Cartas de escritores

No dia 3 de novembro de 1947, o jornalista, crítico e escritor mineiro Otto Lara Resende estava inquieto. Acabara de ler o livro de contos “O ex-mágico”, obra de estreia do seu amigo e conterrâneo Murilo Rubião. Morando no Rio e impactado pelos textos, Lara Resende escreveu uma longa carta para o amigo que continuava em Belo Horizonte. Começava assim: “Recebi seu livro hoje. E hoje mesmo já o li todo. Acabo de fechá-lo nesse momento. Parei a manhã me deliciando com ele, enquanto a chuva cai lá fora, disposta a não parar mais. Minha intenção é escrever um artigo sobre seu livro. Se tivesse máquina aqui, faria agora mesmo esse artigo que estive coçando os dedos”, escreve o então jovem jornalista. Contudo, ele não precisou de máquina e, à mão, produziu um belo ensaio à queima-roupa sobre “O ex-mágico”.

Essa foi apenas a segunda carta trocada entre os dois escritores — a primeira foi um telegrama, de dois anos antes, em que Rubião parabeniza o amigo pela formatura na Faculdade de Direito de Minas Gerais. Toda essa correspondência, que permanecia inédita, vem a público em “Mares interiores: correspondência de Murilo Rubião e Otto Lara Resende” (Autêntica/Editora da UFMG), acompanhada de iconografia e notas, que sai neste fim de 2016, ainda no ano em que Rubião completaria 100 anos. As missivas, que vão de 1945 a 1991, permitem um mergulho na intimidade dos autores e acompanham as mudanças nas vidas de cada um. Os documentos estavam guardados nos arquivos pessoais dos escritores, o de Rubião na Universidade Federal de Minas Gerais, e o de Lara Resende no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro.

O organizador Cleber Araújo Cabral aponta que a segunda carta de Lara Resende para Rubião possui as características comuns à correspondência em geral. O jovem jornalista utiliza o espaço para exercer o ofício de crítico literário, atividade na qual se consagraria. Já Rubião não faz o mesmo com os textos do amigo. Nos primeiros anos, estão muito presentes confissões e desabafos de ambos.

— O tom das cartas é de uma conversa mais franca, menos protocolar, por exemplo, do que as missivas que o Rubião troca com o Mário de Andrade. Estas eram muito sérias. Com o Otto, são mais leves, mais irônicas, há um trabalho literário mais elaborado — explica Cabral.

O pesquisador conta que a amizade dos dois é anterior ao início da correspondência. Em 1939, Lara Resende começa a trabalhar no jornal “O Diário”, em Belo Horizonte. O diretor da publicação era João Etienne Filho, que fazia parte da revista “Tentativa”, da qual Rubião, redator na “Folha de Minas”, também participava. Foi através de Etienne Filho que Lara Resende conheceu seus futuros companheiros literários, como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino.

EM TRÊS TEMPOS

O pesquisador divide a correspondência em três momentos: o primeiro, de 1945 a 1952, quando as cartas abreviavam a distância entre Rio e Belo Horizonte. Depois, de 1957 a 1959, ligavam Madri, onde estava Rubião, a Bruxelas, onde estava Lara Resende, ambos trabalhando na diplomacia brasileira. O terceiro, em que as cartas vão rareando, começa em 1966 e vai até 1991, ano da morte de Rubião. Em cada período, as atividades que os escritores desempenham dão o tom das missivas.

— No primeiro momento, temos o Murilo antes e depois do sucesso estrondoso do primeiro livro. Otto não tinha publicado em livro ainda, era jornalista, escrevia crônicas em jornais. O segundo momento começa com o Murilo elogiando muito o livro de Otto, “Boca do Inferno”, uma rara oportunidade de vê-lo exercitando a crítica. Nos anos na Europa, eles trocam um conjunto significativo de cartas, mas são dois brasileiros longe do Brasil e que falam pouco do Brasil. Por último, eles mantêm uma correspondência episódica, mais seca e burocrática, em que o Otto é mais ativo.

A partir dos anos 1960, ambos estão envolvidos em outras atividades para além da literatura. Enquanto Lara Resende está engajado em empreendimentos jornalísticos, como a criação da TV Globo, Rubião vive seu momento “Murilo de Andrade”, como define Cabral. Muito próximo de Juscelino Kubitschek, o escritor fundou em 1966 o “Suplemento Literário de Minas Gerais”, mantido pelo governo do estado e em circulação até hoje.

— O Murilo dos anos 1960 era próximo do Mário de Andrade dos anos 1930. Ele estava fazendo política pública de cultura e faz isso até o fim da vida. Sua obra vai ficando em segundo plano. Otto já é o grande crítico e jornalista e o Murilo está insulado em Minas, fazendo o “Suplemento Literário”. Essa escassez se deve também à existência de outro intermediário: o telefone — lembra o pesquisador.

Publicado en OGlobo
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