Directoras negras de Brasil

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A mostra «Diretoras Negras no Cinema Brasileiro» está em cartaz no teatro da CAIXA Cultural Brasília de 4 a 11 de julho de 2017. Com curadoria de Kênia Freitas e Paulo Ricardo de Almeida, o projeto traça uma retrospectiva da produção cinematográfica empreendida pelas cineastas negras no Brasil, desde as pioneiras Adélia Sampaio e Danddara, até nomes contemporâneos como Juliana Vicente, Larissa Fulana de Tal, Lilian Solá Santiago, Renata Martins, Sabrina Fidalgo, entre outras.

“Segundo estudo conduzido pelo GEMAA – Grupo de Estudo Multidisciplinar de Ação Afirmativo – da UERJ, chamado ‘Raça e Gênero no Cinema Brasileiro’, entre os filmes de maior bilheteria do cinema nacional produzidos de 2002 a 2014, nenhum contava com roteiristas ou diretoras negras”, conta Paulo Ricardo de Almeida.

O público vai conferir 46 filmes, entre longas, médias e curtas-metragens; ficção e documentário, em digital. “São filmes de resistência. Assim como Adélia Sampaio lutou para realizar “Amor Maldito”, cineastas como Viviane Ferreira, Yasmin Thayná, Juliana Vicente e Sabrina Fidalgo enfrentam o racismo e o sexismo que, assim como na sociedade, também estão entranhados no cinema brasileiro, essencialmente branco e masculino”, convida o curador.

A programação ainda traz dois debates abertos ao público: no dia 4 de julho (terça), às 19 horas, o primeiro debate aborda «Perspectivas e transformações: a mulher negra no cinema nacional», com as presenças das debatedoras Viviane Ferreira e Edileuza Penha de Souza e mediação da curadora Kênia Freitas. O debate conta com tradução em Libras, para portadores de necessidades especiais.

O segundo debate ocorre dia 8 de julho (sábado), às 19 horas, quando se trata sobre «O percurso das diretoras negras no cinema brasileiro», com as debatedoras Flora Egécia e Letícia Bispo e mediação pelo curador, Paulo Ricardo Gonçalves de Almeida.

No que tange à acessibilidade, a mostra também vai contar com uma sessão com audiodescrição e Closed Captions para portadores de necessidades especiais, do filme “Leva” (2011, 55 min), direção de Juliana Vicente e Luiza Marques, às 17h30, domingo, dia 9 de julho.

A História e as Diretoras Negras no Brasil:

Adélia Sampaio começou no cinema em 1969, através da Difilm, distribuída fundada por Rex Endsley, Riva Faria, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, entre outros. Ela aprendeu cinema na prática, como diretora de produção de diversos longas-metragens. Eduardo Leone ensinou-lhe montagem; Marcos Faria, roteiro; e José Medeiros, fotográfica. Filha de empregada doméstica, Adélia Sampaio dirigiu quatro curtas-metragens. O primeiro foi “Denúncia Vazia”, baseado no fato verídico de um casal de idosos que, sem condições de pagar o aluguel, cometem suicídio. O segundo curta foi “Agora Um Deus Dança em Mim!” e conta a história de uma jovem que estuda balé clássico por dez anos e descobre que não existe mercado de dança no Brasil. “Adulto não Brinca” mostra a intolerância do adulto para com a criança. Por fim, “Na poeira das ruas”, sobre pessoas que moram na rua, no centro da cidade, embaixo dos viadutos. Armazenados na Cinemateca do MAM, os negativos dos quatro curtas-metragens desapareceram.

Em 1984, Adélia Sampaio se tornou a primeira diretora afrodescendente a dirigir um longa-metragem no Brasil: «Amor Maldito», que também carrega o peso de ser o primeiro filme com temática inteiramente lésbica no cinema nacional. A ousadia, considerada absurda pela Embrafilme, que lhe negou financiamento, forçou Adélia Sampaio e sua equipe a trabalharem em regime de cooperativa. Emiliano Queiroz, Nildo Parente e Neusa Amaral abriram mão do pró-labore. Nenhuma sala, contudo, aceitou exibi-lo, até que o Cine Paulista (hoje Olido) propôs que «Amor Maldito fosse divulgado como filme pornô.  “Adélia Sampaio foi uma das pioneiras e, embora o cinema continue marcadamente patriarcal e branco, diretoras afrodescendentes ocupam cada vez mais espaços atrás das câmeras.” Destaca o curador Paulo Ricardo de Almeida.

Nos anos 1990, a realidade do Cinema Feminino Negro no Brasil pouco se alterou. Danddara, umas das resistências do período, ingressou no cinema profissional fazendo assistência para Paulo Rufino (Canto da Terra, 1991). Mas o seu primeiro curta, “Gurufim na Mangueira” (2000) foi recusado três vezes pelo Ministério da Cultura antes de ser aprovado. E, ainda assim, a diretora usou de diversos subterfúgios para driblar o racismo institucional, como assinar o projeto com um pseudônimo francês e relevar para segundo plano a sua autoria do roteiro.

“Houve o barateamento dos equipamentos de produção, sobretudo com a entrada em cena do digital, que aumentou o acesso a uma arte (ainda cara) para um número maior e mais diverso de realizadores. O estabelecimento do sistema de cotas nas universidades públicas, assim como o ProUni e o Fies trouxeram para o ensino superior – também de cinema e de audiovisual – alunos e alunas pobres e negros, antes excluídos. A abertura de uma linha de financiamento específica na Ancine para afrodescendentes significa o reconhecimento da falta de diversidade pela instância máxima de fomento do cinema brasileiro”, completa o curador.

Não há um «movimento» de cineastas negras, no sentido de uma agenda que as unifique. Cada uma trabalha suas próprias questões que, no entanto, acabam por se encontrar nas pautas em ebulição no Brasil entre mulheres afrodescendentes: feminismo, identidade de gênero, machismo, patriarcalismo, assédio sexual, racismo, orgulho étnico, injustiças raciais e sociais. herança africana. São diretoras, em sua maioria, jovens, de diferentes locais do país: Amazonas (Elen Linth, Keyla Serruya), Rio de Janeiro (Larissa Fulana de Tal), Brasília (Eliciana Nascimento), São Paulo (Renata Martins).

Sobre os curadores:

Kênia Freitas é pós-doutoranda do programa de Mestrado da Universidade Católica de Brasília. Doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Mestre em Multimeios pela Unicamp. Formada em Comunicação Social/Jornalismo, na Ufes. Possui pesquisas em andamento no campo do documentário, das novas tecnologias e do movimento afrofuturista. Realizou a curadoria das mostras «Afrofuturismo: cinema e música em uma diáspora intergaláctica» (2015/ Caixa Belas Artes/SP) e «A Magia da Mulher Negra» (2017/Sesc Belenzinho/SP). Integra o Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.

Paulo Ricardo Gonçalves de Almeida é formado em Comunicação Social na UFRJ e em Cinema pela UFF. Trabalhou como crítico de cinema na revista Contracampo e na revista Moviola. Foi curador e produtor da mostra «Oscar Micheaux: O Cinema Negro e a Segregação Racial», no CCBB-RJ, SP e BSB, em 2013, da mostra «Surrealismo e Vanguardas» no CCBB-RJ, em 2014, da mostra «Francis Ford Coppola: O Cronista da América», no CCBB-RJ, SP e BSB, em 2015, e das mostras «A Vanguarda de São Francisco», em 2015, na Caixa Cultural-RJ, e «Ken Jacobs», na Caixa Cultural-RJ, em 2016.

Serviço: Diretoras Negras no Cinema Brasileiro

Data: De 4 a 11 de julho de 2017

Local: CAIXA Cultural Brasília | Teatro da CAIXA

Endereço: SBS Quadra 4 Lotes 3/4 Edifício anexo à matriz da CAIXA

Ingressos: Entrada franca

Classificação indicativa: Verifique a classificação indicativa

Ver sinopses dos filmes: www.facebook.com/DiretorasNegras

Informações: (61) 3206-6456 e 3206-9448

Patrocínio: CAIXA e Governo Federal

Publicado en Fatoonline

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