Você já deve ter se deparado com um meme brasileiro durante uma pesquisa na internet e nem se deu conta disso. Sabe aquele da loira confusa, com fórmulas complicadas no fundo? É um meme brasileiro.

O Brasil é o quarto país com o maior número de usuários da internet no mundo todo. O português é a única língua oficial no país e a maioria da população não fala inglês. Apesar de a maior parte da internet ser anglófona, os brasileiros conquistaram um grande espaço na rede, ocupado por falantes de português, que o utilizam do seu próprio jeito — ou seja, abusando dos memes.

A verdade é que, para entender o país no contexto de 2017 — desde novelas a noticiários, até política e economia —, é preciso observar a sua cultura de memes.

O Brasil leva os seus memes tão a sério que deu início à Primeira Guerra Memealcontra Portugal em 2016, após descobrir que um usuário português do Twitter se apropriou de um dos memes favoritos dos brasileiros.

Por mais que seja difícil explicar para estrangeiros os memes de um país, a pesquisadora brasileira Gabriela Lunardi aceitou o desafio. Ela é uma estudante de pesquisa do QUT Digital Media Research Centre (Centro de Pesquisa de Mídia Digital QUT) na Austrália e, atualmente, trabalha num projeto que, segundo ela, “procura entender por que os memes brasileiros são diferentes de outros países, expressam aspectos específicos da cultura do país e têm tanta importância”.

“O Brasil é muito ativo na internet, não só pelo número de usuários, mas também por ter um comportamento bem particular online. […] Os brasileiros não ligam se você não entender a sua língua e as piadas internas; mesmo assim vão falar com você — ou a Katy Perry e a Nicki Minaj — como se você fosse um deles”, Gabriela afirmou em um ensaio sobre a ex-cantora e dançarina brasileira Gretchen, conhecida como a rainha dos memes no Brasil e que, recentemente, estrelou em um clipe da Katy Perry, Swish, swish.

Nós conversamos com Gabriela para entender “por que os memes do Brasil são importantes”.

Global Voices: Por que você escolheu os memes como objeto de estudo da sua dissertação?

Gabriela: Meu TCC na graduação foi sobre o canal de YouTube “Porta dos Fundos”. Eu amei estudar sobre a internet brasileira, então quis investigar mais a fundo a relação entre humor e cultura brasileira online. Sempre achei os memes brasileiros maravilhosos. Eles dizem muito sobre o Brasil, e isso ficou ainda mais claro quando vim para a Austrália e vi que os australianos tinham um humor completamente diferente do nosso e não entendiam nossos memes.

GV: Em que os memes brasileiros diferem dos outros países?

Gabriela: Cada país ou região tem memes diferentes, que refletem suas culturas. Os memes brasileiros retratam quem é o brasileiro e como ele lida com a cultura popular, a política e a realidade social. Eles são incrivelmente difíceis de entender para quem vê de fora porque temos esse aspecto único que é falar dos nossos problemas através do humor. Uma frase que eu gosto muito de falar para quem não é brasileiro é que “nós rimos pra não chorar”, porque acho que ela descreve perfeitamente esse nosso jeito singular de fazer humor.

Eu tive que logar de novo nessa conta porque senti que estava falando comigo mesma na outra.

A Cuca é uma vilã com aparência de jacaré antropomórfico, do programa de TV infantil brasileiro “Sítio do Picapau Amarelo. Em 2017, quando GIFs da personagem circularam no Twitter, alguns disseram que ela havia substituído o Babadook como o novo “ícone gay”.

GV: Como você descreve essa linguagem única brasileira? 

Gabriela: Auto-ironia. Ao mesmo tempo que criticamos os nossos problemas como país e o nosso comportamento como sociedade, fazemos humor, como se rir fosse a única alternativa diante daquela realidade. Os nossos memes se apresentam como genuinamente brasileiros porque são paradoxais e complexos, como a nossa cultura. Quando rimos do Brasil é como se, ao mesmo tempo, a gente sentisse vergonha e orgulho de ser brasileiro.

GV: Quais são os desafios de traduzir os memes brasileiros para outros contextos?

Gabriela: Um dos meus maiores desafios foi tentar “traduzir” nossos memes culturalmente. A grande dificuldade é que existem memes que só fazem sentido se você é brasileiro — e esses eram os que mais me interessavam. Então na minha tese eu resgatei um pouco da história do Brasil e tentei explicar um pouco da nossa cultura, antes mesmo de tentar explicar nossos memes. Eu também tentei achar comparações com a cultura australiana e optei por descartar aqueles que eram muito culturalmente específicos.

GV: Como começou a cultura do meme no Brasil?

Gabriela: Não há registros oficiais sobre “o primeiro meme de internet no Brasil”. Na verdade, não há um consenso na Academia sobre quando a palavra “meme” começou a ser efetivamente usada na internet, de modo geral. Originalmente, essa palavra vem da teoria do biólogo Richard Dawkins, de 1976, onde ele define “meme” como a transferência de ideias de pessoa para pessoa através da repetição. Na internet, um meme seria uma ideia, frase, imagem ou vídeo que vai se repetindo e se transformando. Por isso, muito antes da internet o Brasil já produzia memes, como cantigas de roda que foram se transformando através do tempo, ou bordões de novelas que foram usados em outros contextos, por exemplo. Um dos primeiros memes brasileiros na internet de grande sucesso foi o vídeo “Tapa na Pantera”, de 2006, que ganhou paródias, versão em funk, e trechos do vídeo viraram bordões.

GV: Como os memes influenciam a cultura brasileira?

Gabriela: Os memes estão nos ajudando a construir a nossa identidade cultural, que é extremamente complexa e abstrata. Os memes que ironizam os escândalos políticos dos últimos anos, por exemplo, ilustram a forma como o brasileiro encara os problemas do país e suas visões políticas. Quando “rimos da desgraça” estamos nos expressando de uma forma extremamente brasileira. Esse jeito de encarar os problemas pode não ser de hoje, mas a comunicação em rede consegue transformá-lo em um retrato da cultura brasileira, como se determinada linguagem, uso do humor e comportamento determinassem o que é ser brasileiro na internet. Isso faz com que os internautas brasileiros se vejam como pertencentes a uma mesma cultura, por mais que seja composta por diferentes visões políticas e sociais.

GV: No seu artigo sobre a Gretchen, você disse que algumas estrelas do pop internacional aderiram à onda dos memes brasileiros. É comum acontecer o mesmo com os memes de outros países ou os brasileiros dominam a internet, em termos de piadas internas?

Gabriela: O Brasil está ganhando espaço na internet, sim. Hoje, somos o quarto país com maior presença online e, mais do que ter um alto número de usuários, nós somos MUITO ativos online, principalmente nas redes sociais. Há, inegavelmente, um orgulho dos memes nacionais por parte dos internautas brasileiros, que fazem questão de compartilhá-los com os “gringos”, atitude que também faz parte da construção da identidade cultural que citei anteriormente. Cada vez mais os brasileiros estão sendo vistos como parte de uma internet intensamente dominada pelos EUA. Isso acontece principalmente quando memes brasileiros são “validados” pela cultura norte-americana, como foi o caso da presença da Gretchen no videoclipe da Katy Perry.

Esta é uma cena da novela “Mulheres Apaixonadas”, do começo dos anos 2000, em que a atriz Vera Holtz interpretou uma professora alcoólatra. As personagens de novela da atriz são uma fonte inesgotável de memes no Brasil e ela se tornou uma figura cult na internet, pelas fotos surrealistas/sem sentido nas redes sociais.

GV: Se você pudesse definir o Brasil em um meme, qual escolheria?

Gabriela: Missão impossível! Acho que nem se eu fizesse um catálogo de memes eu conseguiria definir esse país tão único e complexo. Mas existe um comentário (não um meme, especificamente) que eu acho que diz muito sobre como usamos o humor para criticar os problemas brasileiros ao mesmo tempo em que construímos nossa identidade cultural. Acho que ele representa muito bem esse paradoxo de termos vergonha e orgulho do Brasil ao mesmo tempo, algo que está no DNA dos nossos memes. Estou falando da resposta de uma internauta à cantora Azealia Banks que, incomodada com o bombardeio de comentários em português recebidos após criticar o Brasil, disse: “eu não sabia que tinha internet na favela”. A resposta da Débora não poderia ser mais brasileira, e por isso gosto muito dessa imagem:

Publicado en Global Voices

Si quieres entender a Brasil, debes ver sus memes

Probablemente te has encontrado con un meme brasileño en alguna búsqueda de internet y ni siquiera lo sabías. ¿Conoces este con una rubia confundida con fórmulas complicadas como fondo? Es un meme brasileño.

Brasil se ubica como el cuarto país con el mayor número de usuarios de internet del mundo. El portugués es el único idioma oficlal del país y la mayoría de su población no habla inglés. Aunque la mayor parte de internet es decididamente anglófona, los brasileños han forjado un gran territorio digital lusoparlante propio. Y principalmente lo usan para hablar en sus propios términos –lo que significa muchos memes.

Lo cierto es que, para entender cualquier cosa sobre Brasil en 2017, desde telenovelas hasta noticias, de política a economía, se debe ver sus memes.

Brasil toma sus memes tan en serio que el país inició la Primera Guerra Mundial de Memes contra Portugal en 2016, después de enterarse de que un usuario portugués de Twitter se había apropiado de un meme muy querido.

Aunque puede ser difícil explicar los memes de cualquier cultura a los forasteros, la investigadora brasileña Gabriela Lunardi aceptó el reto. Es estudiante investigadora en el Centro de Investigación de Medios Digitales QUT en Australia y actualmente trabaja en un proyecto que “trata de entender por qué los memes brasileños son diferentes a otros memes, cómo expresan aspectos específicos de la cultura brasileña y por qué importan”.

“Brasil es muy activo en internet, no solamente por la cantidad de usuarios, sino también porque los brasileños tienen una manera específica de comportarse en línea. […] A los brasileños no les importa si no se entiende su idioma o sus bromas, te hablarán — o a Katy Perry, o Nicki Minaj— como si fueras brasileño”, Gabriela dice en un ensayo sobre la excantante y bailarina brasileña Gretchen –conocida como la reina de los memes, en Brasil– que hace poco apareció en el video de Swish, swish de Katy Perry.

Conversamos con Gabriela para entender “por qué los memes brasileños importan”.

Global Voices: ¿Por qué decidiste estudiar memes en tu tesis?

Gabriela: Mi ensayo final para mi pregrado fue sobre un canal de YouTube llamado “Porta dos Fundos” [“Puerta trasera”, canal brasileño de escenas cómicas]. Me encantó estudiar el internet brasileño, así que decidí profundizar en la relación entre humor y culuira brasileña en línea. Siempre he pensado que los memes brasileños son maravillosos. Dicen mucho sobre Brasil, y eso fue más claro cuando me mudé a Australia y vi que los australianos tienen un humor completamente diferente al nuestro y no entienden nuestros memes.

GV: ¿En qué se diferencian los memes brasileños de los memes de otros países?

Gabriela: Cada país o región tiene diferentes memes que reflejan su cultura. Los memes brasileños retratan a los brasileños y cómo enfrentan la cultura popular, política y realidad social. Son increíblmente difíciles de entender, para quien los ve de afuera, porque tenemos esa manera única de hablar de nuestros problemas a través del humor. Una frase que me gusta mucho mencionar a los no brasileños es que “reímos para no llorar”. Creo que describe perfectamente nuestra manera única de hacer humor.

Tuve que volver a iniciar sesión en esta cuenta, porque sentí que hablaba conmigo mismo en la otra cuenta.

Cuca es un lagarto antropomórfico del programa de televisión infantil brasieño Sitio do Picapau Amarelo. En 2017, gifs del lagarto circularon en Twitter, y algunos afirmaron que había reemplazado a The Babadook como el nuevo “ícono gay”.

GV: ¿Cómo describes esta lenguaje brasileño único?

Gabriela: Autoironía. Al mismo tiempo que criticamos nuestros problemas como país y nuestro comportamiento como sociedad, nos burlamos, como si reír fuera la única alternativa ante esa realidad. Nuestros memes se presentan como genuinamente brasileños porque son paradójicos y complejos, como nuestra cultura. Cuando reímos a costa de Brasil, es como si tuviéramos vergüenza y orgullo de ser brasileños.

GV: ¿Cuáles son los desafíos de traducir memes de Brasil a otros contextos?

Gabriela: Uno de mis mayores desafíos fue tratar de “traducir” nuestros memes culturalmente. La mayor dificultad es que algunos memes solamente tienen sentido si eres brasileño –y los que me parecieron más interesantes. En mi tesis, rescaté algo de la historia brasileña y traté de explicar nuestra cultura antes de intentar explicar nuestros memes. También traté de encontrar comparaciones con la cultura australiana y opté por descartar los que eran muy culturalmente específicos.

GV: ¿Cómo empezó la cultura de memes de Brasil?

Gabriela: No hay registros oficiales del “primer meme en internet de Brasil”. En verdad, no hay un consenso académico sobre cuándo la palabra “meme” se empezó a usar en internet, de modo general. Originalmente, la palabra viene de la teoría del biólogo Richard Dawkins de 1976, donde define “meme” como una transferencia de ideas de persona a persona a través de la repetición. En internet, un meme sería una idea, frase, image o video que se va repitiendo y transformando. Es por eso que muchos antes de internet, Brasil ya producía memes, con rimas populares que cambiaban con el tiempo, o frases de telenovelas que se usaban en otros contextos. Uno de los primeros memes brasileños exitosos fue “Tapa na Pantera” [“golpecito en la pantera”], de 2006, que tuvo varias parodias, una versión funk y extractos que se convirtieron en frases claves de un chiste.

GV: ¿Cómo lo memes impulsan cambio en la cultura brasileña en general?

Gabriela: Los memes nos están ayudando a construir nuestra identidad cultural, que es extremadamente compleja y abstracta. Los memes que se burlan de escándalos políticos de los últimos años ilustran cómo los brasileños enfrentan los problemas del país y sus propias ideas políticas. Cuando “nos reímos de la desgracia”, nos estamos expresando de una forma extremadamente brasileña. Esta manera de enfrentar los problemas puede no ser nueva, pero la comunicación en red puede transformarla en un retrato de la cultura brasileña, como si determinado lenguaje, uso del humor y comportamiento definiera qué es ser brasileño en internet. Eso hace que los usuarios brasileños de internet se vean como pertenecientes a una misma cultura, por más que esté compuesta por diferentes visiones políticas y sociales.

GV: En tu artículo sobre Gretchen, mencionas cómo algunoas estrellas pop internacionales han adoptado memes brasileños. ¿Es común observar memes de otros países o los brasileños son amos de tomar el pelo en internet?

Gabriela: Brasil está ganando espacio en internet. Hoy somos el cuarto país del mundo con mayor presencia en línea, somos MUY activos en línea, especialmente en medios sociales. Hay, innegablemente, orgullo en los memes nacionales de los internautas brasileños, que insisten en compartirlos con los “gringos” (jerga para designar a los extranjeros), actitud que también forma parte de nuestra identidad cultural que mencioné antes. Cada vez, se está viendo a los brasileños como parte de una internet ampliamente dominada por Estados Unidos. Eso ocurre principalmente cuando los memes brasileños son “validados” por la cultura estadounidense, como en el caso de Gretchen en el video musical de Katy Perry.

Esta es una escena de la novela brasileña “Mujeres apasionadas”, de inicios de los años 2000, donde la actriz Vera Holtz interpretaba a una maestra que luchaba con alcoholismo. Los personajes de novelas de Holtz son una fuente popular de memes en Brasil, y ella misma se ha convertido en figura de culto por sus retratos surrealistas y sin sentido de sus cuentas de medios sociales.

GV: Si pudieras definir a Brasil con un meme, ¿cuál escogerías?

Gabriela: ¡Misión imposible! Ni aunque hiciera un catálogo de memes podría definir un país tan único y complejo. Pero un comentario (no es específicamente un meme) que creo que dice mucho sobre cómo usamos el humor para criticar los problemas al mismo tiempo que construimos nuestra identidad cultural. Creo que esto muestra perfectamente esta paradoja de tener vergüenza y orgullo de Brasil al mismo tiempo, algo que está en el ADN de nuestros memes. Estoy hablando de la respuesta de una cibernauta a la cantante Azealia Banks, molesta por el bombardeo de comentarios en portugués que recibió después de criticar a Brasil. Azealia escribió: “no sabía que había internet en la favela”. La respuesta de Débora no pudo ser más brasileña.