A mulher só conquistou o direito de voto no Brasil há 85 anos, mas ainda há muitos lugares e redutos onde ela luta para afirmar vontade, presença e talento. A música instrumental é uma delas.

música sertaneja era outro campo de predomínio masculino, mas essas histórias começam a mudar – assim como a visão da Justiça, que condenou em segunda instância o deputado Jair Bolsonaro pela agressão machista que desferiu contra a colega Maria do Rosário, em 2014 (a indenização fixada é ridícula, mas a confirmação da sentença é simbólica).

Há poucos meses, surgiu em São Paulo a primeira big band feminina de jazz profissional do País, com 17 garotas. Seu nome, Jazzmin’s, é um grande achado. Remete a jasmim, uma das flores mais perfumadas da natureza, mas também a “jazz means”, que em inglês quer dizer “jazz significa”. Todo o agrupamento briga para mudar questões de significados.

“Há grupos de mulheres, mas de big bands eu não tenho notícia. Aqui no Brasil tenho a impressão de que somos pioneiras nesse tipo de formação”, diz a bandleader do grupo, a saxofonista e flautista Paula Valente, doutora pela USP com tese sobre o chorinho (e também integrante da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo e professora da Escola de Música Tom Jobim). “Não foi fácil montar a banda. Não tem tanta gente”, ela conta.

A Jazzmin’s reúne mulheres instrumentistas que são lendas da música brasileira, como a baterista Lilian Carmona, primeira mulher baterista profissional do Brasil, em cujo currículo constam participações em discos e shows de Gal Costa, César Camargo Mariano, Baden Powell, Toquinho, Michel Legrand, George Shearing e Leny Andrade, entre outros.

Lilian tocou com a Royal Philharmonic de Londres e em musicais da Broadway, e atualmente prepara seu primeiro disco-solo, The First!, pelo selo Sesc.

Praticamente todas as instrumentistas da big band têm formação acadêmica sólida, com experiências diversificadas. A guitarrista Renata Montanari tocou com Oswaldinho do Acordeon e Rita Lee. A clarinetista Paula Pires tem mestrado na Alemanha e estudou Stockhausen.

A contrabaixista e arranjadora Gê Cortes tocou na banda Altas Horas, do programa de Serginho Groisman. A trombonista norte-americana Cindy Borgani vem das universidades Yale e de Stanford e do Berklee College of Music.

Ao estrear para um grande público, no festival Jazz na Fábrica, em 13 de agosto, a Jazzmin’s tinha uma plateia majoritariamente feminina, e o discurso da pianista Lis de Carvalho não deixava dúvidas sobre a postura política do grupo.

Segundo o pronunciamento, o objetivo da big band é “proporcionar a oportunidade de transformação do olhar sobre o talento musical da mulher com a veiculação de um trabalho de qualidade artística e cultural em direção à mudança da desproporção entre homens e mulheres nesse mercado, a abertura de um espaço profissional e criativo para a mulher musicista com a realização de um trabalho inédito no sentido musical e antropológico, o despertar do interesse para a questão de gênero na música”.

Há ao menos uma dúzia de big bands em São Paulo, mas são de composição majoritariamente masculina. A Jazzmin’s, diz Paula Valente, também quer dar um recado ao mercado: “Opa! Tem um monte de mulher tocando aí!”, ela brinca.

O grupo mostrou em sua prova de fogo para um grande público que, além de qualidade instrumental, é uma banda de coragem e personalidade. “O homem sério que contava dinheiro parou, o faroleiro que contava vantagem parou”, como diz a canção do Chico.

Refutaram os standards e rechearam a apresentação com peças de compositores novos, como Rodrigo Morte (Quando Eu Te Vejo) e Luca Raele (Fantasia sobre Tema de Milton). Emparelharam a tradição com novas soluções, como em Você Vai Gostar (Casinha Branca), de Elpídio dos Santos, com arranjo de Yuri Prado, do grupo Ôctôctô.

Elas também apresentaram os primeiros temas próprios, como 7 a 1, sobre a fatídica partida da Copa do Mundo de 2014, na qual a Alemanha goleou a Seleção Brasileira em casa, um trauma pouco explorado pelo mundo da arte. A composição da baixista do grupo, Gê Cortes, tem uma levada de otimismo, de volta por cima, de negação do niilismo e da autodepreciação.

No meio do seu show de estreia, a organização pediu para a pianista Lis ler um anúncio: “Gente, tem uma criança perdida! A mãe é Daniele. Daniele, a sua criança está com a gente”.  Naquele contexto, foi algo que carregava grande significado: às mulheres, seja no trabalho, seja no lazer, sempre se impõe o cumprimento de papéis múltiplos.

E pode ser justamente essa a explicação para a presença mais rarefeita da mulher no mundo da música instrumental, pondera Paula Valente.

Em algumas escolas de música, diz, o número de mulheres que iniciam o estudo de música instrumental é quase parelho com o de homens. Mas elas desistem ao longo do curso.

“Creio que há diversos motivos. A pressão social, a maternidade, a questão do preconceito que envolve a música popular. Ainda há muito daquela mentalidade do século XIX, de que é coisa de ‘gente que não trabalha’, que vai tocar na noite, portanto é coisa de boêmio”, ela analisa, comparando a música popular com a música clássica, na qual é bem mais frequente a presença feminina (por ser ambientada em teatros).

Publicado en Carta Capital