Afrosinfônica

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Afrosinfônica traz a identidade negra ao som de orquestra

Grupo lança novo álbum e reforça a presença da ancestralidade na Bahia

Por Augusto Diniz

Criada em 2009, a Orquestra Afrosinfônica lança seu segundo álbum, fortalecendo a identidade negra e a tradição da Bahia na exaltação à ancestralidade.

“A orquestra só existe porque é um coletivo que pensa muito parecido. A maioria é ligada à religião de matriz africana. São pessoas que acreditam nessa música e fazem por amor”, diz o maestro Ubiratan Marques, fundador do projeto.

A formação da orquestra é praticamente a mesma em relação ao primeiro trabalho, Branco (2015), uma devoção a oxalá. “Branco serve de modelo de processo criativo nosso. Um álbum que fala muito da Bahia, das nossas coisas”.

Este segundo, chamado Orin – A Língua dos Anjos, o maestro diz que o modelo de se fazer já estava pronto. “A gente precisava era de um conceito. E Orin é fruto de conversas com Mateus Aleluia”. Orin significa canção em ioruba.

O cantor e compositor Mateus Aleluia é uma referência na Bahia de pesquisa da ancestralidade brasileira. Dessas conversas de Marques com Aleluia saíram várias músicas, sendo que seis delas foram parar no segundo álbum da Orquestra Afrosinfônica.

O maestro destaca a capacidade de Aleluia de fazer a “conexão do mundo das ideias com o mundo dos sentidos” na composição musical: “Mateus fala do mistério com muita naturalidade”.

Das outras seis faixas do trabalho, três são só do próprio maestro Ubiratan Marques, uma do angolano Dodo Miranda, outra do trio Gerônimo Santana, Sílvio Ricarti e Ricardo Amaro, e uma reunindo Antônio Carlos & Jocafi, Ubiratan Marques, Roberto Barreto e Russo Passapusso, com a participação da BaianaSystem na gravação dessa música chamada Água.

Aliás, o álbum Orin, todo cantado, está saindo pelo selo Máquina de Louco, do grupo BaianaSystem.

Atitude

A Afrosinfônica ensaia em uma casa no Pelourinho, centro histórico de Salvador, e sobrevive de ajuda financeira de admiradores e participação em editais. A orquestra é composta por 22 músicos, a maioria negra, que tocam instrumentos de percussão, madeiras (flauta, clarinete e sax), metais e cordas, além do coral.

“É um projeto de atitude, de acreditar, e não sou eu quem tem que acreditar sozinho. As pessoas da orquestra também”, ressalta Marques.

Os músicos da orquestra são de classes baixa e média-baixa, que lecionam música em projetos de comunidade. Inclusive, alguns foram alunos do maestro ainda da criação da orquestra. “São pessoas que pensam parecido”, diz.

Um outro aspecto interessante da orquestra é que ela reforça a tradição dos grupos afros de Salvador.

“Toda essa cultura vem da ancestralidade, da história desse povo. Tem essa ideia de música circular, não linear, que acaba gerando isso”, conta o maestro, que já participou de vários grupos baianos com características semelhantes.

“Esse é território da mãe África. Isso é muito do povo Jeje, Nagô, ketu, de Angola. Isso tem muito a ver com todas essas nações que vieram para cá. Essa ideia do modalismo, de continuidade. Eu percebo isso dentro desse projeto. E a musicalidade está presente”.

A produção do álbum é do experiente André Magalhães, profundo conhecer das tradições musicais brasileiras. A arte da capa é do artista plástico Vik Muniz.

A faixa-título, de autoria de Ubiratan Marques, é uma canção na língua iorubá que fala de deuses e anjos africanos. A terceira tem participação de Lazzo Matumbi. A música Nabeleli Yo, de Dodo Miranda, é no idioma lingala, do Congo. Trata-se de um trabalho muito rico.

Os 22 talentosos músicos da Orquestra Afrosinfônica que gravaram o álbum Orin são: Nilton Azevedo (flauta, flautim), Júlio Sant’Anna (flauta), Indira Dourado, Renata Pitanga (ambas clarinete), Léo Couto (sax alto), Tukano (sax tenor), Vinícius Freitas (sax barítono, sax soprano), Everaldo Pequeno, Carlos Cardoso (ambos trompete e flugelhorn), Gilmar Chaves, Toni Jaonitã (ambos trombone), Carlos Eduardo (tuba), ngelo Santiago, Marcus Sampaio (ambos contrabaixo acústico), Lucas de Gal, Marcelo Tribal, Nem Cardoso, Jason Wild (todos percussão), Tâmara Pessôa, Djara Mahim, Dinha Dórea e Raquel Monteiro (todas vozes).

Carta Capital

 

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