Fiesta del libro en Paraty

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O cenário, desta vez, é diferente de todos os outros -literal e metaforicamente. A 15ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que começa nesta quarta (26), não ocorrerá na tradicional tenda dos autores. Os debates agora ocorrerão na Igreja da Matriz, no centro histórico da cidade.

É uma mistura curiosa, com uma construção concluída em 1873 e uma Flip em busca de renovação. Depois de anos de críticas, a festa literária entrega em 2017 uma programação marcada pela diversidade.

Os autores negros, ausentes no ano passado, agora são 30% dos convidados, entre eles Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves. E, pela primeira vez, há mais mulheres (23) do que homens (22).

Com o homenageado Lima Barreto como norte, a curadoria da jornalista Joselia Aguiar foi buscar autores às margens do sistema literário tradicional. Ela aposta em menos nomes conhecidos e menos língua inglesa -chave em outras edições, ela terá três representantes: o americano Paul Beatty, o jamaicano Marlon James e a britânica nascida na África do Sul Deborah Levy.

Na «Ilustríssima» de domingo (23), o crítico e colunista da Folha de S.Paulo Manuel da Costa Pinto elogiou a programação por ser consistente, mas aponta concessões extraliterárias nela.

«Não é concessão. As pessoas não querem se dar ao trabalho de conhecer os autores negros», rebate Joselia, acrescentando que a curadoria levou a qualidade em consideração.

Segundo ela, montar as mesas foi como montar «um Tinder», aplicativo de relacionamentos. Selecionou bons autores homens e mulheres -e depois viu quais davam «match». Aguiar diz também que a escolha tem a ver com o crescimento do ativismo no mundo, que influenciou eventos literários pelo planeta.

Opostos

É justamente a diversidade que pode causar atritos com católicos mais conservadores.

O historiador Luiz Antonio Simas, que fala na sexta (28), é babalaô no culto de Ifá, orixá a quem foi dado o conhecimento sobre o destino dos homens. Em suas falas, costuma falar de Exu, orixá que transmite as mensagens entre a terra e o mundo dos deuses.

O tradutor Guilherme Gontijo Flores, em mesa na quinta (27), deve tratar do homoerotismo no mundo greco-romano. Ele lança na festa literária «Fragmentos Completos» (ed. 34), da poeta Safo, e «Por Que Calar Nossos Amores» (Autêntica), antologia da poesia homoerótica latina.

Marlon James, por sua vez, já contou de quando passou por uma tentativa de exorcismo para curá-lo de ser homossexual (ele continua tão gay quanto antes do ritual, registre-se).

A decisão de realizar a Flip na Igreja da Matriz, que receberá R$ 50 mil, gerou protestos de parte da comunidade religiosa local. O Santíssimo, onde fica guardada a hóstia, foi retirado dali até o fim da festa.

Para acalmar os manifestantes, o padre Roberto Carlos Pereira, pároco local, enviou no fim de junho uma carta aos fiéis e um áudio de WhatsApp.

«Não há nada que ofenda a nossa fé na Flip. Tirei o Santíssimo, onde fica o corpo de Cristo, que é o que merece reverência. Temia que, se a Flip afundasse, os demais eventos na cidade afundassem também», diz o sacerdote à Folha.

Ele -assim como a organização da festa literária- afirma não ter feito exigências sobre o conteúdo de debates ou a postura de autores no templo, porque conhece o evento e «sabe» que haverá respeito. Sinaliza, no entanto, contar com o decoro dos convidados.

A igreja se tornou a nova sede da festa por questões orçamentárias. A antiga tenda dos autores costumava empregar cerca de 90 pessoas em sua montagem; agora, são 25. A capacidade passou de 850 lugares para 410. A mudança, considerando a redução na venda de ingressos, representa uma economia de R$ 300 mil.

A gratuita tenda do telão, por sua vez, aumentou de 500 para 700 lugares. Haverá transmissão ao vivo pelo site oficial flip.org.br. Neste ano, o orçamento, em queda há três anos, é de R$ 5,8 milhões.

A mudança altera a dinâmica do comércio local. Os ambulantes, que ficavam ao lado da Igreja da Matriz, foram transferidos para além da ponte, onde ficava a tenda dos autores. Afastados do núcleo, a expectativa é de lucro menor.

Publicado en JornalCruzeiro

Flip 2017: 5 temas imperdíveis da Festa Literária Internacional de Paraty

Um recorde de escritoras e escritores negros (30%) dos convidados; uma homenagem ao “injustiçado” Lima Barreto; um espaço considerável a autores independentes (ou “dos subúrbios”, como diz a curadoria); dois nomes estrangeiros premiados (um deles, com obra candidata a polêmica); e a “volta da literatura” ao centro dos debates.

Devem ser esses os destaques da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa nesta quarta-feira (26) e vai até domingo (30).

G1 selecionou os cinco temas que certamente vão dominar as discussões ao longo de todo o evento. Veja no vídeo acima.

Veja, abaixo, os 5 temas imperdíveis da Flip 2017:

1. Recorde de escritoras e escritores negros

A Flip 2017 é considerada a mais negra de todas as edições do evento: 30% dos convidados da programação principal são escritores negros ou escritoras negras. O dado vai contra o histórico recente do evento: no ano passado, por exemplo, não havia um único negro sequer na programação principal – tanto é que a Flip chegou a ser chamada de “arraiá da branquidade”. Na época, a curadoria reconheceu o que chamou de “lacuna”.

Já a curadora da atual edição cita ainda que esta é a “Flip da diversidade”. Isso porque, pela primeira vez, a programação principal tem mais mulheres do que homens: dos 46 convidados, são 24 mulheres e 22 homens.

“Dessa paridade de gêneros aí eu tive de tomar conta, porque você acaba recebendo mais sugestões de autores homens, no sentido de que os editores publicam mais homens, os homens historicamente escreveram mais, publicaram mais, foram mais premiados e ainda por cima viajam com mais prontidão”, afirmou Joselia Aguiar ao G1.

2. Lima Barreto, o homenageado

O autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” é o homenageado da Flip 2017 – e já fazia tempo que Lima Barreto (1881-1922) vinha sendo pedido. Ele vai ser tema de diversos debates ao longo desta edição.

Na sessão de abertura, que acontece na noite desta quarta-feira (26), a historiadora e escritora Lilia Schwartz faz uma conferência sobre o autor. Ela é autora da biografia recém-lançada «Lima Barreto: Triste visionário» (Companhia das Letras). Junto com Lilia, vai estar o ator Lázaro Ramos, que vai ler trechos da obra. A cenografia é do diretor de teatro e dramaturgo Felipe Hirsch.

De acordo com a organização da Flip, «a edição resgatará a trajetória de um homem que estabeleceu-se como escritor no Rio de Janeiro, capital da Primeira República e da cultura literária do país. Em um meio marcado pela divisão de classes e pela influência das belas letras europeias, era difícil para um autor brasileiro com as suas origens afirmar seu valor».

 3. A Flip das margens – ou dos subúrbios

Dos 46 convidados da Flip 2017, apenas quatro escrevem em inglês. Isso diz algo (ou muito) sobre uma das marcas da edição: a forte presença de escritores que não são astros internacionais e já conhecidos no Brasil. Considerando o histórico do evento, é um diferencial.

«Tenho um certo cuidado de falar de [escritores que vêm da] margem», diz a curadora. «Brinco dizendo que a gente foi na direção do subúrbio, como o Lima Barreto. Então, prefiro subúrbio, porque margem porque dá ideia de literatura marginal ou marginalizada.»

Joselia Aguiar destaca também o maior número de editoras pequenas no cardápio. «Estamos com um total de 56 editoras, e no ano passado eram 24. Mas a gente está fazendo uma conta diferente, que considera todos os livros do catálogo dos autores convidados, e não os lançados no mês da Flip», afirma, citando por fim que há «mais editoras pequenas com autores internacionais».

4. Os premiados: Marlon James e Paul Beatty

Dos escritores mais conhecidos e premiados da Flip 2017, destacam-se dois: o jamaicano Marlon James, ganhador do Man Booker Prize 2015, e o americano Paul Beatty, que levou o mesmo troféu no ano seguinte. Na festa, os dois participam de um mesmo debate (a mesa se chama «O grande romance americano» e está marcada para o sábado).

James é autor de “Breve história de sete assassinados” (Intríseca), inspirado num caso real – um complô para assassinar Bob Marley antes de um show pela paz em 1976 em Kingston, na capital da Jamaica. O livro tem 686 páginas e mais 75 personagens, que se alternam no papel de narrador. O texto tem gírias jamaicanas e do Harlem, em Nova York. Tráfico de drogas e viciados em cocaína estão no texto.

Já o Paul Beatty escreveu “O vendido” (Todavia). O protagonista é um homem negro que promove segragação de brancos em uma cidade californiada. Ele também tem um idoso como uma espécie de escravo.

5. A ‘volta’ da literatura

Ao longo dos anos, a Flip sempre abriu espaço a convidados de outras áreas, como cineastas e músicos. E também a arquitetos, cientista, matemático, fotógrafa, um líder indígena, humoristas. Desta vez, a curadoria quis fazer diferente.

“É uma Flip que traz de volta a literatura para o centro», explicou Josélia Aguiar ao G1. «Porque a gente tem mais mesas dedicadas mesmo à literatura, e não a outros assuntos. Existem muitas discussões, mas todas tendo como principal eixo a literatura. Os autores ou são de outras áreas artísticas ou têm algum outro talento artístico além da literatura.»

Ela cita como exemplo o luso-angolano Luaty Beirão, «que é rapper, escreve letras, e também escreveu um diário da prisão como ativista político.”

Veja, abaixo, a programação da Flip 2017:

Quarta-feira (26)

  • 19h15: Mesa 1 – Sessão de abertura – «Lima Barreto: Triste visionário». Com Lázaro Ramos e Lilia Schwarcz.
  • 21h30: Show de abertura – André Mehmari apresenta a «Suíte Policarpo», inspirada na obra de Lima Barreto

Quinta-feira, (27)

  • 12h: Mesa 2 – «Arqueologia de um autor». Com Beatriz Resende, Edimilson de Almeida Pereira e Felipe Botelho Corrêa.
  • 15h: Mesa 3 – «Pontos de fuga». Com Carol Rodrigues, Djaimilia Pereira de Almeida e Natalia Borges Polesso.
  • 17h15: Mesa 4 – «Fuks & Fux». Com Julián Fuks e Jacques Fux.
  • 19h15: Mesa 5 – «Odi et amo». Com Frederico Lourenço e Guilherme Gontijo.
  • 21h30: Mesa 6 – «Em nome da mãe». Com Noemi Jaffe e Scholastique Mukasonga.

Sexta-feira (28)

  • 12h: Mesa 7 – «Moderno antes dos modernistas». Com Antonio Arnoni Prado e Luciana Hidalgo.
  • 15h: Mesa 8 – «Subúrbio». Com Beatriz Resende e Luiz Antonio Simas.
  • 17h15: Mesa 9 – «Na contracorrente». Com Pilar del Río e Niéde Guidon.
  • 19h15: Mesa 10 – «A contrapelo». Com Carlos Nader e Diamela Eltit.
  • 21h30: Mesa 11 – «Por que escrevo». Com Deborah Levy e William Finnegan.
  • Sábado (29)
  • 12h: Mesa 12 – «Foras de série». Com Ana Miranda e João José Reis.
  • 15h: Mesa 13 – «Kanguei no maiki – Peguei no microfone». Com Luaty Beirão e Maria Valéria Rezende.
  • 17h15: Mesa 14 – «Mar de histórias». Com Alberto Mussa e Sjón.
  • 19h15: Mesa 15 – «Trótski e os trópicos». Com Leila Guerriero e Patrick Deville.
  • 21h30: Mesa 16 – «O grande romance americano». Com Marlon James e Paul Beatty.

Domingo (30)

  • 12h: Mesa 17 – «Amadas». Com Ana Maria Gonçalves e Conceição Evaristo.
  • 15h: Mesa 18 – «Livro de cabeceira». Autores convidados leem trechos de suas obras favoritas. Com Alberto Mussa, Ana Miranda, Djaimilia Pereira de Almeida, Patrick Deville, Paul Beatty, Scholastique Mukasonga e William Finnegan.

Flip 2017

Quando: de 26 a 30 de julho

Onde: Paraty (RJ)

Ingressos: R$ 55 para cada mesa (com meia-entrada);

Onde comprar: durante a Flip, entre 26 e 30 de julho, a venda aocntece só em Paraty, na bilheteria oficial localizada em local próximo à Praça da Matriz, no Centro Histórico; nos dias 26 a 29 de julho, das 10h às21h30, e em 30 de julho, das 10h às 15h30.

Vendas exclusivas para moradores de Paraty: 28 e 29 de junho, das 10h às 18h, na Agência Paraty Tours: Avenida Roberto Silveira, 479. Pagamento somente em dinheiro e mediante apresentação de comprovante de residência e documento de identidade. Sem taxas de conveniência.

Publicado en Globo

Vozes negras femininas homenageadas na Festa Literária Internacional de Paraty

A 15.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), dedicada ao escritor brasileiro Lima Barreto, decorre de quarta-feira a domingo e aposta na homenagem à identidade negra feminina.

A escritora Conceição Evaristo, autora de «Insubmissas lágrimas de mulheres», presta um tributo a outras vozes femininas africanas e da diáspora negra, como Angela Davis, Audre Lorde, Carolina de Jesus, Josefina Herrera, Nina Simone, Noémia de Sousa, Odete Semedo, Paulina Chiziane e Toni Morrison. A homenagem realizar-se-á no último dia.

A jornalista Joana Gorjão Henriques, que publica no Brasil o seu livro «Racismo em Português», participará num encontro com Lázaro Ramos, na sexta-feira, sobre identidades e as relações de cor nos países da lusofonia.

Na quinta-feira, estará na FLIP a escritora Djaimilia Pereira de Almeida, que leva o seu romance de estreia, «Esse cabelo», obra de raiz autobiográfica, entre a ficção e o ensaio, centrada numa rapariga de origem africana, e que participará num encontro com as autoras Natália Borges Polesso e Carol Rodrigues, sobre a influências, técnicas e experiências de escrita.

A cineasta brasileira Yasmin Thayná, que dirigiu «Kbela, o filme», sobre ser mulher e tornar-se negra, também participa na FLIP, em vésperas do lançamento do seu livro «Cartas a meu pai branco».

A chilena Diamela Eltit, cofundadora do grupo de vanguarda Colectivo de Acciones de Arte, e a ruandesa Scholastique Mukasonga, definida como «uma das principais vozes africanas», pela organização, são outras participantes na FLIP.

Entre os outros destaques da programação está a presença do ativista angolano Luaty Beirão, no sábado, para uma conversa sobre ativismo e literatura, «ao gosto de Lima Barreto», com Maria Valéria Rezende, escritora brasileira que, «entre idas e vindas ao exterior, se dedicou à educação popular no sertão durante a ditadura».

O diário de prisão do ‘rapper’, «Sou eu então mais livre, então», escrito durante o tempo em que esteve detido, em Angola, de junho de 2015 a junho de 2016, e a coletânea de rimas dos seus ‘raps’, «Kanguei no Maiki» – expressão angolana para «agarrei o microfone» -, serão apresentados em Paraty.

Também o escritor, professor e tradutor português Frederico Lourenço, Prémio Pessoa 2016, cujo primeiro volume da tradução da Bíblia Grega foi lançado recentemente no Brasil, participa numa conversa com o brasileiro Guilherme Gontijo Flores, poeta e tradutor, na quinta-feira. A conversa traça «uma breve história das ideias e dos sentimentos do Ocidente», na altura em que Frederico Lourenço está prestes a editar «Livro aberto: Leituras da Bíblia» no Brasil.

Entre os convidados da 15.ª edição da FLIP estão ainda os escritores Marlon James, autor de «Breve história de sete assassinatos», livro pelo qual ganhou o Man Booker Prize 2015, e o norte-americano Paul Beatty, vencedor do mesmo prémio, em 2016, com «The Sellout», que se juntam, no sábado, para uma discussão sobre a renovação da tradição literária americana, a partir dos seus pontos de vista de jamaicano imigrado nos Estados Unidos e de americano negro.

A 15.ª edição da FLIP abre com uma aula ilustrada sobre a vida e obra de Lima Barreto (1881-1922), «com leituras e imagens inéditas de uma nova biografia», baseada numa investigação da antropóloga Lilia Schwarcz, com interpretação do ator Lázaro Ramos e encenação de Felipe Hirsch.

O pianista, arranjador e compositor André Mehmari apresentará depois uma suite inédita inspirada numa das mais conhecidas criações de Lima Barreto, a personagem titular de «O triste fim de Policarpo Quaresma», assim como na época em que o escritor viveu.

«As temáticas estão ligadas, sobretudo, a questões de mestiçagem e da identidade do Brasil. Isso tudo em contraste com informações e músicas da Europa. Diria que o tema da suite é o piano brasileiro, um instrumento europeu tocando uma música mestiça», sublinha Mehmari, no programa da festa.

«Arqueologia de um autor», no dia 27, vai pôr os professores de literatura Beatriz Resende, Edimilson de Almeida Pereira e Felipe Botelho Corrêa a definir «o lugar de Lima Barreto entre os clássicos e no cânone afro-brasileiro».

No dia 28, também a mesa «Moderno Antes dos Modernistas» vai ser dedicada à discussão da «singularidade da linguagem de Lima Barreto» e dos «autores que foram seus contemporâneos e autores posteriores que influenciou», com a participação do professor e historiador de literatura Antonio Arnoni Prado e da escritora brasileira Luciana Hidalgo.

A FLIP conta ainda com a Casa Amado e Saramago, uma parceria da Fundação José Saramago com a Fundação Jorge Amado, com programação à parte.

A curadoria desta edição está a cargo de Joselia Aguiar, jornalista da Folha de São Paulo e do Valor Económico que disse, em comunicado aquando o anúncio do nome, ter por objetivo «levar à festa literária a diversidade de autores, géneros e temáticas que melhor representam a literatura contemporânea mundial e as questões do Brasil e do mundo de hoje».

Publicado en DN
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