Com mostras teatrais e discussões políticas, o Encontro Internacional de Teatro Político Augusto Boal aglomera grupos de todo o país esta semana em Maricá (RJ). As atividades fazem parte da programação do I Festival Internacional da Utopia, que ocorre na cidade até o próximo domingo (26).

Integra a programação nove espetáculos de diferentes companhias, entre elas, a Cia do Latão, e de artistas como o paraíbano Alfim Márcio Marciano e a indiana Jana Sanskriti.

A articulação para o encontro deve muito às reuniões nacionais Teatro e Sociedade, em Brasília (DF) e em São Paulo (SP), afirma Douglas Estevam, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

“Nos últimos anos, fortalecemos a aproximação dos grupos, a troca de experiências e os trabalhos em conjunto. Convidamos, além de movimentos sociais que têm produção artística, artistas que são próximos aos movimentos sociais e que querem estreitar os laços. Os dois processos se alimentam”, disse.

O MST, que é um dos organizadores do Festival da Utopia, já se articulava com os grupos teatrais políticos estrangeiros e trabalha, em suas Brigadas de Teatro, com a linha do teatro do oprimido, formulada por Augusto Boal, homenageado pelo encontro. O dramaturgo é conhecido internacionalmente por ser o criador de uma metodologia teatral que insere a inclusão social como um dos objetivos da arte.

A ideia de um encontro internacional durante as atividades em Maricá (RJ) partiu da inquietação de como setores da esquerda pensam a cultura, que Douglas afirma ser preocupação latente do movimento.

“A relação entre cultura e política e, principalmente, entre movimento sociais e cultura ainda tem muito que ser explorada e entendida. A gente teve a preocupação de integrar a arte dentro da nossa concepção política”, explicou.

Intercâmbio

A troca de experiências entre os grupos e ativistas do teatro ocorreu, por exemplo, em um debate na manhã desta quinta-feira (23), no Cinema Público de Maricá, onde se uniram diversos expoentes da área.

A argentina Cora Feistein, do Coletivo Casonero, relatou as experiências da Escola de Teatro Político, em Buenos Aires. O grupo, que não está alinhado a partidos políticos, oferece uma formação estética e política de dois anos para quem deseja integrar projetos militantes, independentemente se a pessoa integra ou não algum movimento.

“É para pessoas que querem se formar como ‘artista-ativista’. E teatro político não tem a ver com falar com discursos políticos, mas ter coerência e ser popular”, disse.

Sabrina Esperanza, do Coletivo GTO Montevideo, define-se como “anticapitalista, antipatriarcal e feminista” e explicou como os artistas uruguaios mobilizaram pessoas contra um plebiscito que previa a redução da maioridade penal no país.

“Fizemos um projeto com uma linguagem que mostrava as causas sociais que fazem com que os adolescentes sejam vistos como responsáveis pela insegurança. A ideia era mostrar que essa realidade pode ser modificada. Os meios de comunicação fragmentam a realidade. Então, nós contamos a informação”, disse.

Já o israelense Chen Alon apresentou as experiências do Combatentes pela Paz, que reúne atores de Israel e da Palestina. O coletivo realiza ações diretas de violações que burlam leis segregacionistas em apresentações em espaços públicos onde, por exemplo, palestinos e israelenses não podem frequentar. O objetivo é de resistência à ocupação dos territórios palestinos.

Alon fez parte de um grupo de oficiais e soldados que serviam ao exército isralense que se recusaram a apoiar a ocupação de territórios palestinos, em 2002. Ele foi preso por se negar a cumprir a função.

“Eu já era ator profissional. Depois que saí da prisão, não poderia ficar em teatros regulares. Tinha que pensar modos de fazer teatro que condiziam com as minhas perspectivas.  Foi aí que conheci Augusto Boal – é irreal que eu nunca tinha ouvido falar nele na escola de teatro ou universidade”, declarou.

O grupo realiza atividades em pares sempre em duas cidades simultâneas, uma palestina e outra, israelense.

Publicado en BrasilDeFato