Autor de clásicos

Livro analisa a música de Ronaldo Bastos, autor de clássicos da MPB

Ronaldo Bastos é, sem dúvida, um dos maiores compositores da música brasileira que representa a força da letra na canção, sem rebuscamento, mas de beleza e sensibilidade metafórica inigualável.

Música boa desperta sensações a partir de versos criativos e expressivos (em contraponto às banalidades). O compositor niteroiense é brilhante nesse tópico.

O crítico musical Marcos Lacerda analisa, canção por canção, os versos de Ronaldo Bastos no livro recém-lançado Hotel Universo: A poética de Ronaldo Bastos (Azougue Editorial), agrupadas em cinco capítulos: “A política e a poética da canção”, “A claridade do Belo”, “O sentimento do mundo”, “A eternidade e o efêmero” e o “O mistério da canção”.

A obra conta ainda com um ensaio sobre o álbum Liebe Paradiso (2011), que segundo Lacerda sintetiza o trabalho de Ronaldo Bastos com o seu parceiro mais frequente, o instrumentista, arranjador e produtor Celso Fonseca.

O livro é oportunidade de conhecer o conjunto de formas e elementos de clássicos escritos por Ronaldo Bastos, profícuo autor principalmente com o pessoal do movimento Clube da Esquina. A experiência do pesquisador na linguagem da música ajuda a desvendar os caminhos do compositor para expressar sua obra.

“Sou compositor popular e não um poeta. Admiro os poetas”, diz Ronaldo Bastos. “Continuo compondo, mais do que nunca, com novos e antigos parceiros”.

O livro começou a ser escrito há dois anos e tanto o autor como o compositor se encontraram várias vezes para desenvolver o projeto.

“Ele é um dos nomes centrais da história da MPB, mas as pessoas têm dificuldade de reconhecer a organicidade de sua obra por que ele compôs com muita gente e pelo fato de ser um letrista. Suas canções, no entanto, fazem parte do nosso imaginário”, justifica Marcos Lacerda sobre a produção da obra.

Fé Cega, Faca Amolada

Na análise crítica, Nada Será Como Antes (Ronaldo Bastos e Milton Nascimento) é o porvir; Fé Cega, Faca Amolada (também com Milton), não há o que esperar; Canção do Novo Mundo (com Beto Guedes), o irreversível trem da história.

As três composições refletem o momento político conturbado da época que foram produzidas (anos 1970 e 80).

Marcos Lacerda segue com as variações poéticas de Ronaldo Bastos: Cais (com Milton), obra-prima para se lançar ao mar numa viagem.

Outra clássica, que fala do mar, dessa vez usado com sentido figurado para o encontro: “Foi assim como ver o mar / A primeira vez que meus olhos se viram no seu olhar” (composição com Flavio Venturini).

Lumiar e Amor de Índio

O crítico caminha pela obra de Ronaldo Bastos com reunindo a simplicidade, a natureza, o amor e o sentido do movimento expressadas nas músicas Lumiar, Amor de Índio (“Tudo que move é sagrado…”) e O Sal da Terra (todas três com Beto Guedes).

Em Samba do Soho (com Paulo Jobim e registrada por Tom Jobim), a ligação mais clara de Bastos com a Bossa Nova; em Um Certo Alguém (com Lulu Santos), com o pop.

Em O Trem Azul (com Lô Borges), a estrutura dos versos e o jogo de palavras. Outra obra-prima eternizada por Elis Regina:

Coisas que a gente se esquece de dizer
Frases que o vento vem às vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar

Você pega o trem azul
O sol na cabeça
O sol pega o trem azul
Você na cabeça
O sol na cabeça

“O sujeito que se despersonaliza radicalmente e se transforma em rio, mar, campo, mato, cidade, nuvem; o sujeito que se volta para si e se transforma em reflexão pura, com indagações profundas sobre o sentido das coisas; e o sujeito que se volta para um outro, cuja presença repentina causa uma alegria melancólica, de traço baudelairiano”.

Essas três formas, de acordo com Marcos Lacerda no ensaio, sintetizam em grande parte as composições de Ronaldo Bastos, esse eternizador de canções.

A obra Hotel Universo (que é nome de uma composição de Bastos com Nelson Angelo) esmiúça as músicas de um compositor raro hoje na música brasileira.

Carta Capital

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