Pitty: hacer rock en Brasil

No fim de março, a cantora e compositora Pitty se preparava, animada, para a turnê «Nivea viva rock Brasil», em que cantaria sucessos do gênero ao lado de Paralamas do Sucesso, Paula Toller e Nando Reis, quando teve que cancelar sua participação na véspera da estreia em Porto Alegre. O motivo: aos 38 anos, ela está grávida do primeiro filho, e a gestação demanda certos cuidados a mais pelo fato da baiana já ter perdido um bebê há oito anos.

— Foi meio por acaso, como essas coisas costumam ser. A gente se programa tanto, mas a natureza tem a hora dela, e a gente tem que respeitar. Eu estava super empolgada com o lance da Nivea, um projeto foda. Fiquei muito chateada no começo, mas depois resolvi usar minhas energias em outras coisas — conta Pitty em entrevista por telefone.

Entre as «coisas» estava o DVD «Turnê SETEVIDAS — Ao vivo», lançado nesta quarta-feira, Dia Mundial do Rock, cujo arquivo digital pode ser adquirido na íntegra no site da Pitty por R$ 24,90. O registro é dividido em duas partes: o show em si, gravado na Audio Club, em São Paulo, em julho de 2015, e um documentário sobre a turnê de «SETEVIDAS» (Deck, 2014), quarto álbum de estúdio da cantora e compositora — para quem preferir ter apenas o show, sem o doc, o preço é R$ 19,90.

— Quando eu filmei o show na Audio, ano passado, ainda não estava certo de que viraria DVD. Se estivesse incrível, eu lançaria. Se não, não. Mas, como rolou essa parada da licença, achei bom lançar porque eu teria algo para me concentrar artisticamente, criativamente — explica Pitty. — Essa turnê foi a melhor de todas, até agora. Ela foi mais bem trabalhada, mais bonita esteticamente, em termos de iluminação, projeções e tudo mais. Essa eu dirigi, de fato, pensando em cada detalhe. Os vídeos usados em cada música, a construção da luz, mudei o posicionamento da banda no palco. E teve melhora na questão sonora também. A entrada do Guilherme, o baixista, deu um puta fôlego para a banda. Ele é ótimo.

Além de todas as músicas presentes no registro do show, que tem cerca de 1h30min e traz desde os hits mais antigos de Pitty, como «Equalize», «Na sua estante» e «Admirável chip novo», aos recentes «Serpente» e «Setevidas», o documentário também tem novidades: nele, a baiana faz uma versão improvisada de «Romeo», composta por Thiago Pethit e Helio Flanders (Vanguart), artistas da nova geração admirados por Pitty, e um registro de «Dê um rolê», de seus ídolos Novos Baianos. Gravado em Americana, o cover agradou tanto a cantora que foi escolhido como primeiro single deste novo trabalho.

— Sempre amei essa música. Faz parte da minha vida desde pequena, e sempre achei o refrão muito poderoso. Mas nunca tinha pensado de fato em regravá-la. A gente só tocou «Dê um rolê» uma vez ao vivo, nesse retorno da turnê a Americana, e foi esse registro que virou o single. Quando fomos editar, senti que tinha algo especial nessa música. Uma tocada, um dia, e rendeu o single — conta.

O DVD é dividido em duas partes. O primeiro tem o show em si e o segundo traz um documentário com os bastidores da sua última turnê. Como a turnê de «SETEVIDAS» se diferenciou das demais?

Estou sempre tentando dar um passado adiante, e acho que, nessa turnê, cheguei num resultado além das outras. Ela foi mais bonita esteticamente, em termos de iluminação. Eu, de fato, a dirigi ponto por ponto, pensando em cada vídeo pra cada música, a construção de luz, mudei o posicionamento da banda no palco. Enfim, uma série de mudanças estéticas. E teve diferenças na questão sonora também. Passamos a ter mais um músico no palco e teve a entrada do Guilherme (Almeida, baixista) que já trouxe um puta fôlego pra banda. Ele é ótimo.

O próprio documentários traz duas músicas que não costumamos ver no seu repertório: «Romeo», do Pethit com o Helio Flanders, e «Dê um rolê», dos Novos Baianos. Curiosamente, nomes de gerações completamente diferentes. De onde veio a escolha dessas músicas como as novidades a serem apresentadas?

Elas têm histórias diferentes. «Romeo» foi, na verdade, um improviso. Não faz parte do repertório e nem sei se vou voltar a tocar. Foi um improviso como vários outros que acontecem na estrada. Eu tenho um roteiro do show, mas adapto a cada cidade. Como nesse dia eu esteva em Cuiabá, terra do Helinho, que fez a música com o Pethit, resolvi pegar o violão e tocar, sem ensaio nem nada. Mas eles são nomes que me agradam muito nessa nova geração, o Helinho, o Vanguart, o Pethit…

Com «Dê um rolê» foi outra coisa. Sempre amei essa música. Faz parte da minha vida desde pequena, e sempre achei o refrão muito poderoso. Mas nunca tinha pensado de fato em regravá-la. Fizemos uma versão para um programa de TV no ano passado, mas só tocamos «Dê um rolê» uma vez ao vivo, no retorno da turnê a Americana (o giro de «Setevidas» estreou na cidade paulista), e foi esse registro que virou o single. Quando fomos editar, senti que tinha algo especial nessa música. Uma tocada, um dia, e rendeu o single.

Conta um pouco mais sobre o processo de construção da identidade visual do show?

Queria fazer algo impactante desde o começo. Me incomoda muito começar uma nova turnê com tudo igual. Dá a sensação de que não andamos para frente. Minha primeira ideia era usar uma cortina de LED, muito usada pelos gringos. O Nine Inch Nails usa, por exemplo. Mas essa tecnologia não chegou ao Brasil ainda. Então, adaptamos para um telão de LED, que deu o mesmo efeito. Depois, fomos construindo a ideia de cada vídeo.

A questão é que tivemos que pensar ainda em nos adaptar para a realidade de fazer uma turnê de uma banda de rock no Brasil. Por mais que você tenha ideias, não pode ser megalomaníaco. Tinha que ser viável, ou refletiria no preço do ingresso. Ainda tem muito a pegada de do it yourself no rock brasileiro. Você tem que pensar em tudo. E chegamos a um resultado que unia as duas coisas: um formato possível para rodar pelo maior número de cidades possíveis, e que ainda trouxesse nossas ideias estéticas.

A questão da licença das turnês foi algo meio repentino ou você já tinha se planejado? Porque tinha a turnê da Nivea, que você acabou cancelando a participação pouco depois do anúncio…

Foi meio por acaso, como essas coisas costumam ser. A gente se programa tanto, mas a natureza tem a hora dela, e a gente tem que respeitar. Eu estava super empolgada com o lance da Nivea, um projeto foda. Fiquei muito chateada no começo, mas depois resolvi usar minhas energias em outras coisas. Foi daí que veio o DVD. Quando eu filmei o show na Audio, ano passado, ainda não estava certo de que viraria DVD. Se estivesse incrível, eu lançaria. Se não, não. Mas, como rolou essa parada da licença, achei bom lançar porque eu teria algo para me concentrar artisticamente, criativamente.

Em cima disso, é estranho estar lançando um trabalho novo e não poder fazer uma turnê de divulgação?

Eu acho que não faria, de qualquer maneira. A turnê de «SETEVIDAS» rodou bastante, foi a todo canto. Não acho que espremeria mais. Gosto que as coisas tenham seu tempo, de não gastar demais, de deixar um gostinho de «poxa, queria ter visto, mas perdi». Mesmo antes de engravidar e da licença, a gente já falava que a turnê não ia muito mais a frente. Já tava a fim de fazer outra coisa. Ao mesmo tempo, estava muito bom. Foi a melhor turnê para mim, principalmente pela relação com o público. A galera sabia cantar todas as músicas novas. Foi muito quente

Por falar em músicas novas, diferentemente de muitos artistas de rock que já estão na estrada há algum tempo, seus novos trabalhos trouxeram músicas que viraram hits, como «Setevidas» e «Serpente» — citando só o último disco. Qual é a fórmula?

Não tenho a menor ideia. Se eu soubesse, faria mais vezes (risos). Claro que faço todas as minhas músicas torcendo para que elas cheguem ao maior número de pessoas possível. Por mim, aconteceria o tempo todo. Mas a gente sabe que não é assim. Então, fico feliz com esses hits que temos.

O DVD sai no Dia Mundial do Rock e muito se fala de uma crise criativa e de popularidade no gênero no país. Como você vê essa cena hoje?

Eu estava vivendo um momento muito confortável porque fazia minha turnê do jeito que eu queria, para um público grande. A internet tornou a coisa mais segmentada, mas mais fortalecida. Os nichos falam com seus públicos sem precisar necessariamente da grande mídia. Uma coisa de qualidade versus quantidade. Mas acho que está rolando bem. Vejo muitas bandas saindo em turnê. O rock sempre vai ter seu público, mas hoje ele meio que voltou ao lugar de onde veio, uma coisa de contracultura, contestação, underground…

Uma curiosidade da sua carreira é que você segue em uma gravadora independente, que é a Deck, mas também está incluída no que chamamos de mainstream. Como você vê essa dicotomia de definições?

É muito louco, mas foi algo que eu sempre desejei. Desde o início da carreira, fui direcionando as coisas para serem construídas dessa forma. Eu vim da cena alternativa, do underground, e quero sempre dialogar com ela, mas também busco atingir o grande público. É uma linha tênue e complicada. Você tem que entender os dois lados. Eu cheguei na gravadora mostrando minhas fitas demo e falando do meu público do underground. E fui bem clara: queria continuar falando com eles, mas também toparia participar de um programa de TV se fosse para tocar do meu jeito e reverberar. Tem uma parte do documentário que mostra um pouco isso, quando eu toco no Mada (festival independente em Natal). Eu toco lá desde sempre, desde «Máscara», e faço questão de continuar tocando. Porque parte do meu público eu construí ali.

Em outra entrevista, conversei com a Cris Botarelli, da Far From Alaska, e ela disse que você é uma grande fonte de inspiração, por ser uma presença feminina forte nesse meio do rock essencialmente masculino. Você acompanha os novos artistas que têm surgido nessa cena? Como vê a renovação do rock nacional?

Eu super acompanho e me interesso. Inclusive, acho que essa renovação tem que acontecer o tempo inteiro, que temos que apoiar. Isso atrai as novas gerações em termos de público também. Além do mais, é um interesse genuíno meu. Minha cabeça é muito mais alinhada com o que a galera nova está fazendo do que com a turma das antigas, mais xiita. Acho que tem mais é que experimentar mesmo, ousar, trazer novos instrumentos, uma estética diferente. Essa coisa de ficar presa no passado me dá uma aflição.

O Far From Alaska é um exemplo incrível. Além de ser uma banda foda musicalmente falando, não se prende muito a gêneros e, acima de tudo, tem duas minas na banda, inclusive uma instrumentista (o FFA conta com a vocalista Emmily Barreto e com Cris Botarelli na voz/synths, além do guitarrista Rafael Brasil, do baixista Eduardo Filgueira e do baterista Lauro Kirsch). Se já é difícil vermos meninas nas bandas de rock, imagina mina instrumentista. Isso é muito massa. E eles ainda são nordestinos. Já toquei bateria numa banda de meninas e a descrença era enorme. Nos chamavam porque éramos bonitinhas, aí eu fazia questão de ir bem feia pros shows (risos).

Você ainda é uma das poucas representantes femininas no rock nacional, e sempre gosta de se posicionar quanto a isso nas redes sociais. Para você, mudou alguma coisa nesse cenário? É mais fácil ser uma mulher no rock hoje do que era quando você começou?

Especificamente, para mim, é mais fácil por uma questão de construção de estrada. Já tem um tempo que estou aí, passando minha mensagem, reforçando meu discurso, meu posicionamento. Talvez quem chegue agora ainda ache a mesma dificuldade que tive no começo, ou outras. Mas ainda existe as questões de ser mulher nesse meio, como tem em outras profissões. O que a gente faz é ir abrindo esse caminho a facão.

Publicado en OGlobo

 

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