O Santander Cultural, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, anunciou no último domingo, o cancelamento da exposição “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira”, após protestos na instituição e nas redes sociais. Em nota, o centro cultural afirma ter entendido que as obras expostas “desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo” (leia abaixo a nota completa).

Críticos da mostra afirmaram nas redes sociais que alguns dos quadros representavam “imoralidade”, “blasfêmia” e “apologia à zoofilia e pedofilia”. As pinturas mais compartilhadas mostram a imagem de um Jesus Cristo com vários braços, crianças com as inscrições “Criança viada travesti da lambada” e “Criança viada deusa das águas” estampadas, além do desenho de uma pessoa tendo relação sexual com um animal.

O curador Gaudêncio Fidelis diz ter sido pego de surpresa com o cancelamento da mostra.

— Não fui consultado pelo Santander sobre o fechamento. Fiquei sabendo pelo Facebook. Logo em seguida, recebi uma rápida ligação da direção do museu, em que fui comunicado da decisão. Perguntaram se eu queria saber a opinião do banco sobre o assunto. Respondi que não precisava, uma vez que a nota divulgada já dizia tudo — disse o curador.

Aberta no dia 15 de agosto e prevista para acontecer até 8 de outubro, a “Queermuseu” contava com mais de 270 obras, oriundas de coleções públicas e privadas, que exploravam a diversidade de expressão de gênero. Na época em que a exposição foi anunciada, o Santander informava que “valoriza a diversidade e investe em sua unidade de cultura no Sul do País para que ela seja contemporânea, plural e criativa”. O GLOBO não conseguiu contato com a assessoria de imprensa da empresa.

Para Fidelis, o fechamento da mostra foi “uma atitude arbitrária”.

— Já fiz duas bienais do Mercosul, nunca tinha visto algo parecido — afirma Fidelis, sobre a decisão “unilateral”. — As manifestações foram muito organizadas e se debruçaram sobre algumas obras muito específicas, que não dão a verdadeira dimensão da exposição. Esses grupos (de críticos) mostraram uma rapidez em distorcer o conteúdo, que não é ofensivo.

Entre os autores expostos na “Queermuseu”, estavam Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Clóvis Graciano e Ligia Clark. A mostra reunia pinturas, gravuras, fotografias, colagens, esculturas, cerâmicas e vídeos.

No Facebook, foi criado um evento de apoio à exposição, com um “ato pela liberdade de expressão artística e contra a LGBTfobia” marcado para a próxima terça-feira, no Centro Histórico de Porto Alegre.

— As pessoas estão indignadas (com o cancelamento), com razão — diz Fidelis. — Mais de 1,4 mil pessoas foram à abertura da mostra. Foi muito celebrada. O público cresceu desde então, manteve o ritmo.

Uma das obras criticadas da exposição no RS
Uma das obras criticadas da exposição no RS Foto: Reprodução/Facebook

O prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior, compartilhou a nota do Santander Cultural, afirmando que a exposição “mostrava imagens de pedofilia e zoofilia”.

Leia a íntegra da nota divulgada pelo Santander Cultural:

Nos últimos dias, recebemos diversas manifestações críticas sobre a exposição Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira. Pedimos sinceras desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra.

O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia. Nosso papel, como um espaço cultural, é dar luz ao trabalho de curadores e artistas brasileiros para gerar reflexão. Sempre fazemos isso sem interferir no conteúdo para preservar a independência dos autores, e essa tem sido a maneira mais eficaz de levar ao público um trabalho inovador e de qualidade.

Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.

O Santander Cultural não chancela um tipo de arte, mas sim a arte na sua pluralidade, alicerçada no profundo respeito que temos por cada indivíduo. Por essa razão, decidimos encerrar a mostra neste domingo, 10/09. Garantimos, no entanto, que seguimos comprometidos com a promoção do debate sobre diversidade e outros grandes temas contemporâneos.

Publicado en ExtraGlobo

Portinari, Volpi, Lygia Clark viraram pornografia para MBL

A pressão veio de movimentos como o MBL que postou no seu site e página do Facebook, matéria incitando o ódio, acusando o curador de perversão, ameaçando e agredindo verbalmente os visitantes e artistas (ver relato no FB) em nome da moral e dos bons costumes!

O mais espantoso, a exposição “QueerMuseu: Cartografias das diferenças na arte brasileira”, com curadoria de Gaudêncio Fidelis, que foi curador-chefe da 10ª Bienal do Mercosul, em 2015, simplesmente traz obras de Volpi, Portinari, Flávio de Carvalho, Ligia Clark, Alair Gomes, Adriana Varejão, artistas mais que consagrados, e uma série de fotografias, esculturas, pinturas, filmes e vídeos, colagens gravuras de artistas contemporâneos e de todos os tempos.

Ou seja, os pseudos “liberais” atacam não só a liberdade de expressão, mas demostram uma vasta ignorância em relação as formas disruptivas da arte falar de comportamento, crenças, valores. O nome disso não é liberalismo é fascismo, literalmente.

A patrulha fundamentalista e de “ódioartivismo” repete o Partido Nazista da Alemanha, nos anos 30, que passou a perseguir o que considerava uma “arte degenerada”, ligada aos movimentos vanguardistas modernos.

Picasso, Matisse, Mondrian, glórias da arte mundial, foram considerados “degenerados” e execrados em exposições pelos nazis. Repete-se no Brasil de 2017 o ridículo histórico.

“Arte Degenerada” foi o título de uma mostra, montada pelos nazistas em Munique, em 1937, em que as obras modernistas eram acompanhadas de faixas e rótulos ridicularizando as peças expostas, inflamando e produzindo ódio na opinião pública.

O MBL está usando a mesma estratégia nas redes, alimentando um exército de zumbis que vêem “pornografia” e “depravação” em qualquer proposta que trate de diversidade, gênero, questões de comportamento, temáticas LGBT.

No meio de uma exposição gigantesca, com mulheres de Portinari e fotos de Alair Gomes, trabalhos de Leonilson, com 85 artistas e todas as linguagens, o exército de zumbis só vê “pedofilia”, “pornografia”, “depravação”, “imoralidade” , “blasfêmia”.

As imagens degeneradas? Uma figura de Jesus Cristo com várias pernas e mãos, como o Buda de mil braços, imagens com a inscrição “Criança viada travesti da lambada” e “Criança viada deusa das águas”, e o desenho de uma pessoa tendo relação sexual com um animal (coisa que no Brasil já virou até história em quadrinhos, só lembrar de Carlos Zéfiro, e seus “catecismos” eróticos, fora o conteúdo “adulto” na internet, na TV a cabo, no youtube, liberado para quem quiser ver).

Os novos moralistas também acusam o Santander Cultural de utilizar a Lei Rouanet (sempre ela!) para financiar a “arte denegerada” segundo a vasta ignorância cultural do MBL e seu exército teleguiado. Mas é justamente o contrário, em um momento extraordinário da cultura brasileira, essas obras e esse tipo de exposição nos fazem pensar, refletir questionar sobre a intolerância, o preconceito, a violência diante do outro e diante das diferenças.

Na sua Nota de cancelamento o Santander Cultural, que diz repudiar todo tipo de preconceito, e tinha apresentado a exposição QueerMuseu como um incentivo a “uma mudança no modo de pensar, em sintonia com uma sociedade diversa e democrática”, recuou lamentavelmente e cancelou a mostra que já tinha sido visitada por milhares de pessoas e ficaria em cartaz até outubro.

A máquina de retrocessos que está operando no Brasil é primária e boçal, esse ato de ódio e intolerância contra artistas, contra obras, contra sujeitos que lutam para se expressar é o signo não de uma “arte degenerada” mas de uma sociedade doente que não suporta a democracia, que não suporta a existência dos outros! Mas estão mexendo com o mais potente e poderoso: o “parlamento dos corpos”, a lei do desejo e essa é difícil de censurar ou calar.

Publicado en Midia Ninja