Dedicado a Marielle

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Marina Iris reúne referências negras em álbum dedicado a Marielle

A cantora de samba Marina Iris chega ao seu terceiro álbum solo exaltando as referências negras na cultura do país em um trabalho dedicado a Marielle Franco.

“Esse álbum traz elementos dos discos anteriores. Fala das coisas que me formam, da minha identidade, como o primeiro (lançado em 2014).  Reivindica as ruas e apresenta suas narrativas e disputas como em Rueira (lançado em 2018). E reúne mulheres negras de origens diferentes, em um encontro de visões de mundo a partir da perspectiva negra”, diz.

“O que há de diferente é que esse encontro se ampliou, tanto no que diz respeito às pessoas como no que tange a linguagem. Música e literatura se abraçam nesse trabalho.”

O álbum conta com as escritoras Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo e Elisa Lucinda lendo textos de suas obras em algumas faixas, e tem ainda citação ao livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus.

A direção musical é da cantora Ana Costa e tem ainda participações de Leci Brandão, Fabiana Cozza e Marcelle Motta.

Voz do samba

Com envolvimento de toda essa força da expressão negra na nossa cultura no álbum, de título Voz Bandeira, Marina Iris se coloca na linha de frente do samba às questões que preocupam hoje.

“Marielle representou muitas vozes e sofreu o mais profundo silenciamento. Algo que não podemos aceitar que aconteça a outras. Não podemos naturalizar. Muitas vozes se levantaram a partir do que aconteceu. Esse trabalho é também uma cobrança pela solução do caso e por um país em que nos sintamos representadas nos espaços de poder e decisão”, justifica a homenagem a vereadora assassinada.

“Passou da hora da população pobre e preta não almejar apenas sobreviver. O que se quer é viver bem. Desfrutando de sua dignidade. Essas mulheres (as escritoras que participam do álbum) mostram que somos diversas em nossa luta comum. Para que o racismo estrutural sucumba.’

A menção ao livro Quarto de Despejo, na voz de Elisa Lucinda, aparece na faixa Travessias (Ana Costa e Manu da Cuíca). Marina Iris encomendou a composição, que pretendia uma canção semelhante ao gênero musical cabo-verdiano coladeira, comumente interpretado por Cesária Évora.

Quando ela ouviu a música veio à lembrança o livro de Carolina Maria de Jesus. A composição fala dos deslocamentos forçados dos negros.

“A profundidade da letra casa com a profundidade do mundo apresentado por Carolina (no livro Quarto de Despejo)”.

Ideias do carnavalesco Leandro Vieira

A faixa-título que abre o álbum, Voz Bandeira (Marina Iris e Raul DiCaprio), foi inspirada em um texto de Leandro Vieira.

“Sua inquietação artística cumpre um papel fundamental. Maior ainda em momentos de aumento da intolerância, retirada de direitos e perseguição da cultura”, define o carnavalesco da Mangueira que é um dos maiores símbolos hoje da resistência por meio da arte.

Leandro Vieira tem admiração por Marina Iris e em um texto a definiu como voz bandeira, o que a levou a colocar a expressão no título de seu novo trabalho.

“Normalmente, críticos, quando se referem às vozes, falam de alcance, emoção, interpretação, potência etc. Além de exaltar esses aspectos, Leandro fez questão de se ater às vozes que a minha voz carrega. Que vivências e percepções de mundo estão colocadas. Para ele, há um Brasil inteiro nessa voz de mulher negra, lésbica, militante.”

A capa é também do carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira. O trabalho sai pela Joia Ao Vivo – braço da gravadora Joia Moderna, que conta com curadoria do DJ Zé Pedro e Marcio Debellian. O álbum é o segundo de uma série patrocinada pela Oi, com gravações realizadas no estúdio LabSonica, mantido pela Oi Futuro.

O álbum reúne composições inéditas e outras conhecidas do público, como o clássico samba-enredo da Mangueira desse ano e a forte Onze Fitas (Fátima Guedes), duas músicas contestadoras, cada uma em seu tempo. As referências afro-brasileiras, apresentadas no jeito carioca e típico do melhor do samba urbano, são predominantes no álbum.

Trecho de Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, é lido na terceira faixa. Na sétima, Conceição Evaristo declama parte do seu livro Poemas da Recordação e Outros Movimentos. Na nona música do álbum, Elisa Lucinda versa trecho de O Livro do Avessoo Pensamento de Edite.

Marina Iris também participa do coletivo Épreta, composta com outras cantoras da nova geração do samba. Em 2017 o grupo chegou a lançar um trabalho fonográfico.

Carta Capital

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