Sambas autorales

Movimentos fora do eixo Rio-São Paulo apontam desafios

Os grupos de sambas autorais têm relevância na oxigenação do gênero, no surgimento de novos compositores e até no aspecto de integração social.

Nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo eles são mais estabelecidos e conhecidos, como o Samba da Vela, mas na medida em que nos afastamos desses centros, os projetos vão se rareando, tornando únicos em vários locais, porém símbolos de resistência.

No dia 24 de agosto, o Sesc Sorocaba terá um bate-papo com alguns representantes desses movimentos fora do eixo RJ-SP sobre propostas e continuidade, com a participação de Claudio Silva, do Panela do Samba de Sorocaba (SP), Paulo Perdigão, do Mesa de Samba Autoral do Recife (PE), Agrício Costa, do Samba da Opinião de Ribeirão Preto (SP) e João Fernandes, do Bumbo do Japi de Jundiaí (SP).

Antecipamos aqui algumas inquietações desses movimentos sobre as rodas autorais.

Compor não é uma tarefa simples e exige preocupação com a melodia, métrica e divisão e o conteúdo da letra. Os membros desses projetos costumam observar todos esses pontos dos compositores que os procuraram.

Já seus frequentadores mais assíduos gostam de boa música, tem entendimento da proposta e são abertos para ouvir sambas inéditos.

Mulheres intérpretes e compositoras também se fazem presentes nos encontros dos grupos de samba inéditos.

Dificuldade de conceito

O Panela do Samba, fundado há 10 anos, se reúne uma vez por mês com apresentações de sambas exclusivamente autorais.

O seu idealizador, Claudio Silva, diz que enfrenta dificuldades na questão do conceito do projeto.

“Sorocaba tinha muitas influências do samba na linguagem carioca, até surgir o nosso projeto.”

Ele explica que não se difundia, por exemplo, o samba rural paulista, origem do gênero em São Paulo. O fato de privilegiar o samba do Rio dificultava o desenvolvimento de um núcleo autoral local.

“O projeto é importante hoje porque dá visibilidade aos compositores que querem apresentar suas obras. Quem comparece sabe que ali terá atenção e liberdade, por mais simples que seja, de cantar seu trabalho.”

Claudio explica que o Panela do Samba possibilitou que músicos e instrumentistas que não tinham o hábito em compor, passassem a fazê-lo.

Ele conta que o movimento se beneficia por estar uma hora de Tatuí, onde existe um dos conservatórios de música mais conhecidos do país. “Sempre somos contemplados por músicos de altíssimo nível.”

No Panela do Samba algumas composições têm suas letras em um caderno de músicas inéditas para que os frequentadores possam acompanhá-las.

Após seu início no quintal da mãe de seu idealizador, o Panela do Samba passou por vários locais e hoje se encontra mensalmente, na primeira quinta-feira do mês, no espaço Cultural Du-Artes, no Jardim Maria Eugênia, zona norte de Sorocaba.

Nesse agrupamento, pelo menos 350 encontros já foram realizados e mais de 100 composições autorais apresentadas.

Disputa com o frevo

Paulo Perdigão fundou a Mesa de Samba Autoral. Nascido no Rio, o cantor e compositor, com dois discos solos lançados, vive na capital pernambucana há 25 anos.

“O samba autoral tem dificuldade de se estabelecer porque o intérprete tem obstáculos de apresentar a música. A rádio não toca, nem a emissora pública”, diz.

Por isso ele defende a necessidade do compositor apresentar com insistência seu próprio trabalho, começando pelas rodas de músicas inéditas.

“Aqui é terra do frevo, o que dificulta ainda mais”, conta, ressaltando que há grupos até contra o samba e em prol do ritmo musical local.

Paulo, destaca, no entanto, que muitas das composições de samba produzidas referenciam Pernambuco e tem forte sotaque regional.

Ainda assim, o projeto, criado há mais de uma década, já é conhecido na capital pernambucana e conseguiu trilhar caminho próprio.

“Depois que a Mesa ganhou certa projeção alguns membros foram cuidar da carreira solo. Chegaram alguns jovens, mas tem gente mais velha. A nossa roda não é para fazer show. O compositor canta uma música e depois aguarda sua vez de novo”.

Paulo explica que as rodas de samba autoral têm dificuldade em cobrar entrada, o que é uma grande barreira para o seu desenvolvimento. Hoje, o projeto busca novo lugar para os encontros.

Além do rádio e do Ibope

O Samba da Opinião nasceu para valorizar as composições autorais dos sambistas de Ribeirão Preto, levar as questões sociais para o foco e fortalecer o samba raiz, segundo um de seus fundadores, Agrício Costa.

De acordo com o sambista, tudo é compartilhado e decidido entre as várias vozes do agrupamento. O projeto é novo e nasceu com o objetivo de o grupo cantar o samba de seus membros.

Na comemoração de um ano do movimento, imprimiram uma revista com 16 sambas autorais produzidos no local, que foi distribuída para que as pessoas pudessem conhecer e cantar as músicas nos encontros.

“Foi o primeiro passo no registro do que se compõe aqui”, afirma Agrício.

“O projeto dá voz aos sambistas, difundi e fomenta o samba. Somos o único coletivo da região. Não é fácil através do samba cantarmos as mazelas sociais e políticas, mas seguimos o conceito de ser instrumento do samba que vai além da rádio e do Ibope”.

O movimento Samba da Opinião, além da música autoral, executa também obras dos grandes mestres do samba paulista, carioca e baiano.

“Fomentamos a cultura afro-brasileira em espaços públicos sem ajuda alguma do poder público local. Resistimos através da arte sendo veículo de pensamento crítico e diálogo”.

O agrupamento de samba autoral de Ribeirão Preto conta com cerca de 20 sambistas-compositores, entre assíduos e esporádicos, que se reúnem quinzenalmente para realizar uma roda aberta no centro da cidade de Ribeirão Preto, embaixo do relógio da praça XV de Novembro.

Em 2018, o grupo lançou o primeiro caderno de samba, com 18 músicas inéditas. “Atualmente, estamos em processo de finalização do primeiro EP do coletivo. Foram gravadas três músicas que já estão disponíveis nas redes sociais e estamos finalizando mais quatro que serão lançadas no nosso aniversário em setembro”, diz Agrício.

Pesquisa do samba paulista

O Bumbo do Japi nasceu a partir de uma roda de samba, há cerca de cinco anos, e incorpora as raízes do samba paulista ao seu projeto.

De acordo com o vocalista João Fernandes, o grupo tem proposta de pesquisar o samba do interior de São Paulo, principalmente o samba rural, o samba de bumbo.

BUMBO DO JAPI (FOTO: LÍSIAS SENA)

O Bumbo do Japi é uma referência em Jundiaí. “Não existe projeto desse tipo na cidade, um trabalho de composições autorais. Então, fomentamos entre os músicos da localidade a criação, a composição, e não só a reprodução”.

O núcleo lançou um CD ano passado, aliás um registro bastante original e de qualidade, e hoje faz apresentações, ao invés de promover regularmente rodas de samba.

A prática de fazer apresentações, inclusive em outros estados, além dos encontros tradicionais, é uma forma de difusão dos trabalhos desses agrupamentos de músicas autorais e arrecadação de recursos, e todos os movimentos aqui citados incorporam isso às suas atividades. É também uma forma de fazer intercâmbio com outras comunidades.

As rodas de samba autorais são uma marca do gênero desde o início do século passado. Elas começaram nas casas das tias baianas, depois foram para dentro das escolas de samba e hoje se desenvolvem em espaços culturais, alguns bares abertos a fomentar iniciativas ligadas às artes e por vezes em local público.

Carta Capital

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