lima.

Apesar dos esforços da TV Globo para manter a versão de que a edição deste debate foi equilibrada, novamente seu ex-diretor José Bonifácio Sobrinho contribuiu para derrubá-la. Depois de abordar o assunto em entrevistas à imprensa, por ocasião do lançamento de seu livro de memórias, o ex-dirigente global deu entrevista à própria GloboNews, canal pago da emissora, na qual admitiu, para o jornalista Geneton Moraes Neto, que, durante os debates da campanha presidencial transmitidos pela Globo em 1989, tentou ajudar o candidato alagoano. Para muitos, Boni só fez esta “revelação bombástica”, que quase todos já sabiam, para tentar promover seu livro.

9. Contra a democratização da mídia

Todos os países democráticos possuem regulação para rádio e televisão. Na Grã-Bretanha, por exemplo, a mídia e sua regulação caminharam juntas. O mesmo pode ser dito em relação aos Estados Unidos, França, Itália e Japão. Nestes países, tão admirados pelas elites brasileiras, nunca ninguém fez qualquer vínculo entre regulação e censura, simplesmente porque ele não existe. No Brasil, onde a mídia em geral e a audiovisual em particular vive numa espécie de paraíso desregulamentado, toda vez que um governo tenta implementar o que existe no resto do mundo é acusado de ditatorial e de querer implantar a censura.

Quando, em 2004, o governo do presidente Lula enviou ao Congresso Nacional projeto de lei criando o Conselho Nacional de Jornalismo, uma espécie de primeiro passo para esta regulação, foi duramente criticado pela mídia comercial, TV Globo à frente. Desde sempre, as Organizações Globo foram contrárias a qualquer legislação que restringisse o poder absoluto que desfruta a mídia no Brasil. Prova disso é que os dispositivos do Capítulo V da Constituição brasileira, que trata da Comunicação Social, continuam até hoje sem regulamentação.

Entre outros aspectos, o Capítulo V proíbe monopólios e oligopólios por parte dos meios de comunicação, determina que a programação das emissoras de rádio e TV deva dar preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. O capítulo enfatiza, ainda, que as emissoras e rádio e TV devem promover a cultura nacional e regional, além de estimularem a produção independente. Todos esses aspectos mostram como a TV Globo está na contramão de tudo o que significa uma comunicação democrática e plural.

Aliás, os compromissos dos mais diversos movimentos sociais brasileiros com a regulação da mídia foram reafirmados durante o 2º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação, promovido pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, de 10 a 12 de abril, em Belo Horizonte. O evento reuniu 682 participantes entre ativistas, estudantes, militantes, jornalistas, estudiosos, pesquisadores, representantes de entidades e coletivos de todo o Brasil. Presente ao encontro esteve também o canadense Toby Mendel, consultor da Unesco e diretor-executivo do Centro de Direitos e Democracia.

A carta final do encontro, intitulada “Regula Já! Por mais democracia e mais direitos”, disponível na página da entidade (www.fndc.org.br), reafirma “a luta pela democratização da comunicação como pauta aglutinadora e transversal, além de conclamar as entidades e ativistas a unirem forças para pressionar o governo a abrir diálogo com a sociedade sobre a necessidade de regular democraticamente o setor de comunicação do país”.

10. Golpismo

Para vários pesquisadores e estudiosos sobre movimentos sociais no Brasil, a mídia, em especial a TV Globo, tem tido um papel protagonista nas manifestações contra a presidente Dilma Rousseff. Alguns chegam mesmo a afirmar que dificilmente essas manifestações teriam repercussão se não fosse o empenho Rede Globo (saiba mais aqui). Em outras palavras, a Rede Globo, tão avessa à cobertura de qualquer movimento popular, entrou de cabeça na transmissão destas manifestações.

Pragmatismo Político

 

«Los medios brasileños tienen una línea opositora, no hay casi ninguno oficialista»

El sociólogo Ariel Goldstein es argentino de nacimiento, pero «brasileñista» por opción académica. Por eso decidió investigar un tema recurrente en los últimos años, el de las relaciones entre los medios de comunicación y la política, pero poniendo la lupa sobre un diario paulista: O Estado. El resultado es De la expectativa a la confrontación: O Estado de Sao Paulo durante el primer gobierno de Lula da Silva, donde Goldstein analizó los cambios experimentados en la línea editorial del periódico entre 2003 y 2006 para comprender, de modo más general, cómo funciona la compleja telaraña de intereses que se teje entre la prensa y el poder político brasileño, publica Tiempo Argentino.

«En particular, me interesaba ver la reacción de este periódico tradicional, de las élites, frente a un proceso de democratización social del poder político, que es lo que significa el ascenso de Lula al poder, el primer presidente que conoció la experiencia de la miseria», explica el autor, magíster en Ciencia Política por el Instituto de Altos Estudios Sociales (UNSAM). En esta charla con Tiempo, Goldstein trazó paralelismos entre la situación de los medios en Brasil y Argentina, y las dificultades que el gobierno de Dilma Rousseff tiene para implementar una eventual ley de medios.

–Usted plantea que O Estado pasa de la expectativa a la confrontación con Lula por una cuestión principalmente ideológica. Eso marca una diferencia con lo que ocurrió aquí con Clarín y los gobiernos de Néstor y Cristina Kirchner, donde el conflicto tiene un cariz claramente económico.

–Sí, la victoria de Lula en octubre de 2002 es un acontecimiento que es visto con expectativa y entusiasmo por gran parte de la prensa en Brasil. Incluso si uno ve las tapas de la revista Veja, que después sería muy opositora, en ese momento parece celebrar el triunfo de Lula. Lo mismo con O Globo y otros periódicos. Esto tiene mucho que ver con la «Carta al pueblo brasileño», donde el gobierno de Lula se compromete a no tocar la economía de mercado que regía desde la época de Fernando Henrique Cardoso. Después del escándalo del Mensalão, se genera una crisis política profunda y estalla una serie de acusaciones en la prensa. Entonces, como una forma de influenciar la agenda pública en torno a los temas que a Lula le interesaban, el entonces presidente va a dar discursos en distintas localidades del país. Esa apelación popular es lo que termina de producir un cambio importante en las apreciaciones que O Estado hace de Lula. Lula pasa de ser un líder pragmático, que había dejado atrás su pasado izquierdista, a un líder populista-chavista, bolivariano. El hecho de que Lula hablara al pueblo contra las elites genera que el diario empiece a descalificar todas las intervenciones de Lula.

–¿El proceso de los medios brasileños tradicionales durante los años de la dictadura fue similar al de Argentina? Es decir, ¿se aliaron con los militares y usaron esa estrategia para crecer como grupos económicos?

–Se puede hacer un paralelismo con lo que fue la trayectoria del grupo O Globo, que nace con un periódico en Río de Janeiro en los primeros años del siglo XX. Uno de sus dueños, Roberto Marinho, aprovecha sus vínculos con la dictadura brasileña, que le permite algo que estaba prohibido constitucionalmente: un grupo extranjero se asocia a O Globo en aquellos años para ampliar su participación empresarial. Entonces el grupo se expande mucho, incorpora canales de televisión, estaciones de radio en todo el país. Luego, en la transición democrática, O Globo emerge como el principal grupo de medios. El poder que tiene se da principalmente a través de la televisión, algo que lo diferencia de Argentina. Porque en Brasil los periódicos no tienen proporcionalmente tanta tirada como tienen aquí, sino que están más determinados por la pauta televisiva y los formadores de opinión están más que nada en la televisión. Entonces el poder de O Globo, en un país atravesado por los regionalismos, está más que nada en la televisión, porque es por allí donde el grupo construye una especie de identidad nacional. De hecho, O Globo ha obligado a todos los presidentes a sentarse en la mesa de Roberto Marinho, inclusive Lula.

–¿Hay una división tan tajante entre medios oficialistas y opositores como en Argentina?

–En Brasil, lo que se da a diferencia de Argentina, es una situación de bajo pluralismo externo. Es decir, acá vos tenés medios de comunicación con líneas editoriales distintas. La prensa está polarizada: están representadas visiones opositoras y otras que apoyan al gobierno. En Brasil hay un desbalance importante en ese sentido: la mayoría de los medios tiene una línea opositora y hay prácticamente una sola revista, Carta Capital, que apoya al gobierno de Lula y Dilma. Pero es una revista con una tirada no muy alta, que sale semanalmente en San Pablo. De modo que no tenés medios de comunicación importantes que tengan una posición de apoyo al gobierno. Quizás hay un mayor pluralismo interno, porque a veces se dan situaciones en algunos medios de Brasil, como en Folha de Sao Paulo, donde varios referentes del gobierno pueden escribir.

–En ese contexto, ¿los medios asumen el rol de oposición política al gobierno de Dilma o se mantienen en el plano periodístico?

–En Brasil hay un proceso de mayor profesionalización del periodismo en función del modelo americano de la «objetividad». Esto significa que en parte hay una búsqueda de autonomía del campo periodístico respecto del campo político. En el caso argentino, durante el gobierno de Cristina Kirchner se promulgó la ley de medios y se salió a confrontar de un modo mucho más profundo con los medios de comunicación. En Brasil no se produjo un conflicto de esa intensidad en términos del “gobierno contra los medios”. No existe ese grado de polarización y conflictividad.

–¿Por qué no avanza la ley de medios en Brasil?

–El gobierno de Dilma tiene un tema muy difícil con la ley de medios porque en la transición democrática el gobierno de José Sarney distribuyó licencias de radiodifusión para elites políticas regionales como parte de acuerdos con las diferentes dirigencias regionales. Entonces hay una articulación de intereses políticos muy fuertes en ese sentido, y si el gobierno quisiera promulgar una ley de medios debería contar con el voto de esas elites que justamente tienen las licencias de radiodifusión. Es decir, que se deberían atacar a sí mismas para democratizar los medios. Además, hay una restricción institucional fuerte para que eso pase, así que no están dadas las condiciones institucionales para que se produzca una ley de medios como hay acá en Argentina.

Licencias

El gobierno de Sarney distribuyó licencias de radiodifusión para elites políticas regionales. Si se quisiera promulgar una ley de medios debería contar con el voto de esas elites que tienen las licencias.

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Ley de comunicación, una tarea pendiente del gobierno brasileño

Valeria Puga Álvarez, especial para EL TELÉGRAFO

La mayoría de medios de comunicación de América Latina, así como aquellos internacionales de gran audiencia en la región –por ejemplo, CNN-, es propiedad privada. La existencia de medios públicos y medios comunitarios es aún marginal y he aquí una de las grandes batallas de la región: democratizar la comunicación.

A diferencia de los gobiernos de Venezuela, Argentina y Ecuador que han aprobado nuevos marcos normativos para la regulación de los medios de comunicación (Ley Resorte, 2004; Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual, 2009; Ley Orgánica de Comunicación, 2013); los gobiernos petistas de Lula da Silva (2003-2011) y Dilma Rousseff, todavía han dejado la tarea en el tintero, a menudo, han dicho, por la falta de una mayoría parlamentaria.

Brasil registra una de las mayores concentraciones de propiedad mediática del mundo con seis oligopolios: Marinho (O Globo), Frias (Folha), Civita (Abril), Sirotsky (RBS), Mesquita (Estado) y Bandeira de Melo (Associados). La red O Globo trabaja de la mano con el Instituto Brasileño de Opinión Pública y Estadística (Ibope, con filiales en la mayoría de América Latina) y el grupo Folha cuenta con su propia encuestadora el Datafolha, con lo que el dominio de la opinión pública es casi absoluto. Se añade, que más de 150 legisladores son propietarios de un medio de comunicación.

El caso de la red O Globo merece todo un capítulo aparte. Este oligopolio nació y creció al amparo de los más de 20 años que duró el período de dictadura. En abril de este año, se desclasificó un telegrama que revelaba cómo Roberto Marinho propietario de lo que entonces se denominaba ‘Organizaciones Globo’ mantuvo una conversación con el embajador de Estados Unidos en Brasil, Lincoln Gordon, sobre su “silencioso trabajo” para definir la prorrogación o renovación del mandato del dictador Castelo Branco. El documental ‘Más allá del Ciudadano Kane’ (Muito Além do Cidadão Kane) del inglés Simon Hartog, recogió en gran medida, el rol de O Globo en la dictadura y su relación con el sistema político. Desde luego, O Globo nunca permitió su estreno.

No extraña, por tanto, que desde que el Partido de los Trabajadores (PT) apareció en la escena política en la década del 80, las empresas mediáticas hayan convenido en deslegitimarlo. Como dato, cuando se creó el Foro de Sao Paulo (espacio de encuentro de partidos de izquierda de América Latina) en el 90, la prensa conservadora brasileña lo acusó de albergar a organizaciones terroristas y subversivas, sobre todo, por la participación y protagonismo del Partido Comunista Cubano y de Fidel Castro como uno de sus promotores.

Frente a esta incesante campaña de deslegitimación y desprestigio se han enfrentado, tanto Lula Da Silva, como la presidenta y candidata Dilma Rousseff. Ha sido dramático como Rousseff ha soportado cuestionamientos permanentes, en base a un “periodicazo” del Folha de Sao Paulo sobre una supuesta operación dolosa de Petrobras, cuando fue presidenta del Consejo de la empresa. La red O Globo se ha encargado de repetirlo, a modo de “juez”.

Oligopolios mediáticos aún sin ley

En 2009, el gobierno de Lula da Silva abolió la Ley de Prensa de 1967. Aquel corpus jurídico, aprobado en la dictadura, legalizaba ampliamente la censura, por lo que era criticado tanto por el oficialismo como por la oposición. Con la abolición, el marco normativo para los medios de comunicación se redujo a los códigos Civil y Penal y al Código Brasileño de Telecomunicaciones de 1962, ya caduco por definición. Desde luego, la Constitución carioca, también se refiere en varios artículos (5, 54, 221, 223, etc.) a los principios que deben regular la comunicación, pero no es suficiente.

A finales del último período del gobierno de Lula da Silva, se creó un grupo de trabajo encabezado por el entonces secretario de Comunicación Social, Franklin Martins, para elaborar un proyecto de ley de medios. Martins viajó por varios países de Europa para conocer algunos ejemplos de regulación y tomó nota de los casos de Argentina y Ecuador (en 2010 aún en proyecto).

Lamentablemente, aún esta iniciativa no ha caminado desde el ejecutivo. La Central Única de los Trabajadores (brazo sindical del PT) ha tratado de sostener el tema en el debate público, junto con el Foro Nacional para la Democratización de la Comunicación y de la Campaña para Expresar la Libertad, que han entregado a Dilma y a otros candidatos su proyecto de Ley Democrática de Medios.

La presidenta y candidata, Dilma Rousseff, ha ofrecido que la regulación económica de los medios de comunicación, será uno de los temas de trabajo para su segundo mandato, con el fin de combatir las formas oligopólicas de propiedad mediática y garantizar una mayor pluralidad de voces.

Tanto los sectores de la sociedad civil como los sectores políticos reconocen que la batalla no será fácil. Disputar la hegemonía de los mayores oligopolios mediáticos de la región, claramente, convierte a este debate en un tema de alcance latinoamericano.

El Telégrafo

Recomendamos leer también «Radiografía de los tres grandes conglomerados mediáticos de América Latina: O Globo, Televisa y Clarín»

Para ver online «Más allá del Ciudadano Kane» (Muito Além do Cidadão Kane)

 

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