Era uma atriz até que tranquila, mas não suportava longas horas de filmagem e fazia a equipe se dobrar para atender aos seus caprichos: tinha de chegar antes de todos no set e ser transportada de carroça. Numa feira de animais no Recife, seus olhinhos profundos encantaram o diretor.

Cerveja é a vaca malhada, atolada em vazio existencial, que protagoniza “Animal Político”, primeiro longa de Tião, apelido que virou nome artístico do diretor pernambucano Bruno Bezerra, 32. O filme estreou na 19ª edição da Mostra de Tiradentes, meca do cinema autoral brasileiro e que terminou no sábado (30).

“Sou uma pessoa simples, não preciso de luxo”, narra o bovino que trota pelo shopping, corre na esteira, vai à balada. Numa sequência rodada em VHS, relembra a infância em parques de diversão e festas de criança. Até que, num Natal, em meio a canapés e presentes, sentiu que “algo estava errado, um sentimento de vazio inexplicável”. Eis que a vaquinha malhada decide vagar sozinha para ruminar alguma iluminação e topa com um robô no deserto que cita Buda.

“Coloquei essa vaca para que as pessoas olhassem as banalidade das nossas situações com algum distanciamento”, explica Tião à Folha. “Imaginei a vaca fazendo coisas do cotidiano e embarquei nessa, foi meio viciante”, diz.

“Animal Político” foi rodado entre 2010 e 2013, em brechas nas agendas dos amigos, com um orçamento de cerca de R$ 400 mil, segundo Tião. Ele, que começou a fazer curtas ainda durante a faculdade de jornalismo, despertou para o cinema em boa parte graças a filmes de David Lynch, David Fincher, Spike Jonze e Charlie Kaufman.

Feito ainda na faculdade, o curta experimental “Muro” (2008) rendeu a ele seu primeiro prêmio na Quinzena dos Realizadores, seção paralela à mostra competitiva de Cannes, façanha repetida em 2014 com “Sem Coração”, sobre uma garota com marca­passo que é alvo de chacota.

O feito fez Tião despontar na prolífica cena do cinema pernambucano, marcada por produções autorais. “O fato de lá não termos essa ilusão de que nossos filmes serão de massa faz com que a gente não tente emular a indústria.” Com “Animal Político”, o diretor embarca nesta semana para o Festival de Roterdã, onde o longa é descrito como “comédia bovina que resulta num horror humano”.

Atriz principal, a vaca Cerveja, claro, não vai junto. Hoje mora na fazenda do pai de uma das produtoras do filme.

Publicado en Folha de S. Paulo