“A literatura é como a vingança: deve ser produzida a frio”

Por Clarissa Wolff

“Todo o sistema editorial brasileiro está no meio de um furacão de transformações. Enquanto isso, a literatura de ficção tornou-se quase um nicho de mercado”, diz Cristovão Tezza, em entrevista à CartaCapital. Estamos conversando sobre seu novo livro, “A tirania do amor”, que traz o Brasil da Lava-Jato como pano de fundo.

Logo na primeira página, o racional Otávio decide abdicar do sexo ao descobrir que sua mulher está envolvida com outro homem. A partir daí, acompanhamos um dia na vida do economista, em que telefonemas com o filho esquerdista e almoços com a filha amada se misturam ao veloz fluxo de pensamentos que nos leva a lembranças, associações e cálculos matemáticos – e a filosofias de vida baratas em um curioso livro de autoajuda.

 

A literatura tem função social?

A literatura é inseparável da sociedade em que vive. Nossa linguagem cotidiana é inteiramente social, o mesmo acontece com a literatura. Nesse sentido, a literatura age em alguma medida sobre a sociedade, ou pelo menos entre seus leitores. Mas é um processo aleatório, difícil de medir ou definir, na medida em que é uma manifestação espontânea e subjetiva do escritor, um espaço livre e sem pauta prévia.

A arte pode discutir política? Ela é capaz de gerar mudanças?

A arte faz o que quer – esse é o espírito básico do impulso artístico. Quanto à literatura, o meu terreno, ela é uma linguagem que usa todas as linguagens sociais – jornalismo, política, filosofia, religião, sociedade, ciência, fé, etc. – sem se confundir com nenhuma delas. A ficção representa visões de mundo através de personagens, sob o filtro do narrador. Assim, a política também é um tema literário. Hoje, é raro que uma obra literária gere mudanças pontuais no mundo, até porque a literatura perdeu o “horário nobre” que já teve em outros tempos, como no século 19. Mas, em escala menor, ela certamente modifica seus leitores mais sensíveis.

Eu li que “A tirania do amor” surgiu da vontade de escrever sobre um autor de autoajuda e isso me fez querer saber mais: por que autoajuda? E mais ainda: por que um autor de autoajuda que despreza autoajuda?

Para mim, são um tanto insondáveis os motivos que me levam a escrever um romance. No caso, um dos motes seria um personagem que escreve um livro chamado “A matemática da vida” como uma aposta que havia feito com a mulher, do tipo “eu também sou capaz de escrever um best-seller de autoajuda”, uma brincadeira. Meus romances nascem de fragmentos de imagens, ideiais avulsas, breves inspirações. Assim que começo a escrever, as ideias vagas iniciais vão ganhando corpo, presença, espaço, tempo, linguagem, e os personagens crescem. A ideia não era satirizar a autoajuda, mas mostrar a aposta com a mulher e ao mesmo tempo o conflito entre a “matemática da vida”, inteira racionalizada, e a vida emocional real que destroça o personagem central. Que, aliás, chamado Otávio Espinhosa, era um leitor da célebre “Ética”, do filósofo Baruch Spinoza, uma das obras fundamentais do racionalismo moderno.

O mote do livro é o casamento se despedaçando, mas não leio o livro como um fim de relacionamento. Para mim, é um livro sobre uma série de desilusões – o casamento, o filho pródigo, a empresa quebrando. Acho que isso conversa bastante com o cenário de desesperança que andamos vivendo no campo político. Queria entender se você vê desse jeito também, se foi planejado, e como esse clima de decepção invadiu a narrativa.

Quando eu escolhi a profissão do personagem, a partir de sua vocação genial para a matemática – ele é um economista -, imediatamente o Brasil de hoje entrou em cena de uma forma acachapante. É uma atmosfera política, social e econômica asfixiante, de que ele não consegue escapar, embora a sua cabeça esteja o tempo focada estritamente nos seus problemas pessoais e familiares. Mas eu não acho que seja um livro inteiro desesperançado. A cena final, com Débora, abre a ele uma porta de sobrevivência emocional. Pelo menos eu sinto assim. Mas um livro de ficção sempre diz mais do que o autor quis dizer.

O protagonista é um “Mozart” que se torna ordinário na vida adulta. Esse sentimento de ex-prodígio é uma coisa que me atrai muito. Primeiro porque se fala o tempo todo de Millennials (minha geração) que crescem acreditando que são especiais pra ver que não o são, depois porque acho que essa promessa de genialidade nem sempre se cumpre. Isso foi um processo consciente na sua escrita? Como você vê essa questão?

O fracasso da precocidade é um tema fascinante. Para cada Mozart real, há mil outros que ficam pelo caminho. Tem um toque de compensação pessoal (quem sabe vingança, diria um psicanalista…) na criação deste personagem. Sempre fui péssimo em matemática. E jamais fui precoce em nada – a ficha sempre demora a cair na minha cabeça. Só depois dos 30 anos comecei a escrever coisas que ficavam mais ou menos em pé. De qualquer forma, esta fratura entre o sonho prometido pelo talento inato e a dura realidade subsequente é um motivo literário muito rico.

Você acha mais difícil escrever em conexão com a atualidade, sem o distanciamento que supostamente permitiria uma análise imparcial? Ou isso não faz diferença?

Faz diferença. A distância é fundamental. Exemplo: tive um filho com síndrome de Down em 1980 e só pensei em escrever sobre este tema mais de 20 anos depois. Sem esta distância, jamais teria escrito “O filho eterno”. Se tivesse tentado escrever a quente, seria um fracasso total, um confessionário furioso ou sentimental – e má literatura.  A literatura é como a vingança: deve ser produzida a frio.

Mas no caso de romances como “O professor”, “A tradutora”, ou, mais ainda, “A tirania do amor”, a atualidade política não é o tema; é apenas o pano de fundo. É uma diferença notável. O personagem não é, digamos, um deputado ou um professor dando opiniões diretas sobre o governo Temer ou o momento político (Aliás, o nome do Temer nem aparece). Eu criei uma “hipótese de existência” – Otávio Espinhosa -, num dia de crise pessoal e profissional. O resto é atmosfera, ambiente, circunstâncias.

Sei que é muito mais difícil lidar com o instante imediato. Por isso, não localizei um dia específico e nem fatos concretos. No “dia” do romance, há referências a fatos de diferentes momentos de 2017. E, detalhe importante, a linguagem do livro trabalha com uma fusão de tempo e espaço que me livra de um realismo mais puramente documental. Mas é um risco que me atrai: tratar o instante presente com uma perspectiva psicologicamente mais aberta.

O protagonista, extremamente racional, decide abandonar o sexo depois de uma decepção amorosa. Existe aqui um embate entre o instintivo e emocional versus o racional e pragmático? Você vê o sexo como inimigo da razão?

Digamos, poeticamente, que o sexo é um instante de transfiguração irracional da vida. Se é inimigo da razão, isso depende da cabeça do usuário. De um modo ou outro, temos de lidar com ele, com sua perigosa autonomia. No caso do livro, Espinhosa decide “abdicar” do sexo como uma reação quase instintiva ante a humilhação que sente pela traição da mulher. Ele tenta enquadrar o fracasso, tratando-o com uma frieza racional. Não é fácil.

O mergulho dentro do psicológico do personagem é poderosíssimo. Como foi construir essa voz narrativa com esse tipo de conexão entre temas, passado/presente/futuro, ideias, enfim?

Digo sinceramente: não sei. A essa altura, a minha linguagem já vai se fazendo meio que por instinto. De um momento em diante,  talvez depois de “O fotógrafo” (2004), esse aspecto de construção intimista da cabeça do personagem e a criação de um narrador que o acompanha de perto sem se identificar completamente com ele foi constituindo meu estilo, meu modo de fazer literatura.

Com “O filho eterno” essa rede de conexões se ampliou. Com “Um erro emocional”, acho que fui um passo adiante. Nos seguintes, “O professor” (que eu considero, ao lado do “Tirania”, o meu livro mais bem realizado tecnicamente) e “A tradutora”, esse estilo já se tornou perfeitamente natural para mim.

E, enfim, o amor é sempre tirania?

Desconfio que sim.

Publicado en CartaCapital