La comedia musical latinoamericana recupera a autores populares

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He visto la luz muy cerca del sol de los incas. Soy hermana de los cóndores. Nací tan alto que solía lavarme la cara con las estrellas”. Son las palabras que retratan el origen peruanísimo de Chabuca Granda, recitadas por la luminosa Denisse Dibós, con la voz casi quebrada, frente a un Teatro Municipal repleto.

Enseguida suena la música e irrumpe el tenor Juan Antonio de Dompablo y el público vibra canción tras canción hasta alcanzar el clímax con “José Antonio”. Así es “Déjame nque te cuente”, el musical de la Asociación Cultural Preludio que se presenta desde el 20 de mayo en una corta temporada de siete semanas en el tradicional recinto limeño.

La obra es un prisma musical que nos muestra las diversas facetas de la cantante y compositora peruana. Está la Chabuca cultora de la belleza de Lima, con sus balcones y predios tradicionales; está la Chabuca que mira a los peruanos desde una perspectiva crítica; está la Chabuca que lloró a Javier Heraud; y está la artista que componía en castellano, francés e inglés. Todo narrado a través de sus canciones. No faltan, desde luego, clásicos como “La flor de la canela”, “Gallo camarón” o “Bello durmiente”. El tributo es exactamente como ella hubiera querido, a decir de su hija Teresa Fuller, quien asesoró al director y guionista Mateo Chiarella.

“La puesta está impecable. Me impresiona lo que ambos (Denisse y Mateo) han logrado. A Chabuca le hubiera encantado que dos jóvenes revaloren su música”, comenta.

Javier Luna, eximio ‘chabuquista’, coincide. “Chabuca tenía ‘ojo de ver’, al igual que ellos dos. Ella quería rescatar las tradiciones de Lima”. La obra tiene su historia. Todo empezó –dice Denisse Dibós– hace un año, cuando decidió incluir tres piezas musicales de Chabuca en “El musical 2015”, otra de sus hazañas teatrales con Chiarella.

“Metimos ‘Toro mata’, ‘Surco’ y ‘Cardo y Ceniza’ en el acto final de la obra. El público aplaudió con lágrimas en los ojos y esa fue la confirmación de lo que veníamos proyectando”, acota. Fue entonces que ella y Mateo decidieron sumergirse en el mundo musical de Chabuca Granda.

Buscaron a su hija, Teresa Fuller, quien puso a su disposición todos los documentos que guardaba de su madre, entre ellos viejas cartas, partituras y fotografías. A través de ella, llegaron a Javier Luna, amigo y estudioso de la vida de Chabuca. Fueron horas de plática y de investigación entre los cuatro en las que el guion se fue escribiendo poco a poco.

“Chabuca Granda no era una mujer bohemia, como se suele decir. Era una juglaresa que cantaba lo que veía. Ella quería rescatar Lima, proteger sus balcones. De ahí el ‘Oiga usté, zeñó Manué’, dedicado al periodista Manuel Solari Swayne como un llamado a la defensa de Lima a través del periodismo y la cultura”, apunta Luna.

El experto lamenta que hasta ahora no tengamos un libro sobre la vida y filosofía de Chabuca Granda. “Es que nadie amó al Perú como ella. Todos tenemos que conocerla porque en su letra está Lima”, afirma.

¿Cómo se arma un musical de esta envergadura? Responde Mateo Chiarella: “Primero hay que diseñar el libreto y la música. Yo me sumergí en archivos de la época, en los documentos que nos dio Teresa, en los testimonios de Javier Luna. Luego hay que hacer el montaje, que implica tres cosas: la actuación, la coreografía y el arreglo musical, vocal y de la orquestación. El resto de cosas, como el vestuario, la utilería y la logística, lo ve la dirección”.

El director aclara que no se trata de un musical tradicional, ya que la obra fusiona la majestuosidad de Broadway con la elegancia del criollismo. “Es interesante ver cómo el público se contagia de peruanidad”, afirma Denisse Dibós, actriz y directora de Preludio, quien lleva 18 años haciendo musicales en el Perú.

“Sería bueno que el Estado sea más claro en su compromiso de difundir la vida y obra de Chabuca, ya que no tenemos en Lima un sitio emblemático donde acudir cuando queremos saber de ella, como sí ocurre con los artistas de otros países”, remata Chiarella. Según Dibós, el próximo paso es llevar el espectáculo a otros países, donde existe un vivo interés por verlo.

“Hay propuestas de México y Argentina, donde Chabuca fue muy conocida. Sería una pena que algún peruano se quede sin verlo aquí en Lima”, puntualiza.

“Déjame que te cuente” va hasta el 26 de junio. El montaje cuenta con invitados especiales cada semana. Ya desfilaron en escena Eva Ayllón, Ezequiel, Flaca Elejalde, Julie Freundt y Cecilia Bracamonte. Aún esperan Roxana Valdivieso, Jean Paul Strauss, entre otros.

El broche de oro estará a cargo de la cantante y compositora Susana Baca. Ella interpretará algunas canciones de Chabuca Granda en la función de cierre de temporada. Jamás un musical dejó tanto aroma de mistura.

Publicado en El Comercio

 

Radicada em Manaus, Daniela Blois viverá a Gabriela de Jorge Amado em musical

Aqui no Amazonas, ela já cantava e encantava. Sua vertente de médica recém-formada desejava fazer com que a arte e a medicina “casassem”. Agora, a atriz e cantora paraense Daniela Blois, radicada em Manaus, dará voz e pele à icônica personagem Gabriela, do romance homônimo de Jorge Amado. A bela morena será vivida pela paraense na obra “Gabriela – Um Musical”, que estreia hoje (9) no Teatro Cetip, do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Blois foi selecionada entre 700 moças do Brasil inteiro para viver a personagem.

Em meados de janeiro, quando foi anunciada para o papel, Daniela – que é formada em Medicina pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) – pouco sabia sobre o espetáculo. A moça, considerada pelo júri que a escolheu “vazia de técnicas, mas cheia de emoção”, caiu no gosto dos avaliadores por ter um jeito bastante similar ao da Gabriela do Agreste. Daniela, por sua vez, se mudou para São Paulo, onde tem ensaiado desde fevereiro para o musical.

“Ultimamente os ensaios têm sido mais intensos, já que estamos próximos da estreia. Foram oferecidas aulas de preparação vocal e corporal para o elenco durante três meses. Tem sido muito proveitoso. Estou aprendendo bastante sobre como usar minha voz e sobre como funciona a atuação em teatro”, conta ela, conhecida no cenário musical manauara por cantar em bares como Armando e o Caldeira – cujo talento é autodidata.

O musical, inspirado no livro “Gabriela, Cravo e Canela”, do escritor Jorge Amado, está bastante fiel ao livro, conforme Daniela coloca. “A história foi adaptada ao teatro, ou seja, temos que contar a história de um livro inteiro em algumas horas, com um elenco e espaço limitados. O João Falcão [diretor do musical] conseguiu fazer isso muito bem. A peça é uma adaptação ao teatro da ótica do João sobre o romance”, pondera Blois.

A cenografia do musical, segundo Daniela, conta com recursos de luz, esteiras, alguns objetos e atores simulando cenários. “Janela, varais, plantas são atores, um recurso que amplia bastante as possibilidades cênicas. A sonoplastia foi realizada em conjunto com o produtor musical Tó Brandileone, banda, João e o elenco. Além das músicas, temos recursos sonoros que ampliam movimentos e as intenções da cena, passando pelo cômico, mágico, trágico”, descreve a atriz.

O figurino dos atores no musical será baseado nas roupas de época (1925). “Algumas roupas são mais sóbrias, outras mais coloridas e cheias de adereços. Depende muito da personagem e do núcleo a que ela pertence. O figurino da Gabriela vai desde uma roupa mais simples de retirante, passando pelos vestidinhos rodados e leves, até a fase da Gabriela casada (senhora Saad), com vestido de noiva pomposo e roupa de senhora da sociedade”, assegura Blois.

Musicando

A banda vai acompanhar os atores no decorrer da peça, e os atores também tocam em cena. Daniela lembra que, à época de sua escolha, não tinha uma Gabriela fixa na cabeça. “Ainda não tenho. Com certeza no final da temporada ela será outra, sempre em construção. Cheguei em São Paulo sem muitas expectativas, mas muito empolgada e curiosa. Estou vivendo um momento maravilhoso”, confessa.

A atriz e cantora diz que há um clima de cooperação e ajuda mútua muito grande no elenco. “O João tem muito claro na cabeça dele o que ele quer da cena e do personagem, e sabe passar bem isso pra gente. Mas não hesita em mudar quando o ator traz novas possibilidades. É um processo colaborativo”, explica.

O musical ficará em cartaz até agosto. “Depois iremos, provavelmente, para o Rio de Janeiro. A circulação em outras cidades depende do sucesso da peça e de conseguirmos apoio. É possível sim que vá para Manaus. Eu ficaria muito feliz e emocionada se fosse”.

Daniela Blois

Participou do clipe da banda Dona Celeste para a música “Convite”. “Também participei do curta ‘Um braço de rio no quintal’, da Dheik Praia, em 2013”, lembra a atriz. O trabalho lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Amazonas Film Festival.

Publicado en Acritica

 

Diretor deixa novela de lado e retoma romance para levar ‘Gabriela’ ao teatro

Gabriela talvez seja o personagem da literatura brasileira mais familiar a todo mundo. Culpa de Sonia Braga, que deu vida, em novela e filme, à bela cozinheira criada por Jorge Amado. Daí cresce o desafio de João Falcão, diretor de «Gabriela, um Musical», que estreia nesta quinta (9) em São Paulo, e da protagonista, a estreante Daniela Blois.

«Eu quase chamei o musical de ‘Gabriela de Jorge Amado’, por ter voltado ao romance. E, quando você retoma o livro, percebe como ele é rico.»

É o livro de Jorge Amado do qual Falcão mais gosta. «É muita história boa, muito personagem bom. É meio o ‘Amarcord’ do Jorge Amado’, diz, referindo­se ao filme que Federico Fellini dirigiu em 1973, sobre a vida de uma pequena cidade costeira nos anos 1930.

Falcão lembra que Amado era uma criança em Itabuna, em 1925, e o livro vem das recordações do menino. «A história política opõe os coronéis, donos de terras conquistadas a tiro, representados na figura de Ramiro Bastos, ao novo, que surge nas ascensão de Mundinho Falcão, que chega a Ilhéus para viver ali e se envolve na política.» Pela primeira vez, os coronéis começam a ter derrotas e as pessoas passam a questioná­los.

«Gabriela entra quase na metade do livro», segue Falcão. «Além da trama política, tem a história das outras mulheres, tem a Glória, sustentada pelo amante, que fica na janela. Tem a Malvina, menina rica criada para se casar, mas que se rebela contra isso e se transforma num certo tipo de feminista. Tem a Sinhazinha, mulher assassinada pelo marido, por ter saído dos padrões. Tudo transcorre em um ano de transformações políticas e sociais. É preciso contá­las, e fazer isso com música.»

Para ajudá­lo, entre 700 candidatas Falcão escolheu Daniela Blois (pronuncia­se «bloá»). Paraense de Porto Trombetas, cidade de 7.000 habitantes, foi estudar medicina em Manaus. Cantava com amigos e não tinha experiência como atriz, exceto a participação no curta de uma amiga. Agora, inevitavelmente será comparada a Sonia Braga.

«É normal que se compare, Sonia marcou muito na novela, a coisa sensual. Mas não busquei por ela como referência. Peguei o livro e li», diz a agora atriz. Ela tem 26 anos, mas parece mais nova. No palco, canta de maneira fácil, intuitiva. «Só fui ter aulas agora, depois «Eu me formei no dia 4 de dezembro, e no dia 10 me ligaram para avisar que estava selecionada para ‘Gabriela’. Minha vida mudou completamente. Quando chegou a noite do baile de formatura, eu já era Gabriela. Fui a atração do baile, os professores queriam tirar foto comigo.»

A equipe do musical ganhou de tabela uma médica para emergências. «Preciso fazer meu carimbo para assinar receitas. Já atendi colegas do elenco com amigdalite e dores musculares.»

EXPERIMENTAÇÃO

Nos ensaios de «Gabriela, um Musical» foi possível ver três características básicas da montagem concebida por João Falcão, encenador consagrado por trabalhos como «A Máquina», «A Dona da História» e «Gonzagão, a Lenda».

Estão lá uma cenografia nada naturalista –algo que reforça o distanciamento das versões anteriores da história para TV e cinema–, a garra de um elenco jovem e pouco conhecido –marca do diretor, que revelou entre outros Wagner Moura e Lázaro Ramos– e uma trilha sonora garimpada no melhor da MPB, de Caymmi a Marisa Monte.

Mas talvez a grande força de «Gabriela» pulse fora das duas horas e meia de espetáculo. Aparece antes do pano abrir, durante semanas, nos métodos singulares de Falcão ao conceber suas peças.

Na conversa com o diretor, fica evidente sua vontade de trabalhar com atores abertos à experimentação, à mudança constante de texto, de rumo da história e até do personagem que será interpretado.

Os atores foram se revezando em personagens diferentes durante a preparação. «Eu gosto de ver o que cada ator pode oferecer para cada papel», explica Falcão. Seus atores encaram imersão total, e talvez essa exigência justifique por que o diretor não trabalhe muito com artistas muito requisitados, com compromissos na TV ou no cinema.

Daniela Blois fala sobre os ensaios: «Só eu tinha personagem definida. A gente começou sem saber quem faria qual papel, menos eu. Mas em um dia rolou até de outras meninas fazerem Gabriela, para que eu pudesse ver como elas entravam no personagem e pudesse descobrir outras formas de entendê­la».

Com Falcão o processo nunca acaba. Essa frase, ouvida de mais de um ator, resume o que o produtor inglês Kevin Wallace quer levar para o teatro de outros mercados.

Parceiro do mítico autor inglês Andrew Lloyd Webber e produtor, entre outros, da montagem no palco de «O Senhor dos Anéis», Wallace conheceu Falcão há anos.

Dono dessa ideia de montar um musical aqui para «exportação», ele acompanhou a preparação da peça no Brasil ao lado da produtora brasileira Almali Zraik. Wallace é fascinado pelos métodos de Falcão, e é essa experiência de concepção que quer levar para o exterior.

Para embalar «Gabriela», Falcão escolheu cerca de 30 músicas brasileiras, abrindo uma lista de notáveis da MPB. A trilha, coordenada pelo músico Tô Brandileone, do grupo 5 a Seco, tem Milton Nascimento, Martinho da Vila, Tom Jobim, Caetano Veloso e outros, de Lulu Santos a Marisa Monte. É dela «Vilarejo», que abre o musical com muito impacto.

Publicado en Folha de S.Paulo
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